Boyhood: como a própria vida

Boyhood é uma cápsula do tempo da vida americana – e não só – da última década: ao longo de 12 anos, Richard Linklater filmou em tempo real um miúdo a crescer; o mesmo elenco durante uma semana por ano ao longo de doze anos. Boyhood está nas salas

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Filmar ao longo de 12 anos o mesmo elenco, uma semana por ano
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Ellar Coltrane, hoje com 20 anos, interpreta Mason, o “herói” que as câmaras seguem dos 6 aos 18 anos
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“Quando o Rick me telefonou a perguntar se eu tinha planos para os próximos doze anos, respondi-lhe que sim: ‘tentar arranjar um emprego’”, diz Patricia Arquette. É irmã de Rosanna, foi actriz para David Lynch (Estrada Perdida) ou Tim Burton (Ed Wood), mas não se chama Meryl Streep, Brad Pitt, Julia Roberts ou Tom Cruise: e, por isso, nunca se sabe quando, ou de onde, virá o próximo cheque. Mas, para qualquer actor, a ideia de um projecto “estável” ao longo de doze anos de trabalho deixa água na boca.

“Só sabia que íamos rodar uma semana por ano, durante doze anos, e só isso chegou para me agarrar,” explica a actriz americana, sentada numa suite de um hotel berlinense em Fevereiro de 2014, poucas semanas depois de Boyhood – Momentos de uma Vida conquistar o festival de Sundance. “Não estávamos a fazer este filme por nenhuma razão monetária, nem pelo ego. Não havia um guião acabado nem garantia, ninguém ia ficar rico à conta deste filme, nem acreditei como é que o Rick tinha conseguido financiamento. No essencial, era um filmezinho ‘artístico’ de que a maioria das pessoas nunca iriam ouvir falar porque foi feito sem dinheiro e não tinha dinheiro para marketing nem nada do género, porque não entrava em nenhuma gaveta fácil de vender.”

Fast forward a Novembro de 2014, quando Boyhood, de Richard Linklater, chega às salas portuguesas: o tal filmezinho artístico que levou doze anos a rodar, revelado primeiro em Sundance e logo a seguir no festival de Berlim (onde ganhou Melhor Realização), parece ter tocado numa corda sensível do público e da crítica de todo o mundo. Somando uma colecção invejável de críticas entusiasmadas e 43 milhões de dólares de receitas globais (35 milhões de euros, quase dez vezes o seu custo de produção e um valor impressionante para um filme intimista de quase três horas), Boyhood tornou-se num dos filmes incontornáveis de 2014.

Em grande parte, isso deve-se à singularidade do seu dispositivo. Conta a vida de Mason, um miúdo dos arredores de Houston, filho de pais divorciados, da primária até ao 12º ano e à partida para a faculdade. Mas, ao contrário do que é habitual no cinema narrativo, fá-lo em “tempo real”: em vez de ter diferentes actores interpretando o miúdo em diferentes idades, o realizador e argumentista Richard Linklater distendeu a rodagem no tempo, filmando o mesmo elenco durante uma semana por ano ao longo de doze anos. Capturando no processo a verdade de assistir a Mason crescer.

Linklater, 54 anos, explica assim a sua motivação: “Se olharmos para trás, a verdade é que é das coisinhas pequenas da nossa vida que nos lembramos. São essas que ficam connosco, por razões que não sabemos bem explicar. Essencialmente, este é um filme de memórias. Estava a tentar registar aquilo de que um miúdo se poderia lembrar, por oposição aos grandes momentos que nos dizem que são importantes.”

Jogos com o tempo
Linklater não é nada alheio a este tipo de jogos com o tempo. Deve-se-lhe a trilogia composta por Antes do Amanhecer (1995), Antes do Anoitecer (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), que apanha o casal formado por Julie Delpy e Ethan Hawke em três pontos diferentes da sua relação e do seu romance, com nove anos de intervalo entre cada um. O britânico Michael Apted fez uma experiência semelhante no documentário com a série Ups, que desde 1964 acompanha um grupo de ingleses e os visita de sete em sete anos para fazer o “ponto da situação” das suas vidas – mas essa série é um documentário e, na ficção, uma aposta como a de Boyhood é praticamente inexistente.

Em Berlim, um jornalista polaco evocou uma eventual influência dos filmes que François Truffaut dedicou ao longo dos anos à personagem de Antoine Doinel, interpretada sempre por Jean-Pierre Léaud desde Os 400 Golpes em 1959 (filme que é um dos preferidos de Linklater). “Este filme é o oposto disso,” diz o realizador, “porque se trata de utilizar incrementalmente o tempo para contar a história, enquanto nos três filmes Antes e nos de Truffaut apanhamos as mesmas personagens com anos de intervalo. Mas talvez o espírito seja semelhante...”

Quem conhece a amizade que liga Linklater a um dos grandes documentaristas e experimentalistas dos nossos dias, James Benning, que tem trabalhado regularmente a persistência do tempo, percebe que há mais coisas a trabalhar subterraneamente o cinema do autor de Slacker (1991). Pelo meio de filmes mais “convencionais” como Escola de Rock (2003) ou Geração Fast Food (2006), o cineasta texano rodou a “dissertação filosófica” de Acordar para a Vida (2001) e adaptou Philip K. Dick em O Homem Duplo (2006), obras que exploravam diferentes maneiras de contar histórias, narrativa e formalmente, onde a imagem real surgia distorcida e transformada por camadas de animação digital (ambos saíram directamente em DVD entre nós).

Linklater assume isso. “Os meus instintos de contador de histórias sempre estiveram intrinsecamente ligados à noção de tempo no cinema. O cinema é uma forma de arte ancorada no tempo como nenhuma outra que conhecemos, ganha o seu poder do modo como o pode manipular e como pode ser apreendida ao longo do tempo... Com Boyhood tentei forçar as fronteiras de um certo modo de contar uma história. Tentei que esse efeito de acumulação do tempo funcionasse, no écrã, como na nossa vida real.”

Daí que Boyhood tenha também um lado de “cápsula do tempo” - os momentos em que foi rodado estão muito presentes: a guerra do Iraque, a eleição de Barack Obama, a crise económica, tudo isso surge na vida de Mason, da irmã mais velha e dos pais. “Sabia, pela sua própria natureza, que o filme teria esse lado,” diz Linklater. “Mas queria que isso fosse visto pela perspectiva de um miúdo, sem carregar demasiado nos significados.”

Crescer em público
Em termos práticos, isso implicava encontrar miúdos dispostos a “crescerem “ no écrã ao longo desse período. Ellar Coltrane, hoje com 20 anos de idade, interpreta Mason, o “herói” que as câmaras seguem dos 6 aos 18 anos. Em comum com a sua personagem, é um rapaz meio introvertido, meio observador, que não é de muitas falas – em Berlim, foi “emparelhado” com Linklater nas entrevistas - mas que exprime uma evidente curiosidade intelectual. “Não fazia ideia do que estava a acontecer,” como explica aos jornalistas, “porque aos seis anos de idade ninguém sabe o que é fazer um filme ao longo de doze anos”.

Coltrane foi escolhido através de audições; Linklater diz que, mais do que fazer um casting para o miúdo, tratou-se de fazer casting dos pais. “Era muito importante, tanto para ele como para o filme, que os pais apoiassem a ideia. Os pais do Ellar são artistas e penso que terão visto o projecto como potencialmente interessante. O meu grande medo era que eles se mudassem para longe, ou dissessem que já não queriam continuar...”

“Ou que se tornassem naquela coisa horrível que são os pais de palco, que gerem as carreiras dos filhos”, continua Coltrane. “Tanta coisa podia ter corrido tão mal de tantas maneiras diferentes”, como retoma Linklater. “Tudo isto foi um enorme salto no escuro, porque muitas coisas neste mundo não correm como gostaríamos. Mas o Ellar nunca levantou problemas quando chegava a altura de rodar, nunca lhe senti dúvidas nem o ouvi dizer que não lhe apetecia filmar este ano.”

O que já não era tão verdade no caso de Lorelei Linklater, filha do realizador, que interpreta a irmã mais velha de Mason. “Quando era mais nova ela queria ser actriz,” diz Richard para justificar a sua escolha, “cantava e dançava como todas as miúdas da idade dela.” [Atenção ao momento de Boyhood em que ela imita Britney Spears.] “Mas a dada altura começou a sentir-se menos à vontade, demasiado consciente de si própria. O filme tornou-se um pouco numa espécie de obrigação, e no ano em que teve de vestir-se de Hermione Granger ela já estava ‘ah não, nem pensar’. Mas depois deu a volta e percebeu que até era divertido.”

Quanto aos pais, interpretados por Patricia Arquette e Ethan Hawke, o desafio lançado por Linklater foi aceite imediatamente. “Atiraram-se os dois de cabeça, conscientes de que 12 anos era um empenho maluco. Já tinha trabalhado com o Ethan por várias vezes, e não conseguia pensar em ninguém melhor para o pai porque ele faz filmes desde os 13 anos de idade” e por isso poderia ser um bom “mentor” para Ellar Coltrane. “Mas nunca tinha trabalhado com a Patricia, e senti que ela trazia às personagens um certo empenho, ‘prego a fundo’, que sempre achei que a mãe devia ter.”

Na sala ao lado, a actriz – que, depois de encetar Boyhood, voltou a trabalhar com Linklater em Geração Fast Food e interpretou a série televisiva Medium – devolve o cumprimento. “Não existe outro cineasta como o Rick, e o que lhe sai da cabeça é profundamente pessoal, com uma atenção à verdade dos homens e das mulheres que mais ninguém tem hoje em dia. O que era fascinante na ideia dele era que o resultado só podia ser um filme intimista, pessoal.” Para uma actriz, evidentemente, ver-se envelhecer em frente à câmara não é fácil. “É horrível,” diz em resposta à pergunta de uma jornalista, “mas já sabíamos que ia ser horrível. E estávamos entusiasmados precisamente porque ia ser horrível, mas ia ser honesto.”

Por falar em honestidade: uma das perguntas mais repetidas em Berlim tinha a ver com a percentagem de Boyhood que estava escrita e a percentagem que estava improvisada. “A estrutura estava montada desde o princípio,” explicou repetidamente Linklater. “A arquitectura estava toda lá, eu até já sabia qual ia ser o último plano do filme, mas os pormenores – cenas específicas, diálogos, desenvolvimentos - foram trabalhados ano a ano.”

Patricia Arquette pormenoriza: “Umas semanas antes da rodagem, coisa de um mês, ele dizia-me: ‘este ano vais divorciar-te.’ E começávamos a falar à volta disso, juntávamos as experiências de muita gente envolvida no filme: o que tinha acontecido quando X se divorciou, quando os pais de Y se divorciaram, etc. A partir daí o Rick começava a desbastar e afinar.”

O envolvimento dos actores foi crucial para a definição do filme – como diz a actriz, “quando se recebe um guião acabado, pode-se desenhar o ‘arco’ da personagem, os altos, os baixos. Mas não se pode fazer isso quando não há guião. Boyhood era uma aventura, uma experiência, uma colaboração.” “Parece uma coisa muito aleatória, muito espontânea,” como diz Linklater, “mas houve muita energia, muito esforço, muita determinação envolvidos.” Arquette exemplifica com uma cena no início do filme. “Vamos mudar de casa, e na casa de onde vamos sair há uma série de coisas pintadas nas paredes – a altura dos miúdos marcada a caneta, murais desenhados à mão no quarto...” Esses murais – que apenas são vistos escassos segundos - foram desenhados pelos próprios actores, e Arquette diz que “discutimos durante muito tempo o que é que haveríamos de pintar... Há coisas neste filme que as pessoas nunca vão conseguir apreender, porque havia muita camada de vida real nossa.”

Talvez por isso, a questão de “o que fazer se tudo correr mal” nunca se tenha colocado a Linklater. “Todos os anos, montava o que tinha filmado nesse ano, e por isso sabia o que tinha em mãos, e parecia que estava tudo a correr nos conformes, que estava a atingir o tom e o espírito que pretendia.” A partir de certa altura, as próprias rodagens começaram a ganhar uma outra dimensão. “Sobretudo nos últimos três, quatro anos, todos sentíamos que tinha sido um ano especial. O último ano foi indescritível: o último plano do filme foi verdadeiramente o último que rodámos.” O sentimento de perda, ao fim de uma década, era inevitável. “Foi indescritível e muito bonito,” diz Ellar Coltrane. “E foi certamente algo de doce-amargo.”

“Como a própria vida,” remata Richard Linklater. “Sabemos que vai chegar ao fim, mas no entretanto cá andamos.”

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