Seguro prepara-se para anunciar directas e eleições nas federações

“Esta situação não pode continuar”, afirmou ontem o líder socialista, depois de confessar que preferia que os acontecimentos da última semana no PS não tivessem ocorrido.

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Seguro anuncia sábado se convoca ou não eleições internas Enric Vives-Rubio

Será uma espécie de dois em um e deverá ser tão rápido quanto possível: António José Seguro prepara-se para anunciar este sábado, na comissão nacional marcada para o Vimeiro, as eleições directas para a liderança no PS e, ao mesmo tempo, eleições para as federações distritais. E tudo indica que os dois sufrágios podem ocorrer num curto prazo, já que a comissão nacional tem poder para marcar data e local do congresso, que tem de ser antecedido pelas directas.

Seguro deu ontem à tarde o sinal mais forte de que quer resolver rapidamente esta situação, como pediram dois ex-Presidentes da República na quinta-feira, Mário Soares e Jorge Sampaio. Ontem, ao responder aos jornalistas na sequência da decisão do Tribunal Constitucional, o actual secretário-geral confessou, sobre o PS, que “preferia que não se tivesse passado o que se passou esta semana”. Mas logo afirmou: “Esta situação é que não pode continuar”.

Terá ido nesta declaração mais longe do que na reunião extraordinária do Secretariado Nacional da tarde, onde quis sobretudo para ouvir a sua direcção. Mas a crescente convicção no seio do partido é que Seguro tomará a iniciativa, na abertura da comissão nacional de hoje, de enfrentar o desafio de Costa e ir a votos, pouco mais de um ano depois das últimas eleições (a 14 de Abril de 2013), provocadas igualmente pelo presidente da Câmara de Lisboa mas sem se candidatar.

Nos últimos dias, no largo do Rato, as conversas andaram em torno dos dois cenários possíveis, nenhum deles favorável ao actual líder. Se não convocasse o Congresso Extraordinário, Seguro seria acusado de se esconder atrás dos estatutos. Se o convocasse, seria visto como uma cedência à oposição interna. Mas entre os dois cenários, resistir à clarificação seria o que mais enfraqueceria o líder.

O primeiro sinal de que Seguro poderia enfrentar o desafio das directas foi deixado na quarta-feira pelo próprio, na reunião com António Costa, no dia seguinte a este ter anunciado estar disponível para disputar a liderança do PS. Quando o autarca de Lisboa disse de viva voz ao actual líder que achava que ele devia marcar directas e congresso extraordinário, recebeu uma palavra ambígua como resposta: “Registo a tua opinião”. Ideia repetida no comunicado mínimo que a direcção fez sair a seguir ao encontro.

Costa ficou surpreendido, tanto mais que alguns membros da direcção segurista tinham até aí deixado no ar a ideia de que os adversários teriam de escavar as directas nos meandros dos estatutos. Mas saiu do Rato dizendo estar convicto de que, na tradição socialista, os problemas políticos têm soluções políticas e não administrativas. Ou seja, que o próprio líder iria agendar as eleições directas.

Costa preparado para avançar
“Se Seguro apresentar, como secretário-geral, a sua intenção, melhor”, disse ao PÚBLICO fonte próxima de António Costa. Mas se o secretário-geral o não fizer, os apoiantes de Costa estão preparados para levar o assunto a debate no órgão que, recorde-se, pode aprovar, por maioria, a marcação do calendário eleitoral interno.

As contas não são simples, e Seguro parece ter assegurada a maioria dos votos na Comissão Nacional. Mas perante a questão colocada, a decisão não depende apenas do posicionamento dos dirigentes entre os candidatos. Pode haver apoiantes de Seguro que prefiram clarificar a situação interna com um novo congresso, mesmo que ele não o faça. Nesse sentido já se ouviram vozes próximas do líder socialista, como a eurodeputada Ana Gomes ou membro do secretariado João Proença.

E as contas aos apoios podem ter-se alterado ao longo da semana. É convicção de um colaborador de Costa que a tradicional divisão de votos (dois terços para Seguro, um terço para Costa) no órgão máximo entre Congressos já não é tão favorável ao secretário-geral: “Seguramente mais do que um terço da Comissão Nacional apoia-o.” É o caso da maioria dos membros por inerência da Juventude Socialista. E é também o caso de alguns representantes de distritos que apoiaram Seguro no passado e, recentemente, mudaram de campo ou estão divididos.

As preferências por um ou outro candidato foram sendo tornadas públicas ao longo da semana, atingindo o auge com o artigo de Mário Soares ontem divulgado no PÚBLICO, dano o seu apoio a Costa. Um apoio que o presidente da Câmara de Lisboa agradeceu: “Com certeza que todos os apoios são bem-vindos e o do militante número 1 e fundador do PS é particularmente bem-vindo. Felizmente há muitos apoios”, disse, à margem da inauguração do Heliporto de Algés, em Oeiras.

Na verdade, este é apenas um combate adiado. E não apenas do ano passado para este. A 14 de Março de 2013- seis meses após Seguro ter sido entronizado líder do PS no Congresso de Braga -, António Costa lança com pompa circunstância, e rodeado das elites do partido, o seu livro “Caminho Aberto”, onde deixava claro estar disponível para todos os cargos no partido.  Ao PÚBLICO, garantiu na altura que não descartava qualquer candidatura na política. "Não fujo de nenhum cargo", disse, prevendo ficar na política por mais duas décadas.

Em Janeiro de 2013 entrou candidato na comissão nacional, já com mandatário e sede de candidatura, e saiu declarando apoio a Seguro, deixando entre o desencanto e a fúria o seu núcleo duro. No mês seguinte, os dois rivais assinaram juntos a “declaração de Coimbra”, onde os apoiantes de Costa garantiam, sem disputa, um terço dos cargos partidários. No entanto, a divisão interna esteve sempre latente. No Rato, a percepção é a de que esta semana todos vieram dizer alto aquilo que antes diziam à boca pequena.

Debate nas redes
Esta semana, as redes sociais confirmaram ser um espaço natural para “amplificar” o debate. Nas últimas horas, o Facebook deu vários exemplos. João Galamba, deputado do PS que apoia Costa, escreveu: “A ausência de Seguro do debate da moção de censura do PCP é uma vergonha. A justificação - trata-se de um protesto formal - é ainda pior.”

Galamba teve resposta de Eurico Brilhante Dias, membro do secretariado e apoiante de Seguro: “A ausência - mesmo que formal de solidariedade - é uma vergonha. E tu tens responsabilidades políticas sérias. Se nem para votar a moção de censura vocês se entendem quanto mais para governar o partido e o país. O SG merece a solidariedade; e não é com impulsos juvenis que o partido vai ser mais alternativa. Atenção João: construir é difícil; destruir é fácil. “

Também no Facebook, outro membro do secretariado, António Galamba (sem nenhuma relação familiar com o deputado), apoiante de Seguro, zurziu em “certa elite intelectual ou pseudo-intelectual de Lisboa para quem todo o mundo se resume Lisboa e ao spin”. E as bicadas continuam, no twitter, nos blogues.

Sérgio Sousa Pinto, apoiante de Costa, também no Facebook, constatou: “É com tristeza e indignação que vejo alguns camaradas perderem a noção do que é admissível no debate interno, dominados pelas paixões, sem racionalidade, limites ou tino. Todos os exaltados prestam um mau serviço ao partido e a si próprios. Respeito por quem se candidata por sentido de dever perante o partido e o país. Respeito também por quem é o Secretário Geral do partido e que o tem conduzido num período especialmente difícil. Todos somos o Partido Socialista.”

Apesar de haver um razoável número de “exaltados”, o meio, neste caso, parece condicionar a mensagem. E quem nunca se exaltou numa discussão online que atire a primeira pedra…

Guarda com Costa
A comissão política concelhia do PS da Guarda na qual está inscrito o secretário-geral do PS, António José Seguro, decidiu apoiar o presidente da Câmara de Lisboa no mesmo dia em que manifestou a sua disponibilidade para disputar a liderança do partido.

O apoio foi manifestado terça-feira à noite por todos os elementos do secretariado concelhio, depois do debate sobre a votação do PS nas europeias. De acordo com relatos feitos ao PÚBLICO, todos os membros do órgãos manifestaram estar ao lado do presidente da Câmara de Lisboa.
 

   

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