Erdogan antecipa queda de Kobani mas atribui as culpas aos EUA

Turquia quer que Washington imponha zona de exclusão aérea no Norte da Síria. Protestos contra recusa de Ancara em auxiliar cidade curda degeneram em confrontos com a polícia e fazem pelo menos um morto.

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Portestos de curdos em Diyarbakir contra a inacção da Turquia para proteger Kobani ILYAS AKENGIN/AFP

Com o Estado Islâmico prestes a tomar a cidade curda síria de Kobani, tão colada à sua fronteira que os combates se desenrolam à vista do mundo, cresce a pressão para que a Turquia se envolva no combate aos jihadistas. Mas, como num jogo do empurra, Ancara questiona a estratégia desenhada por Washington e apresenta condições que, dizem os seus críticos, são apenas uma desculpa para não intervir. A inacção revolta sobretudo a minoria curda – nesta terça-feira houve novos protestos no país e pelo menos uma pessoa morreu.

“Kobani está prestes a cair”, avisou o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, numa altura em que os jihadistas controlavam já três bairros do Leste da cidade e lançavam nova ofensiva pela entrada sudoeste. O alerta poderia soar estranho vindo do líder de um país que prometeu “fazer tudo o que fosse possível” para evitar que a cidade fosse tomada, mas que nada fez desde que, na semana passada, o Parlamento aprovou uma moção autorizando o Exército a intervir na Síria e no Iraque. Só que para Erdogan, a culpa do que está a acontecer do outro lado da fronteira é de quem não reconhece que “o problema do Estado Islâmico não pode ser resolvido através de bombardeamentos”.

O Presidente e, antes dele, o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu repetem que a Turquia está disponível a assumir um papel activo na coligação contra os jihadistas, na condição de que os Estados Unidos assumam que a intervenção na Síria visa também acelerar a queda do regime de Bashar al-Assad. Admitem mesmo participar numa ofensiva terrestre, mas apenas se Washington aceitar que sejam criados santuários nas zonas de fronteira – para acolher deslocados e combatentes da oposição moderada –, protegidos por zonas de exclusão aéreas.  

O general John Allen, que o Presidente norte-americano Barack Obama colocou à frente da coligação contra o Estado Islâmico, é esperado nesta semana em Ancara para discutir a contribuição do país, mas é improvável que os EUA aceitem qualquer das condições – uma zona de exclusão forçaria a aviação americana a atacar as defesas antiaéreas sírias, o que abalaria o consenso que Obama quer reunir na luta contra os radicais.

“Isto é uma forma de arrastar os pés, porque é certo que estas exigências nunca serão satisfeitas”, disse ao Financial Times Soli Ozel, professor da Universidade Kadir Has em Istambul, sublinhando que “a Turquia fará tudo o que puder para não ter de enfrentar directamente o Estado Islâmico”. Há várias explicações para as reticências de Ancara, do receio de que os ataques deixem terreno livre a Assad, ao medo de que o Estado Islâmico, que tem algum apoio e redes de recrutamento na Turquia, ataque o país.

Mas a explicação que encontra mais eco é a de que Erdogan prefere ter os jihadistas na sua fronteira do que ir em auxílio dos combatentes curdos sírios que defendem Kobani, mas que Ancara vê como uma ala da guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) contra quem luta há 30 anos. “Acha que isso seria do interesse deles?”, respondeu um dirigente francês questionado pela AFP sobre uma incursão turca para impedir a queda de Kobani.

À mesma conclusão chegaram os milhares de curdos que, pelo segundo dia consecutivo, se manifestaram contra a inacção do Governo. A imprensa dá conta de violentos confrontos com a polícia em alguns bairros de Istambul e em várias zonas do sudeste, de maioria curda, incluindo na cidade de Mus, onde um jovem de 25 anos foi morto e outra pessoa ficou gravemente ferida.

Em Kobani, os aviões aliados atacaram posições dos jihadistas a intervalos, mas os combates prosseguiam intensos ao final do dia. “Já entraram 50 metros dentro da zona sudoeste”, revelou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que diz ter documentado 412 mortes desde que, a 16 de Setembro, os jihadistas avançaram para a cidade, precipitando a fuga de 300 mil pessoas da região, das quais 180 mil se refugiaram na Turquia.   

Helicópteros dos EUA entram em acção no Iraque

Pela primeira vez desde o início da ofensiva, em Agosto, os EUA usaram helicópteros para apoiar os militares iraquianos que lutam contra as forças do Estado Islâmico. O Comando Central dos EUA, que coordena a operação nas duas frentes de combate, na Síria e no Iraque, adianta que os aparelhos – ao que tudo indica, helicópteros de ataque Apache – foram usados para alvejar posições dos jihadistas na região de Falluja, no Oeste do país.

O Pentágono nega que se trate de uma escalada no envolvimento americano no conflito, mas a entrada em acção dos helicópteros, que voam mais baixo do que os aviões, coloca os militares dos EUA sob um risco muito maior. A decisão reforça também as dúvidas sobre a falta de eficácia dos ataques aéreos realizados até agora. “Numa situação de combate é muito mais eficaz ter helicópteros a apoiar o Exército iraquiano do que aviões”, disse à Reuters Christopher Harmer, ex-piloto e analista do Instituto para o Estudo da Guerra.