Saúde: será o sol capaz de furar o nevoeiro?

O Serviço Nacional de Saúde de hoje deve manter-se como garantia de acesso, mas prestado por quem fizer melhor e mais barato.

Tudo é incerto e derradeiro./ Tudo é disperso, nada é inteiro./ Ó Portugal, hoje és nevoeiro… (Fernando Pessoa)

Durante muitos anos, tive o privilégio de ter sido médico do SNS, gestor de unidades do SNS, bem como de o servir nas suas várias vertentes. Isto permite-me ser um observador desapaixonado e verdadeiro das suas grandezas e das suas debilidades. Mas também me possibilita refletir sobre a sua viabilidade futura.

Se os indicadores de saúde melhoraram exponencialmente durante os últimos decénios, isso deve-se a uma estrutura que modificou profundamente a segurança e a qualidade de vida de um povo. Copiamos tarde o que a Europa democrática já tinha, mas fizemos bem e rapidamente chegamos a indicadores que nos situam na média dos países desenvolvidos.

Porém, as organizações são dinâmicas e, se não acompanham a sociedade – os seus problemas, a sua conceção de vida, os ciclos económicos, demográficos e sociais - ficam condenadas a uma morte anunciada: "Tudo é incerto e derradeiro".

Hoje, após a ruína de velhos dogmas sociais, da inversão da pirâmide etária, da alteração do mercado de trabalho, da emergência da globalização, numa era em que se questiona, todos os dias, o modelo de uma sociedade que enfrenta novas doenças e uma crise real e omnipresente em toda a Europa – podemos continuar a pensar a saúde como há quarenta anos?

Pensar da mesma maneira é injetar mais recursos – que não existem. É manter uma espiral de despesas sem benefícios diretos. É proteger uma sociedade orbitária que em nome dos doentes se escuda a si própria. É falar em igualdade de acesso numa sociedade desigual. É falar em empresas públicas hospitalares que não passam de repartições. É falar em modelos organizacionais voltados para dentro e não para quem servem.

Os tempos são diferentes e o que foi uma conquista civilizacional não pode ser defendida pela via do conservadorismo e dos dogmas provincianamente ideológicos. Hoje, é preciso defender o acesso à saúde com o pragmatismo de quem o quer poder manter e não de quem quer viver à sua custa…

O nosso sistema de saúde fragmentado, com sobreposição de prestadores, com interpenetração de interesses, não passa de uma manta de retalhos em que, tal como diz o poeta: "Tudo é disperso, nada é inteiro".

Os gastos na saúde têm de ser calculados em função da riqueza criada e não na utopia de comparações com países onde o custo unitário com recursos humanos é bem maior.

O Serviço Nacional de Saúde de hoje deve manter-se como garantia de acesso, mas prestado por quem fizer melhor e mais barato.

Não estamos em condições de querer baralhar os dados só para manter aquilo que não tem capacidade de autorreforma ou de resposta aos desafios atuais e futuros.

Numa sociedade livre e informada como a nossa, quer a nível nacional, quer no plano europeu, o doente é decisor e deve procurar aqueles em quem confia e as organizações devem funcionar concorrendo entre si pela qualidade e pelo preço, em benefício do doente.

O setor público da saúde tem excelentes gestores que estão prisioneiros de matrizes que não os deixam decidir.

Tudo é centralizado, normalizado, decretado, como se vivêssemos numa sociedade sovietizada. As pressões especializaram-se na manutenção do status quo. Qualquer alteração, qualquer tentativa de reforma provoca ondas de choque.

"Ó Portugal, hoje és nevoeiro…", mas não há bruma e obscuridade que sempre dure, pelo que devemos preparar a sociedade para os dias de esperança que aí virão.

"O que quero é um sol, mais sol que o Sol", também diz o poeta, através de um dos seus heterónimos.

Em todo o mundo, a organização do sector da Saúde vai sofrer uma “destruição criativa”, isto é, uma transformação que acompanha uma inovação radical.

O mundo digital - dos smartphones e da nanotecnologia – vai revolucionar a medicina e a saúde. O doente vai ser diagnosticado e tratado no individual e não no coletivo.

As grandes “catedrais“ hospitalares vão dar lugar a unidades muito mais pequenas que diagnosticam e controlam os doentes à distância.

Poderá uma estrutura pesada, burocratizada e acima de tudo reativa ao progresso, enfrentar os novos desafios? Com certeza que não.

O SNS estatal deverá dar lugar ao SNS do cidadão, muito mais ágil, mais eficaz e, porventura, mais barato para todos. E isso só se consegue com liberdade e concorrência que, nos tempos de hoje, não pode significar falta de solidariedade.

O país do nevoeiro na saúde poderá dar, então, lugar a um sol que nasça para todos nós.

Presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP)

 

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