Marinho e Pinto: das coligações “até com o diabo” às críticas aos partidos

Fundador do Partido Democrático Republicano, que lança no domingo, Marinho acusa António Costa de ser um “eucalipto” que seca toda a oposição que encontra. Numa altura em que já é político, o ex-bastonário mantém o discurso de ataque à classe.

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Marinho e Pinto Fernando Veludo/NFactos

Em vésperas de lançar o congresso fundador do seu Partido Democrático Republicano, no domingo à tarde, em Coimbra, António Marinho e Pinto conseguiu esta quinta-feira a ambiguidade de abrir os braços a todos os partidos e ao mesmo tempo distribuir palmadas, sem excepção.

Tão depressa se diz “capaz, se necessário, de fazer alianças com o diabo se isso for útil ao povo português” – onde o diabo são todos os partidos -, como critica fortemente o PSD, PCP, Bloco e sobretudo do futuro novo líder do PS, António Costa.

Marinho Pinto tomou a antena de duas rádios, a Antena 1 e a TSF, com uma entrevista pré-gravada na primeira e a presença durante duas horas no fórum matinal da segunda. Nos últimos dias já passou pela RTP e vários jornais, numa campanha em crescendo que o próprio vai gerindo sem o intermédio de empresas de comunicação.

Convicto da eleição daqui a um ano quando ainda nem formalizou o pedido ao Tribunal Constitucional, Marinho e Pinto admite que “não há soluções monopartidárias” para governar e já fala em alianças e coligações no Parlamento, sem exclusões. Excepto com centristas. “O CDS é um partido que neste momento, e ao longo do seu historial recente, não demonstra os mínimos necessários para governar. O PSD tem pulsões sociais-democratas que foram aniquiladas porque foi capturado pelo CDS.”

Mas ao mesmo tempo que diz que o PDR se poderá “aliar ao PCP e ao PS”, lembra os 40 anos em que o PCP esteve “muito cómodo fora do poder” e só fez “greves e manifestações” e alianças com a direita para derrubar o PS, defendendo que os comunistas têm que ir para o Governo “e fazer cedências dos seus dogmas”. Para com o PS, em especial António Costa, Marinho e Pinto não poupa na censura. Costa, vinca, é “uma grande ilusão política”, representa “um dos aspectos mais perigosos da degenerescência da democracia portuguesa”, é o “eucalipto que seca tudo à volta” e “silencia opositores”, “como gerador de soluções é uma nulidade, pertence à vulgaridade portuguesa”.

“Só falta agora é que o dr. António Costa ganhe as eleições com maioria absoluta e Guterres seja Presidente, que é a cereja sobre o bolo, para termos novamente o pântano em todo o seu esplendor”, ironizou Marinho e Pinto sobre o futuro do PS, acrescentando que os que “construíram o pântano” estão de volta.

Questionado sobre que PS prefere – com Costa ou Seguro -, o eurodeputado diz não preferir “nenhum”. “Eu não sou do PS. Mas achava que o António José Seguro, apesar de não dar tantas garantias, não ter um exército de clientes à volta dele a promover-lhe a imagem, a trazê-lo ao colo, dava mais garantias de honestidade política que os actuais dirigentes do PS.” E considera que forçá-lo a interromper o seu mandato é “uma vergonha na história do PS”.

Porque Costa, apesar de também ter pessoas sérias consigo, tem “um exército de oportunistas, de clientes famintos de lugares e benesses” no aparelho do Estado, na câmara de lisboa, cheios de “gula e rapacidade” de tachos que lhes possa dar. Terá que “pagar um preço muito caro por todo esse exército de clientes que criou à sua volta e o puseram onde está”. Primeiro exemplo? “António Costa e Ferro Rodrigues negociaram há um mês que o apoio de Ferro Rodrigues ao António Costa era em troca da direcção parlamentar. Foi isto que aconteceu e ninguém pode negar.”

Foi esse clientelismo político que o fez sair do MPT, pelo qual foi eleito eurodeputado, onde os membros da comissão política fazem do partido um “instrumento” que usam “em benefício próprio e das suas famílias”. Terá proposto ser militante e até líder levando duas pessoas de fora, mas tal não foi aceite.

Questionado sobre o seu presente e futuro no Parlamento Europeu, Marinho e Pinto nega que esteja a fazer o que ele próprio critica nos outros: a correr atrás dos seus interesses. “Eu não deixei ou abandonei o Parlamento como fazem muitos deputados quando arranjam um tacho melhor. (…) A gente deve cumprir os mandatos até ao fim independentemente do mandante. Eu cumpro-o, com excepção de quem me pôs lá me pôr noutro sítio”, afirmou para justificar a estratégia de ser eurodeputado mas ir candidatar-se à Assembleia da República no próximo ano.

Volta a criticar o ordenado de 18 mil euros em Bruxelas e jura que o desconhecia – “uma ignomínia nacional” por ser para alguém que “representa politicamente um povo cujo salário mínimo nacional é inferior a 500 euros”. “Isto deveria envergonhar-nos a todos”, aponta e acrescenta: “Estas coisas têm que ser postas no debate público e quem traz estas coisas para o debate público não pode ser insultado como eu tenho sido.”

Ainda em Bruxelas, com um pé no Parlamento e os olhos em Belém? Marinho não fecha portas e cita Humphrey Bogart em Casablanca para evitar planear o futuro. “Nem sim, nem não. Se houver condições que na altura determinem isso.” É cuidadoso, receia que lhe chamem “tresloucado, que quer candidatar-se a tudo”.

Questionado por ouvintes da TSF, evitou comprometer-se com promessas – “a confiança não se adquire em pessoas que fazem promessas”, não respondeu como e onde conseguirá dinheiro para lançar o partido e fazer a campanha e disse esperar receber do Estado a subvenção pelos votos – mas atacou as benesses fiscais dos partidos que vivem à conta dos contribuintes. “Os partidos estão contra mim porque a subvenção que vai ser dada ao PDR vai ser retirada dos outros”, atirou. Porque ele, garante, não veio para a política “para benefício próprio ou da família, mas para ajudar a resolver os problemas da sociedade portuguesa”. E pede que se olhe para a sua “prática como cidadão e como político” para avaliar se vale a pena votar em si.