Editorial

Uma decisão que ninguém entende

A ausência de Portugal da Expo de Milão, quando o agro-alimentar é o tema, é deveras incompreensível.

Por mais que se critiquem as exposições universais ou mundiais, é inegável que elas assumem um papel de relevo na aproximação de países, culturas e, certamente, negócios. É isso que explica que centena e meia de países nelas reincidam, apesar dos obstáculos financeiros ou geográficos. A Expo 2015, que abrirá as portas a 1 de Maio e que, ao longo de seis meses espera atrair mais de 20 milhões de pessoas, realiza-se em Milão num espaço de 1,1 milhões de metros quadrados e tem como tema “Alimentar o Planeta, Energia para a Vida”. Será, dizem os organizadores, um dos maiores espaços de exibição de alimentos de sempre, ao mesmo tempo que olhará para fenómenos sociais relacionados com a alimentação ou a falta dela, discutindo também a subnutrição ou a fome e os meios adequados para lhes fazer frente. Dir-se-ia que, com tal tema em agenda, Portugal não podia faltar. E nem sequer é preciso muito esforço para procurar argumentos, porque o sector agro-alimentar português tem vindo a mostrar-se capaz de dar “cartas” nos seus mais variados subsectores. Pois bem: Portugal não vai estar presente. A decisão provocou, naturalmente, incómodos. Não só do sector agro-alimentar, onde a reacção mais branda é de espanto, como no próprio Governo: Machete mandou perguntar a Portas o que se passava e este remeteu a pergunta para Cristas, ou seja, para o Ministério da Agricultura e do Mar. Que se justifica com vários factores: o custo da edificação de um pavilhão próprio (que custaria entre 6 a 8 milhões de euros); os custos inerentes à sua manutenção ao longo da Expo (“substanciais investimentos” que a ministra não quantifica); e o facto de “as opções em termos de localização de espaços” não serem “as mais adequadas”. Por isso, a resposta foi não.

É curioso que nenhum destes itens tenha impedido Portugal de participar em todas as exposições universais desde a sua própria Expo 98 (Hanôver, Alemanha, 2000; Aichi, Japão, 2005; Xangai, China, 2010) e em todas as mundiais excepto uma, em Yeosu. E que disso tenha tirado proveito, e até com reconhecidos sucessos como em Xangai. E é curioso ainda que a decisão de não participar se aplica não só num momento em que a distância é bem menor (não é na China nem no Japão, é na Itália, aqui bem perto) e quando o tema nos diz particularmente respeito. Ir a uma Expo sobre alimentação e não ver Portugal ali representando é um óbvio contra-senso. Claro que oito milhões dão sempre jeito aos cofres do Estado e, como nos vamos habituando, a poupança abstracta impõe-se muitas vezes à razão. Mas em Itália, onde Portugal não estará, participam países que não são propriamente ricos, como o Togo, o Burundi, o Gabão, o Gana, mas que acham importante participar. Da Europa, estarão praticamente todos os países, à excepção dos nórdicos; e da CPLP, onde Portugal gosta de se insinuar, irão todos excepto Timor-Leste (até ontem não constava da lista oficial da Expo 2015) e, claro, Portugal. Mas sempre retemos 8 milhões nos cofres. A troco de uma figura triste.