Passageiros podem ganhar com a aposta na rede ferroviária de mercadorias

Em 2020, se todos os investimentos na ferrovia se concretizaram, o Alfa Pendular não será muito mais rápido entre Lisboa e o Porto, mas poderá haver comboios directos da capital para Elvas e Badajoz, o Algarve pode ter mais cidades ligadas a Lisboa, e o Minho e o Oeste estarão mais integrados na rede ferroviária portuguesa.

O Alfa Pendular passará a ter condições mais homogéneas de exploração
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O Alfa Pendular passará a ter condições mais homogéneas de exploração Daniel Rocha

Com 2,6 mil milhões de euros para investir em caminhos-de-ferro, numa lógica de inserir portos e terminais de mercadorias no sistema ferroviário, sobra muito pouco para melhorar o desempenho do serviço de passageiros, que é claramente desvalorizado no Plano Estratégico dos Transportes e Infra-Estruturas (PETI) como se este não tivesse relevância para as pessoas e para a economia.

Mas a electrificação das linhas permitirá criar novos serviços e ligações mais rápidas e directas entre algumas cidades. Assim o queira a CP, que praticamente deixará de ter dores de cabeça com uma frota diesel envelhecida e passará a poder gerir a sua operação com comboios eléctricos em todas as linhas.

Será o caso do Minho onde deixará de fazer sentido a “fronteira” de Nine para os comboios suburbanos, que poderão ir a Barcelos e até mesmo a Viana. A ligação Porto-Vigo poderá ser reduzida e nada impede que se façam até comboios da Invicta para Santiago de Compostela e La Coruña.

A linha do Douro é que fica mais à margem da modernização. O plano só contempla a sua electrificação até Marco, chegando à Régua só em 2022 e deixando o troço até ao Pocinho para as calendas. A breve prazo não há condições para reintroduzir o serviço Intercidades entre a Régua e o Porto.

Já quanto à linha do Norte não há grandes ilusões. O próprio PETI (que prevê 400 milhões de euros para modernizar os três troços ainda falta na espinha dorsal da rede ferroviária portuguesa) diz que este investimento se destina apenas a “impedir a degradação da infraestrutura e permitirá repor o patamar de velocidades na média dos 140 km/hora, não permitindo, no entanto, o aumento da velocidade máxima, uma vez que não irá haver alterações de traçado”.

Na prática, o Alfa Pendular e os Intercidades passarão a dispor de condições mais homogéneas de exploração, com uma linha inteiramente modernizada, mas sem grandes melhorias de velocidade. O Alfa Pendular, que hoje faz Lisboa – Porto em 2h44, poderá ganhar entre cinco a dez minutos.

O PETI fala ainda numa linha para Viseu – de inegável interesse para os passageiros –, mas é um dos projectos mal assumidos e mal explicados do plano, assinalado apenas com um círculo no mapa. Na Beira Baixa, a conclusão da modernização entre Covilhã e Guarda permitirá que a Cova da Beira tenha comboios directos para a Beira Alta e para o Porto.

A electrificação da linha do Oeste (135 milhões de euros) poderá pôr esta região na geografia ferroviária nacional se a CP fizer comboios directos de Lisboa a Coimbra e Porto, servindo Torres Vedras, Caldas da Rainha, Marinha Grande e Leiria. E nada impedirá que o Lusitânia Expresso e o Sud Expresso, que ligam Portugal a Madrid e à fronteira francesa, tenham a sua rota por esta região litoral, com mais população e maior procura turística.

Já para sul, a construção da linha Évora – Caia, integrada no eixo Sines-Badajoz, vai permitir aos comboios de contentores vindos dos portos de Lisboa, Setúbal e Sines pouparem 200 quilómetros na sua ligação a Espanha. Mas onde passam comboios de mercadorias também passam composições de passageiros e, tecnicamente, nada impedirá que a CP prolongue o seu serviço Intercidades de Évora até Elvas e Badajoz. Acresce que os espanhóis não cancelaram o seu projecto de alta velocidade e esta poderá ser uma via prática para apanhar o TGV para Madrid.

O Algarve será das regiões mais beneficiadas com a electrificação. Hoje, Tunes e Faro são as estações de transbordo para os Alfas e Intercidades, mas já em 2017, será possível entrar no comboio em Lisboa e só dele sair em Vila Real de Sto. António, Tavira, Olhão, Portimão ou Lagos. Sem rupturas de carga.

Mais ainda: o PETI refere, de forma envergonhada, uma via férrea de Faro ao seu aeroporto. Os 55 milhões de euros contemplados para o Algarve não chegam para tal - o que não é inédito no documento do Governo onde há mais casos de financiamentos insuficientes para os projectos anunciados -, mas a construir-se tal linha, será possível ligar por caminho-de-ferro os aeroportos de Faro e de Lisboa (gare do Oriente), para mais num momento em que a CP tem uma parceria com a TAP para partilha de passageiros.

Tudo isto depende da capacidade de inovar da CP aproveitando as “novas” infra-estruturas. A empresa inverteu recentemente a política de divisão em unidades de negócios, voltando a integrar serviços que antes eram quase empresas autónomas. O objectivo é reduzir custos, mas é uma oportunidade para voltar a funcionar em rede, em benefício dos passageiros que poderão ganhar mais ligações directas e maior número de origens e destinos. Afinal é o próprio governo que consagra no PETI o lema “Para que tudo fique mais perto”.

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