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Luís Moreira

Thug Unicorn: uma festa que é o Tumblr na vida real

Há de tudo e ouve-se de tudo (de hip-hop à Lambada). "Aqui, tudo acontece e muda tão rápido quanto o feed do nosso Tumblr." A Thug Unicorn está na versão 2.0. Mudou-se para o Maus Hábitos, vai regressar ao Musicbox e estreia-se no Milhões de Festa

Vai uma adivinha? Qual é a coisa qual é ela que, num eventual cartão de visita, apresentaria palavras como Internet, tumblr, “glitter”, “random”, Kim Kardashian, “bling bling”, democracia e liberdade, pontuando com uma curta retórica: “Why not?” Se a resposta está na ponta da língua, é sinal que, provavelmente, já entraste neste boémio universo de unicórnios “badass”, nascido no Plano B, no Porto, agora em maturação 2.0 do outro lado da avenida, no Maus Hábitos, com “sleepovers” no Musicbox, em Lisboa, e no Festival Milhões de Festa.

Se, por outro lado, este pedaço de texto não faz sentido nenhum, é tempo de decorar: Thug Unicorn. Uma festa que tem tudo isto e muito mais. Onde se abre com R&B ou hip-hop e se termina na Lambada. Onde é possível encarnar a Iggy Azalea ou a Grimes e vibrar com a última malha da Beyonce. Onde pululam cabelos rosa e azuis, “bindis” à Gwen Stefani nos anos 90 e correntes douradas. Onde o “guilty pleasure” de um está em amena cavaqueira com o “guilty pleasure” do outro.

A Thug Unicorn é como uma “festa de pijama”, descreve Luísa Cativo. “Estás em casa com os teus amigos a beber uma cerveja e a passar vídeos no YouTube.” É como que um “feeling” que “se tem em núcleos pequenos, mas transportado para uma festa grande”, relata Supa. “Agora apetecia-me mesmo ouvir aquela malha!” E ouve-se.

Há quase dois anos, as duas juntaram-se a Jackie e Tânia Pena para fazerem uma festa, com página “humorística no Facebook, que transportasse para a pista de dança a actual cultura pop urbana, muito influenciada pela Internet, e a fizesse conviver com alguma nostalgia adolescente pelos anos 90 e inícios de 2000. “Sem complexos.” Porquê? Porque acharam que seria “divertido” e “diferente” do que faziam. Organicamente, como pessoas "coladas" na "net" que são, a festa acabou por se aproximar do universo que lhes chega diariamente pelo Tumblr. Coincidindo com o germinar de artistas subversivos como Mykki Blanco ou Le1f (com casa-mãe na Internet), a Thug nasceu também enquanto sátira ao machismo e homofobia no hip-hop, escancarando as portas para um ambiente mais “queer” e aberto, onde “todos podem aparecer como lhes apetecer”, onde todos os géneros musicais são bem recebidos: R&B, hip-hop, trap, pop, electrónica, reggaeton, zouk, etc. Lema: “Aqui, tudo acontece e muda tão rápido quanto o 'feed' do nosso Tumblr.”

PÚBLICO -
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Da esquerda para a direita, Luísa, Supa e Jackie Fernando Veludo/nFactos

"O meu gato é melhor DJ do que eu"

O paradoxo do nome Thug Unicorn

Todas já passavam música e faziam de segunda casa o Plano B, onde Jackie se ocupa da comunicação e de alguma programação. Luísa, “styling assistant” do departamento de marketing da Parfois, fazia parelha musical com a designer gráfica Tânia, actualmente a viver em Lisboa (por isso, ausente na entrevista com o P3). Supa, um dos braços da editora de hip-hop alternativo Monster Jinx, depressa entrou na equação. “É, a nível técnico, a melhor de todas nós, a que sabe misturar”, diz Jackie. “Não podíamos ser todas más DJs, mas também não podíamos ser todas boas porque queríamos uma coisa genuína.” Sim, aqui as falhas são assumidas, até porque é, nas palavras de Supa, uma festa “completamente anti-DJ”, “totalmente despretensiosa”. Jackie: “Nós nem sequer estamos preocupadas com as passagens.” Luísa: “O meu gato é melhor DJ do que eu.”

A Thug Unicorn é como uma festa de hip-hop inclusiva

Visível em tudo, da música aos “flyers”, da “Sailor Moon” ao “dresscode” voluntário, é a influência “seapunk”, uma corrente, nascida, lá está, no Tumblr, que acabou por inspirar artistas como Azealia Banks, Molly Soda, Brooke Candy, Grimes e até mesmo Rhianna. Sim, até pode haver pessoas que não percebem a estética ou a linguagem, mas que acabam por se identificar com o ambiente “democrático” da festa ou com a página no Facebook que é alimentada regularmente com imagens a preceito.

“Se dermos abertura às pessoas para fazerem o que quiserem, usarem o que quiserem, elas vão fazer o que quiserem, usar o que quiserem e vão sentir-se bem com isso.” Para Jackie, até é possível agradar a gregos e a troianos — e o certo é que na Thug aparecem pessoas de extremos muito diferentes. Em dois anos, muita coisa aconteceu. O público ficou mais jovem e criou-se um verdadeiro grupo de seguidores — Luísa, ainda antes da primeira data no Musicbox, chegou a ser abordada “duas ou três vezes” por desconhecidos que lhe perguntavam pela festa. Na última, no Plano B, as quatro tinham “uma comitiva de miúdos” à espera da primeira música, efusivamente recebida com gritos, tal como todas as outras que se seguiram. “Há pessoal que vai mesmo ‘quitado’ para a festa”, conta Luísa. Conversas presenciadas na casa-de-banho ou no bar: “Já viste o casaco que eu comprei para a Thug?” / “Comprei 20 euros de 'glitter'!”. É, sumarizam, “estranho”, “engraçado”, “espectacular” e “fixe”.

Porto, Lisboa e piscina

Numa noite no Plano B, em que “quase tudo correu mal”, tinham 1300 pessoas confirmadas no evento no Facebook — “Apareceram 1200”. “Foi o caos.” Hoje, já solucionaram alguns problemas. Fazem pré-venda de bilhetes (5 euros na Matéria Prima com acesso directo ao "giveaway" de algumas peças de roupa e acessórios) e não passam o microfone a qualquer um. Sim, há um microfone, tão depressa utilizado para comunicar problemas técnicos, como para o “momento karaoke” das próprias DJs. Claro, também têm a sua legião de “haters”, que lhes censura, geralmente, as capacidades técnicas e a afluência de pessoas (“Deviam fazer a Thug no Coliseu do Porto!”). Talvez este último possa ser minimizado com a passagem para o Maus Hábitos, na Rua Passos Manuel, onde vão poder dinamizar todo o espaço, ao abrigo dos ventos de mudança deslocados pelo novo programador, o "Stereoboy" Luís Salgado.

Este sábado, 28 de Junho, as Jackie, Luísa, Supa e Tânia comandam as operações a partir da sala de espectáculos, ladeadas pela VJ s-ara. A noite fica completa com Apoca-Lips e STAMINA Sound System no salão nobre. A partir de agora alternam entre Porto e Lisboa — dia 19 de Julho há Thug Unicorn no Musicbox, dia 30 de Agosto comemoram o 2.º aniversário no Maus Hábitos e dia 12 de Setembro regressam à capital. Pelo meio, a 27 de Julho, há a piscina do festival Milhões de Festa, em Barcelos. Comentários: “Vai ser a melhor cena da piscina. Fatos de banho e ‘twerk’.”