Instabilidade no BES contagia juros da dívida pública

Derrapagem acelerada das cotações preocupa as autoridades. CMVM proibiu a venda a descoberto das acções do banco e da ESFG na sessão desta terça-feira.

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Nas duas últimas sessões, os investidores viram a cotação da ESFG (que detém 25,1% do BES) cair cerca de 40% Foto: Miguel Madeira

A derrapagem acelerada das cotações das duas empresas do universo Espírito Santo está a preocupar as autoridades, que nesta segunda-feira se confrontaram com um contágio à dívida nacional, que no prazo a três anos sofreu uma ligeira subida de 0,004% (para 1,19%). O BPI e Banif fecharam igualmente a deslizar na bolsa de Lisboa (3,65% e 2,4%, respectivamente). Ao contrário do BCP, que subiu quase 5% no último dia em que os investidores podiam comprar acções para participar no aumento de capital de 2250 milhões de euros, que arranca a 4 de Julho.

Na sequência da queda das cotações da ESFG e do BES, um movimento que se tem estado a acentuar, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) veio proibir a venda a descoberto das acções, uma interdição que se manterá durante terça-feira.

A deterioração do cenário à volta do GES veio aumentar a pressão para que a Rioforte, a holding da família com os activos não financeiros onde se concentram os problemas, clarifique qual é a verdadeira dimensão das suas insuficiências e divulgue como pensa pagar as suas dívidas. Nesta segunda-feira, numa conferência com analistas, agendada em cima da hora (e sem direito a perguntas), os dois executivos do BES, Morais Pires (indicado pela ESFG para substituir Ricardo Salgado) e Joaquim Goes informaram que o banco não tem uma exposição directa à holding ESI. Já à Rioforte (não financeira) é de 200 milhões de euros e de 780 milhões ao ESFG. A exposição aos seus clientes de retalho (651 milhões) e institucionais (1500 milhões) é de 2151 milhões.

As várias sociedades ligadas ao grupo terão também dívidas à Caixa Geral de Depósitos que poderão ser da ordem dos 300 milhões de euros, um valor não confirmado. E qualquer ocorrência negativa na Rioforte tenderá a reflectir-se nas contas do grupo estatal. Depois de se ter ficado a saber que Ricardo Salgado tinha ido pedir um financiamento de 2,5 mil milhões para a Rioforte junto da CGD e do BCP, que foi chumbado pelo Governo, Passos Coelho veio não só confirmar a recusa, como aconselhar a família a resolver os seus problemas sem apoio estatal.

O PCP veio nesta segunda-feira defender uma intervenção do Estado junto do GES, considerando que a “situação é insustentável”. Em conferência de imprensa, o secretário-geral do partido, Jerónimo de Sousa, respondeu, citado pela Lusa, que a nacionalização do banco é “uma solução”.

Interesses cruzados
Outra vítima do dossier Espírito Santo é a PT, cujas acções desabaram nesta segunda-feira mais de 5%. Depois de, na sexta-feira, ter desaparecido 146 milhões do seu valor de mercado, ficou a saber-se que a operadora tem aplicado 897 milhões de euros em papel comercial de sociedades problemáticas do GES. Emissões que datam de Abril e que vencem a 15 e a 17 de Julho, altura em que a Rioforte terá de reembolsar a empresa que está em processo de fusão com a brasileira Oi e é cotada também na bolsa nova-iorquina.

A CMVM a obrigou a PT a esclarecer o mercado sobre o investimento. Henrique Granadeiro, presidente do conselho de administração e da comissão executiva, e o administrador financeiro, Luís Pacheco de Melo (ex-BESI), explicaram que se trata de uma operação de tesouraria com uma remuneração média de 3,6%. A decisão (que poderá ter contado com o conhecimento de Zeinal Bava, o presidente da Oi, e de accionistas brasileiros) apenas foi submetida à comissão executiva, mas não ao conselho de administração, nem à comissão de auditoria. Recorde-se que Morais Pires e Joaquim Goes têm assento na administração da PT, dado que o BES possui 10% da operadora de telecomunicações que, por sua vez, detém 2% do banco, o que pode indiciar promiscuidade de interesses.

Granadeiro é amigo pessoal de Salgado e tem sido um dos raros rostos a defender o banqueiro que trava uma guerra aberta dentro da família Espirito Santo com José Maria Ricciardi. A um mês de deixar a presidência do BES, por imposição do Banco de Portugal, Salgado comunicou que adquiriu 1.522.766 títulos no último aumento de capital (uma operação no valor global de 1045 milhões de euros), passando a deter pessoalmente 5,3 milhões de acções do BES.