Como o destino de um soldado israelita pode impedir ou ajudar um cessar-fogo em Gaza

Independentemente do que Israel e o Hamas estejam disponíveis para aceitar, Oron Shaul, o militar desaparecido desde domingo, passou a ser um factor a ter em conta.

Israel acredita que Oron Shaul está morto, mas não descansará enquanto não lhe der um funeral
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Israel acredita que Oron Shaul está morto, mas não descansará enquanto não lhe der um funeral David Buimovitch/AFP

Um soldado pode complicar muita coisa, principalmente se estiver vivo e tiver sido capturado pelo Hamas. Mesmo morto, não ajuda. Ou talvez sim. Os esforços para um cessar-fogo que ponha fim à última ofensiva israelita contra Gaza – lançada para impedir o lançamento de rockets mas iniciada depois do assassínio de três adolescentes judeus seminaristas (mortes que levaram depois ao rapto e assassínio de um adolescente palestiniano, queimado vivo) – continuam, a um ritmo que não permite antecipar um desenlace rápido.

O Hamas reivindicou a captura de um militar já no domingo; a diplomacia israelita desmentiu-o de imediato. Mas as chefias militares admitiram entretanto que há um soldado desaparecido, que julgam ser a sétima vítima de um ataque a um blindado onde seguiam outros seis soldados (todos confirmados mortos) em Gaza. Trata-se de Oron Shaul, de 21 anos – a ala armada do Hamas, as Brigadas Ezzedin al-Qassan, tinham anunciado a captura de Shaul Aron, revelando o seu número militar, sem clarificar se estava vivo ou morto.

Entre o Egipto e Jerusalém, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e o chefe da ONU, Ban Ki-moon, repetiram apelos a um cessar-fogo. Ban pediu a Israel e ao Hamas para “pararem de lutar” e “começarem a conversar”. Kerry disse que o plano de tréguas do Egipto (apresentado há mais de uma semana e que o Cairo tenta agora alterar para incluir algumas exigências palestinianas, como o fim do bloqueio à Faixa de Gaza e a libertação de palestinianos presos em Israel) continua a poder funcionar como base para um acordo. Ainda no Egipto, Kerry afirmou-se preocupado com as baixas palestinianas mas disse que a operação de Israel é “apropriada e legítima”.

Em contactos permanentes com o Hamas, a Autoridade Palestiniana, de Mahmoud Abbas, propôs entretanto ao Egipto que um cessar-fogo seja seguido por cinco dias de negociações entre israelitas e palestinianos.

Ban seguiu para Jerusalém (antes de se deslocar a Ramallah, onde está Abbas), onde conversou com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e defendeu que nenhuma “acção militar vai aumentar a segurança de Israel a longo prazo”. Netanyahu respondeu que o seu Governo não tem qualquer “problema a resolver com o Hamas” – “o problema do Hamas é a nossa existência”. 

Independentemente do que Israel e o Hamas estejam dispostos a aceitar, Oron Shaul passou a ser um factor a ter em conta. Num conflito com armas muito desiguais, basta que o Hamas tenha os seus restos mortais para aumentar o seu poder negocial. Em Israel, todos são soldados e não existe uma única família que não tenha alguém em acção ou à espera de ser chamado. Gilad Shalit, capturado num checkpoint em 2006 pelo Hamas, foi libertado cinco anos depois em troca da libertação de 1027 palestinianos (muitos já foram entretanto recapturados). Shalit foi o primeiro soldado israelita libertado com vida em 26 anos. Em Israel, nenhum militar é deixado para trás.