Eurogrupo e Grécia sem acordo

Reunião do Eurogrupo termina após recusa grega de prolongar actual resgate. "O próximo passo deve vir" de Atenas, disse Jeroen Dijsselbloem. Varoufakis acredita em acordo.

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O Governo liderado por Alexis Tsipras não abre mão da recusa em estender o programa da troika François Lenoir/Reuters

O Eurogrupo fixou um prazo até ao fim da semana para a Grécia pedir um prolongamento do actual programa de ajuda financeira, que o Governo de Atenas considera inaceitável. "Este programa é parte do problema não da solução", reagiu o ministro grego Yanis Varoufakis, que se manifestou confiante num acordo nos próximos dois dias.

É "muito claro que o próximo passo deve vir das autoridades gregas", disse, nesta segunda-feira, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, depois da reunião dos ministros das Finanças da zona euro, após a recusa grega de uma extensão por seis meses do programa. "Olhando para o calendário, podemos usar esta semana, mas é tudo", disse.

Questionado sobre a possibilidade de uma nova reunião do Eurogrupo, na próxima sexta-feira, Dijsselbloem declarou que um encontro nesse dia só se realizaria no caso de a Grécia pedir o prolongamento do programa de assistência, cenário que Atenas afasta.

Um responsável do Governo grego tinha dito à Reuters, ainda com a reunião a decorrer, que o texto de esboço de uma proposta apresentado na reunião do Eurogrupo insistia na extensão do actual programa da troika, algo que o executivo grego considera inaceitável.

“A insistência de algumas pessoas na ideia de o Governo grego implementar o programa da troika não é razoável e não pode ser aceite. Nestas circunstâncias, não é possível haver um acordo”, disse à Reuters a fonte do Governo grego, que não foi identificada. A afirmação confirmou os vários sinais de pessimismo à entrada para a reunião do Eurogrupo, que terminou ao fim de quatro horas.

Numa conferência de imprensa após a reunião, Varoufakis afirmou que o comissário dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, lhe apresentou esta segunda-feira um anteprojecto de comunicado que estaria disposto a assinar na hora mas que, disse, foi retirado por Dijsselbloem, em favor de um texto diferente que desfez os progressos que disse ter havido nos últimos dias. “A história da UE mostra que dos ultimatos não vem nada de bom”, disse o ministro grego, que reafirmou a esperança num acordo com os parceiros europeus.

"Não tenho dúvidas de que nas próximas 48 horas a Europa vai submeter-nos [um documento] para que comecemos o verdadeiro trabalho" de chegar a um "novo contrato" que seja "bom para a Grécia e bom para a Europa", disse.

Em Atenas, o ministro da Defesa, Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes, partido que integra o Governo liderado pelo partido de esquerda Syriza, também reagiu ao ultimato da zona euro. "Não pediremos qualquer extensão, temos um mandado do povo para ir até ao fim. Os gregos em conjunto dizem não. Não nos chantagearão", escreveu na sua conta no Twitter.

Apesar da falta de acordo desta segunda-feira, os ministros das Finanças do Eurogrupo estão disponíveis para novas conversações se e quando a Grécia manifestar vontade de uma extensão do programa, disse, depois do encontro, o vice-presidente da Comissão, Valdis Dombrovskis.

Sobre uma eventual nova reunião, disse: “Depende da decisão das autoridades gregas. Ficou claro que, se e quando, houver um pedido de prorrogação do programa de resgate, se houver certos compromissos das autoridades gregas para aderir ao programa, então o presidente do Eurogrupo anunciará a próxima  [reunião]”.

"Não há alternativa ao prolongamento do programa", sublinhou o comissário Moscovici. "Vamos continuar a dialogar esta semana".

Críticas alemãs
O facto de não ter havido acordo não pode ser considerado muito surpreendente. O dia começou com Wolfgang Schäuble a qualificar o Governo grego como “irresponsável”.

"Tenho pena dos cidadãos gregos. Elegeram um Governo que de momento se comporta de uma forma bastante irresponsável", disse o ministro das Finanças alemão nesta segunda-feira de manhã numa entrevista à rádio Deutschlandfunk.

À entrada da reunião do Eurogrupo, e apesar das discussões a nível técnico que tiveram lugar este fim-de-semana entre o Governo grego e a Comissão Europeia, reafirmou estar “muito céptico”.

“Até agora tudo o que ouvi não reforçou o meu optimismo. Parece que ainda não temos resultados.”

Interrogado sobre se estaria em cima da mesa uma extensão do programa actual ou um novo programa, colocou as responsabilidades claramente do lado dos gregos.

“Enquanto o Governo grego não quiser nenhum programa, não preciso de pensar em opções”, respondeu Schäuble.

O que divide a Grécia e os parceiros europeus
Para conseguir assegurar o financiamento de que precisa sem continuar a ser sujeito ao programa da troika assinado pelo anterior Governo, o executivo liderado por Alexis Tsipras avança com uma solução: emitir mais dívida pública de curto prazo que lhe garanta que consegue cumprir todos os seus compromissos financeiros até Setembro. Nessa altura, então, seria estabelecido um programa de financiamento mais duradouro com os parceiros europeus.

Os outros governos europeus e também o BCE não gostam desta solução. No programa da troika para a Grécia ficou estabelecido um limite de 15 mil milhões de euros para a quantidade de emissões de dívida pública de curto prazo que a Grécia pode fazer.

O limite foi imposto para evitar que o país vá pagando as suas dívidas de logo prazo apenas através de empréstimos de curta duração concedidos pelos bancos gregos. O BCE, em particular, considera que isso põe em causa a solvabilidade dos bancos e a estabilidade de todo o sistema financeiro.

Por isso, a Grécia tem encontrado nos seus encontros nas capitais europeias (e em Frankfurt também) uma resposta insistente: para ter o financiamento do Estado e dos bancos assegurado, é preciso que o actual programa da troika, com as condições que lhe estão associadas, seja prolongado para além do seu actual prazo de 28 de Fevereiro. Algo que Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis têm, desde o primeiro dia após a tomada de posse, recusado.