Egipto discute missão na Líbia no Conselho de Segurança

Líder egípcio coloca-se na primeira linha da luta contra o terrorismo depois de bombardear posições jihadistas na Líbia.

Sissi foi eleito depois do golpe que derrubou Mohamed Morsi, em 2013
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Sissi foi eleito depois do golpe que derrubou Mohamed Morsi, em 2013 AFP

Um dia depois de ter bombardeado suspeitos alvos de jihadistas leais ao autodesignado Estado Islâmico na Líbia, o Presidente do Egipto, Abdel Fattah al-Sissi, pediu oficialmente uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para uma intervenção militar na Líbia. O Cairo reagiu assim a um vídeo onde os radicais mostravam a decapitação de 21 cristãos coptas egípcios que tinham sido raptados em Dezembro na Líbia, onde trabalhavam.

Sissi, eleito depois de ter orquestrado o golpe que derrubou Mohamed Morsi, Presidente eleito e membro da Irmandade Muçulmana, coloca-se assim na primeira linha da luta contra o terrorismo. "Não há outra escolha", defendeu em declarações à rádio francesa Europe 1. A Líbia, avisa, vai transformar-se em "terreno de terrorismo" e ameaçar, para além do Egipto, "a bacia mediterrânica e a Europa".

O Conselho de Segurança vai reunir-se na quarta-feira à tarde: para além dos 15 Estados-membros, estará presente o ministro dos Negócios Estrangeiros egípcio, Sameh Shoukri. Este "fará uma exposição da situação", disse aos jornalistas em Nova Iorque o adjunto da representação permanente britânica, Peter Wilson. A França e a Itália também pediram uma reunião para discutir "novas medidas" sobre a Líbia.

Mas não é esperada sequer uma resolução sobre o tema, apenas o início de um debate. E dificilmente algum tipo de intervenção externa será aprovado: a Rússia e a China opõem-se à ideia, depois de a missão aprovada para proteger civis cercados pelas forças do antigo ditador Muammar Khadafi ter basicamente sido utilizada para ajudar a oposição a derrotar as forças do coronel, morto pelos rebeldes.

Para além do acordo dos membros permanentes e com direito de veto do Conselho de Segurança (China e Rússia incluídos), seria necessário um pedido formal do governo líbio. Ora a Líbia tem neste momento dois governos rivais: um reconhecido internacionalmente, com sede em Tobruk, cidade portuária do Leste do país; e outro, que incluiu grupos islamistas, assumiu o controlo da capital, Trípoli, no ano passado.

Questionado sobre se prevê voltar a bombardear posições na Líbia, Sissi respondeu com a necessidade de uma resposta conjunta: "Precisamos de continuar a responder, mas em conjunto, para travar o terrorismo."

Para o líder egípcio, esta é a oportunidade de "mudar a dimensão do seu estatuto no Ocidente", disse à AFP Mustafa Kamel al-Sayyd, professor de Ciência Política na Universidade do Cairo.

Sissi tem sido descrito pelas organizações internacionais de direitos humanos como chefe de um dos regimes mais repressivos do mundo, mas esta campanha militar vai permitir-lhe fazer desaparecer – ou mesmo justificar – a repressão que levou à morte de mais de 1400 manifestantes islamistas e à detenção de 15 mil partidários de Morsi. O novo regime não vê diferença entre combatentes radicais e a Irmandade Muçulmana, todos são "terroristas". O actual Governo não prende apenas islamistas, tendo proibido manifestações e condenado a penas de prisão líderes de movimentos seculares que mobilizaram a revolta de Janeiro de 2011.

Para H. A. Hellyer, analista britânico do think tank Brookings Institution, de Washington, "as críticas sobre direitos humanos e liberdades civis", que chegaram a levar os Estados Unidos a suspender a ajuda económica ao país (quase toda militar), "arriscam-se agora a serem postas de lado".