A caranguejola

Obscurecida pelo melodrama do PS, a direita teve realmente uma derrota histórica ou, como disse com suavidade Pedro Passos Coelho, um resultado “insatisfatório”. Perguntam a António Costa o que vai ele fazer para conseguir um governo forte (ou seja, maioritário) em pouco mais de um ano. Ninguém pergunta à coligação como se vai aguentar em 2015, embora os míseros 27,7% do domingo passado anunciem o pior. Ainda por cima, o CDS e o PSD já esgotaram na última campanha toda a propaganda que lhes podia valer nas legislativas. Tivemos, como toda agente sabe, a ilusão de que a “saída” da troika ia abrir um novo período de prosperidade. O relógio de Portas chegou ao zero, mas ninguém entretanto se deu ao trabalho de esclarecer como e por que meios esse truque publicitário iria ressuscitar os mortos.

O défice resiste a doses inconcebíveis de impostos, os “cortes” continuam, a dívida aumenta (e continuará a aumentar), a exportação (que devia ser a cura miraculosa para a incúria indígena) abrandou e “as reformas”, as verdadeiras, foram por aí esquecidas numa gaveta. Mas nada disto impediu o Governo de comunicar à populaça – com uma certa reserva, é certo – que a “recuperação” estava a caminho. O PSD e o CDS têm agora de pagar dia-a-dia as suas mentiras. À medida que os portugueses perceberam que as coisas ficaram exactamente na mesma e que o “tratado orçamental” substituiu a troika, com toda a eficiência, até os 27,7% de 25 de Maio tenderão a desce,r ou, no caso do CDS, a desaparecer.

Para Pedro Passos Coelho, o problema é, como sempre, um problema de “comunicação”. Julga ele que se os ministros tirarem tempo para “atender mais telefonemas” e se os deputados falarem com “mais pessoas”, a retalho ou por grosso, o PSD e o CDS são capazes de “pescar à linha” o milhão e tal de votos que perderam. Isto é, evidentemente uma ilimitada loucura, digna de um governo insensato e falhado. Passos Coelho e Paulo Portas deviam pensar mais numa despedida elegante e numa reforma cómoda do que em truques patéticos para salvarem uma caranguejola que se desfaz. Mas não pensam e o próximo ano acabará por ser o pior desde 2011, com o Governo a saltar como uma galinha sem cabeça e o Presidente a fingir que não vê sangue no galinheiro, enquanto a tarraxa “europeia” não pára de apertar.