Angola, a estreia mundial de uma potência?

Angola terá que usar a sua temporada no Conselho de Segurança para ajudar a encontrar soluções para paz e segurança em África.

A recente ofensiva diplomática de charme manobrada por Luanda garantiu que Angola fosse eleita para um dos três lugares reservados a África no Conselho de Segurança da ONU para 2015-16. A projecção de poder e influência é uma característica da expansão angolana globalmente.

Com investimentos financeiros por África, pela Europa, América Latina e Ásia, o país tem o objectivo de desenvolver influência regional em África e internacionalmente, querendo ser um dos interlocutores para assuntos africanos.

Mas esta nova proeminência advém com várias responsabilidades internacionais de peso.

Muito do trabalho do Conselho de Segurança está focado em África. E embora haja vários desenvolvimentos positivos, o continente continua a enfrentar ameaças múltiplas à paz e segurança: guerras civis no Sudão do Sul, República Centro-Africana, Líbia, Sudão; insurreições na Somália, Nigéria, República Democrática do Congo e Mali; a ameaça de extremismo cristão e muçulmano em vários países; e a propagação dramática do vírus ébola. Qualquer resposta a estas crises complexas tem que estar igualmente cimentada em desenvolvimento, melhorias de governação, inclusão política, como também em respostas militares. 

Serão estas as crises que irão testar a diplomacia de Luanda e a própria experiência angolana de transformação pós-conflito. Há mais de uma década que África se mostra disponível para lidar com estes assuntos mas agora será a vez de Angola representar o continente num fórum internacional. Angola terá que evidenciar liderança e ao mesmo tempo demonstrar que assume as responsabilidades diplomáticas, financeiras e logísticas que advêm com qualquer solução.

No passado Luanda lidava de forma "estadista" com relações bilaterais e dava prioridade a questões de segurança nacional ao invés de segurança humana. O modus operandi era opaco e as assimetrias de influência estavam sempre viradas para Angola. Estas práticas parecem ter mudado. A ascensão ao CS da ONU irá também virar as atenções para a forma como Angola irá apoiar normas internacionais e se reger com regras internacionais. Isto irá abrir uma nova frente na experiência política de Angola pois terá que se confrontar com estas situações pela primeira vez.

Angola está hoje a posicionar-se no centro do debate sobre segurança e missões de paz em África. Advoga posições definitivas e acções decisivas na gestão das diversas crises. Porém, Angola irá assumir o assento no conselho numa altura em que as crises no Mali e República Centro-Africana expuseram as dificuldades enfrentadas pelas potências regionais e as organizações africanas; e numa altura em que a divisão de trabalho entre a ONU e a União Africana continua em fluxo. Se Angola conseguir criar as pontes necessárias para lidar com estes assuntos, isto poderá definir a sua pretensão à liderança africana.

Houve uma alteração na política externa de Luanda em 2010 com a missão militar de reforma das forças de segurança na Guiné-Bissau. Foi a primeira vez desde finais dos anos 90 em que Angola enviou abertamente tropas para um país africano. Porém, desta vez, não foi com o intuito de alterar o cenário interno político como foi o caso do Congo Democrático e do Congo-Brazzaville, mas para assistir num processo maior de reforma para estabilizar Bissau. Em 2013, o ministro dos Negócios Estrangeiros, George Chicoty, apoiou a iniciativa da União Africana de fortalecer a capacidade de resposta rápida para lidar com conflitos em África, apoiando o ‘African Stand-by Force’. Mantém-se uma questão crítica para África: a capacidade de intervir rapidamente em situações de conflito e catástrofe humana.

Luanda afirma ter uma das melhores forças armadas em África. Depois da Argélia, é o país que mais gasta em termos de orçamento nacional, com cerca de 6,1 mil milhões de dólares gastos em 2013. Angola também tem a capacidade de transporte aéreo para posicionar tropas para que estejam aptas para entrar em combate rapidamente. Se esta capacidade for usada, isto poderá alterar radicalmente a prontidão de iniciativas regionais para intervir e estabilizar uma crise.

Ao presidir sobre a Conferência Internacional dos Grandes Lagos, Angola já se comprometeu a tomar uma posição definitiva no Leste do Congo e, mais recentemente enviou 1800 tropas para a missão de paz da ONU na República Centro-Africana. Porém, as forças armadas angolanas (FAA), endurecidas por décadas de guerra, treinadas e armadas pela Rússia, Cuba e Israel, terão que entender como cooperar num ambiente multilateral e serem regidas por um mandato internacional. Este será um processo novo para as FAA.

Um assento no Conselho de Segurança irá também conferir a Angola uma oportunidade de aprender a trabalhar estrategicamente com os cinco membros permanentes. Tendo sido um campo de batalha da Guerra Fria, Angola aprendeu bem como funciona a realpolitik internacional. Mas irá também assumir o assento numa altura em que o conselho está dividido sobre a resposta à Síria e Ucrânia. Se Angola conseguir navegar estas divisões, irá poder melhorar a proeza diplomática de equilibrar interesses e políticas contraditórias.

Historicamente, o aliado mais próximo de Luanda é a Rússia e Moscovo é um mentor importante. Iremos provavelmente ver Angola a tomar o partido da Rússia em vários votos no conselho. Mas Pequim também é um parceiro estratégico. Iremos também ver Angola a coordenar esforços no combate ao extremismo e terrorismo em África e, dessa forma e de outras, alinhavar interesses com os Estados Unidos, o Reino Unido e a França para melhorar as relações com o Ocidente.

As recentes manobras diplomáticas de Angola de lobby numa plataforma global demonstram que o país consegue reunir consenso em diversas regiões e conciliar políticas divergentes. Durante os próximos dois anos, Angola terá o palco internacional para projectar a capacidade e o poder que tanto anseia. Mas ter a plataforma e os recursos não é suficiente. Angola terá que usar a sua temporada no Conselho de Segurança para ajudar a encontrar soluções para a paz e segurança em África numa altura em que as "soluções africanas para problemas africanos" se mantêm problemáticas.

Analista do International Crisis Group para o Sul da África