Fundos "abutre" interessados na dívida do Banco Espírito Santo

São iguais aos que atacaram a Argentina e já começaram a contactar gabinetes de advogados em Portugal.

O Banco Espírito Santo continua hoje a ganhar valor depois de ontem ter subido mais de 7%
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O Banco Espírito Santo continua hoje a ganhar valor depois de ontem ter subido mais de 7% Paulo Ricca

Os fundos de investimento internacionais especializados em conseguir obter lucros com títulos de dívida que compram a preços muito baixos e que depois reclamam em tribunal, já estão em contactos com firmas de advogados portuguesas para analisar a oportunidade de investimento em obrigações do BES e do Grupo Espírito Santo.

São conhecidos no mercado como fundos "abutre" e a sua estratégia é de alto risco: procuram situações em que, por falência de um Estado ou de uma empresa, haja credores em risco de perder tudo ou quase tudo. Depois, verificam em conjunto com advogados locais e especializados se há possibilidades de haver um processo em tribunal com hipóteses de sucesso de reembolso do crédito. Se sim, vão ao mercado comprar os títulos que valem muito pouco para lançar de seguida uma acção judicial. Se tudo correr bem, conseguem em tribunal recuperar com os títulos de dívida mais (ou mesmo muito mais) do que aquilo que investiram ao comprar os títulos e depois gastaram em despesas judiciais, como os honorários de advogados. 

De acordo com fontes do sector contactadas pelo PÚBLICO, vários fundos "abutre" têm estado nas últimas semanas em contacto com escritórios de advogados em Portugal, seja directamente, seja através de escritórios norte-americanos ou ingleses especializados nestes tipos de acções judiciais. O objectivo é aproveitar a situação que actualmente se vive no BES e no GES.

No BES, aquilo que hoje se passa com os credores do banco é o mesmo tipo de cenário em que os fundos "abutre" vêem oportunidades de investimento. Os detentores de dívida subordinada viram os seus títulos perderem quase a totalidade do valor quando a responsabilidade do seu pagamento não foi transferida para o Novo Banco, ficando antes no chamado "banco mau". 

As probabilidades de estes títulos serem reembolsados, pelo menos parcialmente, parece ser agora muito reduzida e os seus detentores podem estar abertos a vendê-los a preços muito baixos.

De igual modo, parece haver espaço de manobra para, depois de comprados os títulos, pensar em colocar acções em tribunal que dêem direito a indemnizações. Vários accionistas e detentores de dívida, isoladamente ou em associação, têm mostrado interesse em colocar as autoridades e o BES em tribunal pela forma como tem estado a ser gerido o processo de resolução do banco.

Os fundos "abutre" não estão apenas a olhar para a situação que se vive no BES, vendo também com muito interesse a dívida emitida, e agora em sério risco de não cumprimento, pelas sociedades relacionadas com a família Espírito Santo, como a ES Internacional, ESFG, ESFIL e RioForte. Neste caso, a sede das sociedades está no Luxemburgo.

Os fundos "abutre" têm estado em foco nos noticiários internacionais pela sua acção no processo de reestruturação de dívida pública na Argentina. Quando a Argentina, em 2001, entrou em default, este tipo de investidores viu uma oportunidade. Comprou os títulos de dívida a preços muito baixos, recusou a oferta de reestruturação feita pelas autoridades do país e colocou o caso em tribunal, em Nova Iorque. Depois de várias decisões e recursos, o fundo "abutre" norte-americano Elliott Management, detido pelo multimilionário Paul Singer, ganhou este ano o caso em tribunal, colocando o Estado argentino sob pressão para amortizar os títulos de dívida na sua totalidade.

Esse fundo tem trabalhado em Portugal nos últimos anos e dá sinais de estar bem atento aos desenvolvimentos no país. Em Julho, foi noticiado pelo Jornal de Negócios que a Elliot tinha decidido apostar no mercado na queda das acções da PT. Um investimento que, dada a evolução recente dos títulos, pode ter gerado ganhos significativos ao fundo.