Opinião

"Não (nos) TAP os olhos!" (carta aberta a um deputado da Nação)

Excepto no seu caso, ainda não vi qualquer responsável político desmentir – porque não podem – a notícia de que a TAP tem um lucro operacional constante desde 2009.

Caro Dr. Virgílio Macedo: Escreveu V. Exa, no passado dia 5, um artigo onde afirmava enfaticamente o seu amor pela TAP, ao mesmo tempo que justificava a necessidade da venda da nossa companhia aérea. Pelos vistos, está na moda. O excêntrico Ministro da Economia tem-se multiplicado, também ele, em declarações de afecto pela nossa Companhia aérea e pelo insubstituível papel estratégico que a TAP ocupa no mundo lusófono, para justificar a urgência de se ver livre dela.

Só que, onde o seu colega Pires de Lima, que fala de cátedra, não se dá ao trabalho de explicar aos portugueses a razão de tão insólita conclusão, o sr. Deputado entendeu esclarecer-nos sobre as razões que o levam a defender que a nossa companhia de bandeira tem que ser expurgada do que o ex-comunista Vital Moreira chama o “condomínio entre o Estado e os sindicatos da empresa”, e a que só o pulso forte de um privado estrangeiro, segundo V.Ex.ª, poderá pôr cobro.

O problema é que, no afã de provar as suas razões, socorre-se de argumentos que são todos eles, sem excepção, falsos, viciados ou tendenciosos, o que só pode acontecer por ignorância, incompetência ou má-fé. Afasto, por cortesia, a má-fé. Restam a ignorância e a incompetência, sobretudo de quem o “informou”.

Comecemos pelo princípio. Excepto no seu caso, ainda não vi qualquer responsável político desmentir – porque não podem – a notícia de que a TAP tem um lucro operacional constante desde 2009. Tal como não podem negar o facto de, em 2013, ter conseguido finalmente inverter a degradação dos capitais próprios, com uma recuperação dos prejuízos, que passaram de €136,6 milhões, no primeiro semestre do ano passado, para €83,4 milhões no final de Junho. E esta recuperação aconteceu, apesar de ter aumentado o número de aviões e de trabalhadores.

Segundo a Parpública, a TAP tem uma dívida inferior a mil milhões de euros pela primeira vez desde 2006. Resta saber se o apuramento deste montante inclui a amortização da dívida da ex-VEM brasileira, no valor de 500 milhões de euros – uma compra desastrosa cuja responsabilidade está por apurar. E se estão a ser contabilizadas as dívidas da Venezuela e de Angola à TAP e que ascendem a perto de 160 milhões de euros.

Sendo assim, a menos que V.Ex.ª explique aos leitores, numa folha Excel, que €1000 milhões menos €160 milhões (dívida de Estados soberanos) menos €500 milhões (alegada dívida da Manutenção Brasil) menos €100 milhões (comparticipação nas rotas deficitárias), continuam a ser 1000 milhões, e não €240 milhões, terei dificuldade em conceber os seus ataques ao que chama a “ineficiência económica da empresa” e os exorbitantes privilégios dos seus trabalhadores.

Qualquer português se pergunta: “Se a TAP tem a situação económico-financeira menos má dos últimos 15 anos, como é possível ter sobrevivido? E se sobreviveu sem sobressaltos laborais qual é a pressa de a vender?”

Mas o Sr. Deputado tem um preconceito e comete erros grosseiros para chegar mais depressa às suas conclusões, que se podem resumir numa ideia: “Eu gosto tanto da TAP que quero ver-me livre dela quanto antes”. Por exemplo: afirma que a TAP tem 4500 trabalhadores, quando tem 12.856. E alega que “usufruem salários muito superiores à média nacional e possuem múltiplas regalias acessórias”, privilégios que, ou não existem ou são normais em companhias aéreas, e que sobretudo não deviam ser invocados por quem, enquanto deputado, beneficia das regalias que os portugueses conhecem.

Depois, alega que “a TAP tem uma frota de 77 aeronaves, para concluir, com desprezo, que, “do ponto vista operacional, é uma pequena companhia.” É verdade que a Iberia possui uma frota de 139 aeronaves e a Lufthansa de cerca de 300, esquecendo-se de comparar a dimensão dos países, o que transformaria de imediato a TAP numa companhia de grande dimensão. E acrescenta que a idade média da frota da TAP é de cerca de 12 anos. Para não me alongar, deixo aqui apenas um número, que espero seja eloquente: a média da frota da Iberia regista-se nos 14,5, enquanto a frota da TAP está nos 12 anos.

Mas, sobretudo, para provar o anacronismo de Portugal querer conservar a sua companhia aérea nacional, que V. Ex.ª tanto ama, arremessa com o argumento fatal: “Das companhias aéreas 'de bandeira' na chamada Europa Ocidental, só a TAP é que é detida 100% por capitais públicos.”

Esquece-se (disse, no início, que me recusava a admitir que a sua campanha fosse ditada pela má-fé) de explicar o que aconteceu às outras Companhias aéreas: a Iberia, a Aer Lingus e Olympic Airways estão reduzidas à sua expressão mínima, sendo que a companhia grega adoptou o inglês como língua oficial e deixou de realizar voos de longo curso. A Aer Lingus foi comprada pela Ryanair e está a dar um prejuízo incomportável, a Iberia já vai no terceiro despedimento colectivo, e, hoje, não passa de uma subordinada da British Airways. Não há nenhuma companhia aérea da dimensão da TAP que tenha crescido após uma privatização.

Finalmente, não posso deixar passar uma afirmação que demonstra que o Sr. Deputado anda, digamos, distraído, quando diz: “Sabemos que hoje, e felizmente, é contra as regras comunitárias os Estados subsidiarem ou capitalizarem empresas de transporte aéreo.” Registo o “felizmente” como uma confissão da sua fé neoliberal. Mas, infelizmente para si, a comissária europeia já veio dizer que era falso; e o próprio primeiro-ministro teve que o reconhecer publicamente, mas deve ter-se esquecido de lhe enviar o memorando interno do seu partido.

É por essas e por outras que hoje os portugueses vão perdendo perigosamente a confiança nos seus deputados, quando, muitos deles, ao não fazer o trabalho de casa, desacreditam a nobreza da sua missão e se mostram indignos dos seus privilégios. Ao contrário dos trabalhadores da TAP que, como confessa, o fazem “sentir-se em casa, dentro de um espaço exíguo... a 10.000 metros de altitude.”

Cineasta