Reportagem

“Cabe às pessoas, ao povo, manter o Syriza de esquerda"

Quando falta menos de uma semana para as eleições, o Syriza está a destacar-se nas sondagens. Alguns membros do partido desde que este tinha menos de 1% têm medo que se torne demasiado “redondinho”.

Giorgos Kokovlis senta-se na sua sala a fumar um cigarro e a beber o seu cafezinho. Às vezes está a ouvir música, outras vezes a rádio do Syriza – é a Internacional Socialista que marca o sinal horário. É militante do partido desde que este tinha menos de 1%, continuou quando teve 4% (em 2009) e quando chegou aos 26,5% nas últimas europeias. Quando muitos se preocupam com as exigências do Syriza, se chegar ao Governo, outros temem as cedências. Giorgos está entre os últimos.

“Eu sou comunista”, diz Giorgos. Não é o único no Syriza a descrever-se assim. Nas sedes do partido há retratos de Rosa Luxemburgo (mas no gabinete de Alexis Tsipras, o líder do partido, o de Che Guevara desapareceu). Um dos seus conselheiros económicos, John Milos, diz, numa entrevista ao The Guardian, que é marxista.
Syriza é uma sigla dos vários partidos que fizeram a Coligação de Esquerda Radical (um pouco como o Bloco de Esquerda em Portugal), mas a palavra quer dizer qualquer coisa como “rente”. As arestas que faziam parte da identidade estão a desaparecer: “O Syriza está a ficar redondinho, redondinho”, diz Giorgos, que é ceramista de arte aprendida no Ar.Co, em Lisboa – ele fala assim, português com alguns diminutivos.

As sondagens têm mostrado que a vantagem do principal partido da oposição sobre o partido que lidera o actual Governo está a aumentar. O jornal Kathimerini fez uma média de 13 sondagens que dão uma projecção de 29,5% ao Syriza, 25,7% à Nova Democracia, 6% ao partido O Rio (To Potami), 5,2% ao partido de extrema-direita Aurora Dourada, 4,8% ao Partido Comunista, 4% para o Partido Socialista (Pasok), 2,6% para os nacionalistas anti-acordo com a troika Gregos Independentes e 2,2% para o novo partido do antigo primeiro-ministro socialista George Papandreou, com 10,9% de indecisos.

Giorgos vive em Chania, Creta, uma das cidades mais bonitas da maior ilha da Grécia, e onde no Inverno há neve nas montanhas e pessoas na praia. Na sua casa, tem vegetais na horta e galinhas à solta. Descendo as escadas, o atelier de cerâmica, onde faz coisas que depois são vendidas em algumas lojas em Chania ou Atenas e onde trabalhou com a mulher, Alda Reis, que conheceu no Ar.Co, e que entretanto morreu. Por causa da crise, o atelier está quase vazio, antes trabalhavam aqui umas cinco a seis pessoas. Por causa das restrições das companhias aéreas, ele faz “coisas mais pequeninas, uns barquinhos”.

Giorgos vai vendo as sondagens e, quando todos estão convencidos da vitória do Syriza, ainda vai mostrando descrença. “Não sei o que estas pessoas são capazes de fazer para evitar sair do poder”, diz. “Não nos podemos esquecer que eles sabem que, se perderem o poder, vão ser presos pela corrupção.”

Ainda esta segunda-feira, o ministro da Saúde cessante, Makis Voridis, declarou que o partido Nova Democracia, no Governo, irá “fazer tudo o que é preciso” para impedir uma vitória do Syriza.

Para quem pudesse pensar que se tratava de uma referência velada à guerra civil de 1946-49, que opôs forças pró-governo aos rebeldes comunistas, Voridis garantiu: “A nossa geração não vai entregar o país. Vamos defendê-lo com os nossos votos no domingo como os nossos avós defenderam corajosamente com armas”.

Giorgos não precisava de ouvir a declaração de Voridis. Já antes lembrava a guerra civil e o regime dos coronéis que se seguiu. Afinal, os pais de Giorgos fizeram parte da resistência durante a guerra civil. Fugiram, em 1962, das perseguições anti-comunistas, pelas montanhas, até ao Uzbequistão, onde estavam muitos gregos de esquerda que também tinham fugido. Quando voltaram, Giorgos tinha 12 anos, falava sobretudo russo e pouco grego. Viu como o pai, com 55 anos, teve dificuldades em recomeçar a vida, arranjar emprego.

A família sempre foi reivindicativa. A mãe, com oitenta-e-muitos, continua a escrever cartas ao jornal local a denunciar situações que não acha bem. Giorgos começou a ser activo politicamente na juventude comunista. “Era um partido muito progressista naquela altura. As ideias do Syriza representam o que nós defendíamos naquela altura. Um socialismo com rosto de humanidade, dignidade para viver, liberdade de expressão."

Giorgos lutou, por exemplo, pelo voto aos 18 anos. Uma curiosidade é que nestas eleições, por dificuldades em actualizar os cadernos eleitorais, cerca de 100 mil eleitores com 18 anos não vão poder votar. Quando se estima que os jovens são a faixa que mais escolheria o Syriza, há muitas vozes a levantarem-se contra esta dificuldade burocrática.

Quanto a Giorgos, o medo não é só da luta eleitoral. Também se preocupa que o partido, mais redondo e a crescer depressa, “seja como uma bolha que rebenta”.

Há quem diga que o principal problema de um Governo liderado pelo Syriza (pelas sondagens parece difícil que seja sozinho, provavelmente teria de procurar um parceiro de coligação), não vai ser a ideologia, mas sim a falta de estrutura e quadros. “O aumento na percentagem de votos não se traduziu numa enorme máquina partidária”, diz Giorgos.

Isso nota-se logo na campanha. Um dos principais candidatos por Atenas vai com um grupo distribuir folhetos numa acção que não parece a mais profissional de sempre. Em Chania há cinco pessoas no quartel-general da campanha agarradas ao telefone a tentar recrutar pessoas para as eleições – são precisas 300 para assegurar presença nas mesas de voto, etc.

A principal figura do Syriza com poder executivo é a estreante Rena Dourou, governadora de Attika, a região que engloba Atenas onde vive mais de metade dos 10 milhões da população da Grécia, e ainda está no cargo há relativamente pouco tempo.

Para já, tomou algumas medidas que o Syriza propõe a nível nacional, incluindo fornecer electricidade a quem não a pode pagar. Como o Governo, incapaz de cobrar impostos, associou um imposto à conta da electricidade, esta subiu imenso e muitas pessoas não a conseguem pagar, ficando assim com o serviço cortado. Há associações que oferecem o restabelecimento ilegal e as autoridades fecham os olhos (há vídeos na Internet a mostrar como se faz), o próprio Governo restabeleceu temporariamente a electricidade, mas apenas na altura do Natal.

A esperança de que seja possível fazer estas mudanças será o principal mote de quem vota no Syriza. Muitos destes eleitores, que serão a maioria, não partilham das ideias de base do partido. “As mesmas pessoas que votaram no Pasok (partido socialista, partido minoritário na coligação do Governo) agora vão votar Syriza. Mas as pessoas não mudam", diz Giorgos. “O Syriza tem de ter cuidado e combater mentalidade de ‘amiguismos’ e relações de interesses.” Assim, “cabe às pessoas, ao povo, manter o Syriza de esquerda.”