Lula criou a mulher e deu-lhe o Brasil

Já deixou de estar na sombra de Lula. Divide o palco com ele. Passeia no mundo como a líder de um grande país. Se ganhar agora, tem quatro anos para mostrar o que conseguiu fazer do Brasil que Lula lhe ofereceu. Não será fácil.

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Dilma Rousseff Ueslei Marcelino/Reuters

O enviado da agência Reuters que cobriu as eleições presidenciais brasileiras de 2010, relata um pequeno episódio que lhe aconteceu quando Rousseff lhe concedeu uma entrevista e que fala por si.

Na altura, a candidata ainda era uma ilustre desconhecida fora das fronteiras do Brasil. Fora escolhida por Lula da Silva porque a corrupção tinha “engolido” os nomes mais fortes do PT para a sua sucessão (incluindo o de José Dirceu). Sem uma carreira política (nunca tinha concorrido a qualquer eleição), sem qualquer espécie de carisma, a candidata do PT era um enigma. O jornalista começa por dar um conselho aos seus colegas: “Primeiro, fale depressa. Segundo, se quer tornar-se simpático, talvez não seja conveniente falar-lhe das reformas que é preciso fazer”.  Ele próprio tinha caído na armadilha: “É possível manter o crescimento da economia ao nível dos 7 por cento sem fazer reformas?” Dilma nem o deixou terminar a pergunta. “O Brasil está a crescer assim tanto agora?” “ Sim, está, mas alguns economistas dizem… “ Nova interrupção. “Mas está a crescer ou não está?” “Está”. “Então é possível” e ponto final. Pretendia manter o equilíbrio entre os benefícios sociais, que foram a grande prioridade de Lula para tirar milhões de brasileiros da pobreza, e políticas amigas dos mercados, que tinham permitido ao seu chefe cometer o feito de ser, ao mesmo tempo, popular em casa e popular em Wall Street.

Rápida e contundente nas respostas sobre economia graças à sua formação, Dilma ainda não tinha luz própria. Em Juiz de Fora, onde se passa a cena relatada pelo enviado da Reuters, e a escassos meses das eleições, ainda não tinha à-vontade no palco nem conseguia arrancar uma salva de palmas. A sua mensagem era muito simples: “seguir o caminho de Lula”. O Presidente que mantinha uma popularidade de 75 por cento no final de oito anos de mandato, recorria a um tom paternalista nem sempre muito agradável. “Se eu vir alguma coisa de errado, vou telefonar à minha Presidente, e dizer-lhe: olha, há aqui um problema. Podes resolvê-lo, minha filha, porque eu não fui capaz”. Muita gente disse, na altura, que Lula a escolhera pela simples razão de que queria regressar ao Planalto dentro de quatro anos.

Dilma seguiu-lhe alguns conselhos. Manteve o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no qual os mercados confiavam. Aplicou uma dose maior de intervencionismo do Estado na economia, acentuando a distância com o chamado “consenso de Washington” já desacreditado pela crise financeira. Reforçou o controlo no sector estratégico do petróleo. Manteve os bancos públicos para garantir o crédito ao consumo das novas classes médias que acabavam de sair da pobreza. Decidiu estimular o consumo interno e confiar nas exportações de “commodities” que a China continuava a absorver a um ritmo imparável, fazendo subir os preços. Não tocou no modelo de desenvolvimento “fechado” com fortes barreiras alfandegárias aos bens importados, deixando a indústria ao abrigo da concorrência externa, sem grande estímulo para melhorar a competitividade. Pode fazer tudo isto porque até os seus críticos mais severos reconhecem que a economia brasileira já tinha passado o Rubicão. Com um sector agro-industrial gigantesco e altamente competitivo, com a sua indústria de ponta (por exemplo, a aeroespacial), essa sim sujeita à concorrência internacional, mais as descobertas de novos poços de petróleo, a economia assentava em bons fundamentos. A questão hoje é saber se Dilma, no seu segundo mandato, vai conseguir combater o chamado “custo Brasil” (a falta de infra-estruturas, os impostos elevados, a burocracia estatal ineficiente, o défice de educação e, evidentemente, a corrupção). Uma sondagem recente da Datafolha dizia que 75 por cento dos brasileiros queriam uma mudança. A candidata promete “um governo novo para políticas novas”. Para fazer o quê? Ainda não se sabe bem.

Dilma desconfia das receitas de austeridade e de reformas recomendadas pelo FMI e que deram maus frutos nos anos 1980, quando foram aplicadas por muitos governos latino-americanos. Mas não se trata apenas de uma questão ideológica. Fernando Henrique Cardoso dizia recentemente ao PÚBLICO que o Brasil “tem a síndrome dos grandes países”, que acham que as suas políticas não precisam de levar o mundo em consideração. A questão mais difícil e decisiva do seu segundo mandato é como dar a volta a uma economia que deixou de crescer. Talvez esteja aqui a grande diferença entre ela e o seu mentor. Lula aprendeu na escola da vida. Dilma nos manuais da universidade ou à sombra dos gabinetes. Lula integra naturalmente nas suas políticas o factor humano. Dilma, sendo pragmática, é uma figura distante que transforma tudo em números.

Talvez por isso, os protestos que, em Junho do ano passado, encheram as ruas das grandes cidades brasileiras para reivindicar melhores serviços públicos, a tivessem apanhado de surpresa. Não estava previsto que milhares de jovens resolvessem dizer que preferiam melhores hospitais e escolas a uma Copa do Mundo. O Brasil já não era o país do futebol e do samba, precisamente graças às políticas de inclusão social aplicadas por Lula e por ela. Dilma terá, talvez, percebido que combater a pobreza é uma coisa e manter as expectativas da nova classe média baixa é outra, completamente diferente. Prometeu canalizar parte dos dividendos de petróleo para a educação, criou um sistema de financiamento para incentivar os jovens a ir estudar ou especializar-se lá fora, “encomendou” milhares de médicos cubanos para trabalharem nas regiões mais pobres do Brasil. Está ainda muito longe de lhes poder prometer serviços públicos decentes, dignos dos impostos que pagam. “Muitas famílias endividadas ainda estão a pagar as prestações do seu primeiro plasma ou do seu primeiro carro”, diz a AFP. Mauro Paulino, da Datafolha, acrescenta que “actualmente, vêem a sua situação estagnada, deixando-os divididos entre a gratidão a Lula e o desejo de subir mais um degrau.” O seu voto não é ideológico, é pragmático. A questão fundamental é como a Presidente vai impulsionar um crescimento anémico com que não contava e sem o qual é difícil melhorar as condições sociais. “Ficou um grito no ar”, diz o antigo Presidente Fernando Henrique Cardoso. Que vai voltar.

Gestora e guerrilheira
Dilma mudou muito nos últimos quatro anos. Fria, determinada, autoritária (dizem alguns), provou ser “material” demasiado resistente para se deixar condicionar pelo PT, ao qual apenas aderiu em 2001. Apresentou-se como simples “gestora” da herança de Lula, mas tinha a fibra de quem foi “guerrilheira”, nome de código “Estela”. Nascida em 1947 em Belo Horizonte numa família da classe média alta (o seu pai fugira à ditadura comunista na Bulgária), Dilma, como muitos dos jovens universitários da sua geração, combateu a ditadura, foi presa e torturada. Não é um passado de que goste de falar. Pertenceu a grupos que defendiam a luta armada contra a ditadura. O ex-marido diz que ela “nunca teve uma arma na mão”. Ninguém passa por esta experiência extrema sem ficar marcado. Foi educada a aprender francês e piano nas melhores escolas privadas e numa casa onde os livros enchiam as prateleiras. Diz a revista Piaui que “acordou para os humildes lendo Zola e Dostoiévski”. Mais tarde maravilhou-se com Proust. Uma das raras vezes em que se emocionou em público foi para anunciar a “Comissão Nacional da Verdade” para passar em revista os crimes cometidos pela ditadura. Não é para condenar ninguém, é para obter um pedido de desculpa. Os militares protestaram. Quando saiu da prisão, decidiu abandonar a clandestinidade e regressar à vida normal para acabar os estudos e ingressar numa carreira de serviço público a nível estadual, que a levou primeiro ao Partido Trabalhista de Leonel Brizola e depois até ao PT. Presidiu à Petrobras (o que agora lhe tem causado alguns dissabores), integrou os governos de Lula, primeiro como ministra da Energia, depois como chefe da Casa Civil (desde 2005), para substituir Dirceu, mergulhado no escândalo do Mensalão. Quando teve de enfrentar a sucessão de Lula, não levou muito tempo a pensar. Disseram os jornais brasileiros que recorreu à cirurgia plástica para adoçar as feições. Em 2009 foi-lhe diagnosticado um cancro. Caiu-lhe o cabelo. “Teve um efeito gratificante: é bom sentir a água escorrendo directo na cabeça”. Tem uma filha, que já lhe deu um neto.

Lula ainda lhe foi útil nesta campanha, para enfrentar o inesperado regresso de Marina, com a tragédia do candidato do PSB Eduardo Campos. Mas Dilma já não fica na segunda fila, agradecida ao mestre. Reparte o palco com ele em partes iguais. Tem plena consciência de que é a segunda mulher mais poderosa do mundo nas listas da Forbes, depois de Angela Merkel e graças à saída de Hillary. Age em função desse estatuto, sem grade paciência para líderes mundiais que não lhe tragam qualquer vantagem imediata. E não perdoa facilmente uma “desfeita”, venha ela de onde vier. Dilma cancelou recentemente uma visita oficial a Washington com o pretexto das alegadas escutas da NSA (Agência Nacional de Segurança) ao seu telemóvel. Em 2011, numa visita aos EUA, a Presidente do Brasil foi recebida com todo o interesse pelos empresários e por várias instituições. Toda a gente queria ouvir o que tinha a dizer a chefe de uma das maiores economias do mundo. Obama reservou-lhe um par de horas e, como escreveu na altura a imprensa americana e brasileira, nem sequer a convidou para almoçar. Havia o caso recente do Irão, mesmo que tenha sido com Lula. Obama tinha problemas muito mais complexos para resolver.

No G20, apresenta-se como a líder de um grande país que não pede nada a ninguém. Nunca se coibiu de criticar duramente a incapacidade da Europa de resolver as suas crises. Apesar do seu desinteresse pela política externa, sabe como relacionar-se com as outras potências emergentes com um pragmatismo absoluto para atingir os seus fins.

Chamam-lhe “minuciosa” porque quer ver tudo, entender tudo, seja qual for o assunto. Debita números que atrapalham os seus adversários. Há uma velha história que define este lado do seu carácter, que toda a gente gosta de contar. Na sua primeira viagem ao estrangeiro, Dilma recebeu, como manda o protocolo, a lista dos nomes de toda a sua comitiva. Nunca nenhum Presidente se lembrou de a ler até ao fim. À excepção de Dilma, que quis saber o que estava lá a fazer um jovem sem qualquer função específica. O embaraço serviu de lição. A eficácia é uma das suas palavras preferidas. Não conseguiu, no entanto, tomar as medidas necessárias para fazer do Estado brasileiro uma instituição um pouco mais eficaz. Há 12 anos no poder, o PT criou as suas próprias clientelas. A ausência da reforma do sistema eleitoral faz da corrupção uma “necessidade”. Quando há quase 30 partidos no Congresso e quando o Governo depende de uma aliança eleitoral de 10 partidos, cada um apresenta o seu preço. O Mensalão foi isso mesmo: garantir votos no Congresso. Dilma sabe que, ao contrário de Lula, nunca resistiria a um escândalo semelhante. Demitiu sete ministros que se tornaram suspeitos de corrupção. Mas teve dificuldade em responder aos escândalos que envolvem a Petrobras.

No dia 24 de Setembro, quando discursou perante a Assembleia Geral da ONU, anunciou com orgulho que, naquele mesmo dia, a FAO retirou o Brasil da lista de países onde há fome. O desafio que tem pela frente é talvez o maior teste às suas ideias sobre a economia e à sua capacidade de liderança. Como reanimar a economia brasileira e impedir, ao mesmo tempo, o regresso da inflação. O fraco crescimento da economia mundial não ajuda. As reformas que não fez no primeiro mandato, são urgentes. Os brasileiros estão cada vez mais exigentes.

Se ganhar, jogará nos próximos quatro anos o seu lugar na História. Será avaliada pelo que fez ao Brasil que Lula lhe entregou.