Opinião

Obviamente, demito-me

Eu preferia que os políticos diminuíssem drasticamente a amplitude das suas promessas e nos tratassem como adultos responsáveis. Mas se essas promessas existem, e se eles insistem em fazê-las, não pode haver dois pesos e duas medidas.

Alguém deveria explicar a António José Seguro este pequeno facto político-teológico: a não ser que ele seja filho de Deus e tenha o poder de ressuscitar os mortos, a estratégia do crucificado raramente resulta. Se acaso tiver dúvidas sobre se será o Ungido, proponho que Seguro pegue num garrafão de cinco litros de Água do Luso e o tente transformar em vinho. Hipótese A: o garrafão transforma-se efectivamente em 1500 euros de Barca Velha e Seguro pode continuar com a sua estratégia do coitadinho que foi traído por António Costa, invocando a justiça divina. Hipótese B: o garrafão continua a saber a um euro e meio de Água do Luso e Seguro pára de se armar em Job do Largo do Rato, evita fazer vídeos tão ridículos quanto o do cravo rapinado na hora do desabrochar, e escreve cem vezes no quadro lá de casa: “Nunca ninguém chegou ao poder a choramingar.”

Mas, como se costuma dizer, mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia – daí eu sentir necessidade de vir hoje aqui defender António José Seguro por causa de uma badalada afirmação nos debates com António Costa. A certa altura, Seguro declarou na TVI que se demitiria acaso fosse eleito primeiro-ministro e se mostrasse incapaz de cumprir a promessa de não aumentar a carga fiscal. “Temos de honrar a palavra”, acrescentou. Ora, no dia seguinte caiu uma borrasca de críticas em cima da sua insigne cabeça. Costa, dentro da lógica “com um discurso neutro, eu nunca me comprometo”, atacou-o; inúmeros comentadores salientaram o absurdo que seria Seguro fugir aos problemas depois de eleito; Bernardo Ferrão chamou-lhe no Expresso uma “promessa absurda e demagógica”.

É aqui que acho que Seguro tem bastante razão: ou honramos a palavra dada ou deixamos de ser hipócritas. Ou bem que é para acreditar nas promessas que nos são feitas em época eleitoral, ou bem que deixamos de considerar inadmissível que os políticos nos mintam após serem eleitos e mandarem os compromissos às malvas. Eu preferia que deixássemos de ser hipócritas, ou seja, preferia que os políticos diminuíssem drasticamente a amplitude das suas promessas e nos tratassem como adultos responsáveis. Mas se essas promessas existem, e se eles insistem em fazê-las, não pode haver dois pesos e duas medidas.

Recordo que Pedro Passos Coelho foi criticado – e bem – por ter mentido com os dentes todos na última campanha para as legislativas. Passos Coelho, como muitos primeiros-ministros antes dele, ganharam eleições com base em promessas não concretizadas. Esse facto foi alvo de justa indignação. Ora, como é que se pode, em simultâneo, criticar o actual primeiro-ministro pelas mentiras na campanha de 2011 e o actual secretário-geral do PS por dizer que se demite se não conseguir cumprir o que promete? Dizemos de Passos Coelho: “És um mentiroso e devias demitir-te.” E dizemos de António José Seguro: “É ridículo dizeres que te demites se mentires.” Importam-se de me explicar a lógica da coisa?

Deixem estar, que eu próprio explico. A lógica é esta: nós adoramos indignar-nos mas não levamos a sério a nossa indignação. Nós assimilámos a mentira como admissível no jogo político – e entre a mentira e a desistência, preferimos a mentira. Num mundo cheio de gamas de cinzento, essa escolha não é irracional. Mas é hipócrita fingir uma intolerância aos mentirosos que, de facto, não temos. A criticada afirmação de Seguro pôs essa contradição bem a nu. Só por isso, merece chorar mais um bocadinho.