Opinião

Taxa de juro nos 4%, estamos bem ou como na fábula?

As taxas de juro da dívida a dez anos cairam abaixo dos 4%. É um sinal de que conseguimos restabelecer pelo menos parte da confiança perdida.

O Luxemburgo considera transmitir informação sobre juros pagos a clientes estrangeiros
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O Luxemburgo considera transmitir informação sobre juros pagos a clientes estrangeiros Ints Kalnins/Reuters

Se tivéssemos que escolher apenas um indicador para o estado da economia teria que ser a taxa de juro de longo prazo. Portugal voltou aos 4%, quatro anos depois, por coincidência ou não, o tempo de uma legislatura, mas será que estamos melhores?

Já poucos se lembrarão da dívida pública portuguesa nos anos 80. Apenas para recordar, repare-se nesta relíquia extraída do decreto-lei que definiu as condições de uma emissão de dívida publica em 1985: “A taxa de juro nominal anual será a taxa de referência para os depósitos a mais de seis meses e a menos de um ano, fixada por aviso do Banco de Portugal, que estiver em vigor no primeiro dia de cada período semestral da contagem de juro, deduzida de 1%, sendo de 26% a aplicável ao primeiro vencimento de juros.”. Não, não há engano, 26%!

Em 1 de Janeiro de 1999, Portugal adoptou o euro como unidade monetária e, na década seguinte, os chamados países do sul da Europa passaram num golpe de mágica a serem vistos como alemães e, tudo feliz, conseguiam emitir dívida com spreads residuais. Não vale a pena lembrar quem estava no Governo nesta altura pois, se há coisa em que somos consistentes, é que desde 1974 votamos sempre nos mesmos. Relevante é que, como qualquer pobre quando recebe uma esmola, aproveitamos esse período de ouro para nos endividarmos a taxas que não conheciamos. Acho mesmo que a maioria de nós, portugueses, consideramos que estava tudo bem nessa altura, que não faltava dinheiro para nada e alegremente consideramos que os desequilíbrios na balança corrente eram pormenores de franja, algo despiciente face à facilidade de consumo e de rendimento a que depressa nos habituamos.

Claro que, como tudo nas finanças, um presente nunca vem só e, mais tarde ou mais cedo, vem a factura respectiva. Durante este período, os países tipo formiga, como a Alemanha, continham-se nos aumentos de ordenados, aumentavam a produtividade e não criaram condições para grandes especulações no mercado imobiliário, o que resultou numa coisa a que os economistas chamam de câmbio real negativo. Já os países tipo cigarra, como Portugal, a Espanha, a Grécia e, mesmo, a Itália e a França, que julgavam que o inverno vinha longe (inverno não, a factura) aumentaram alegremente a sua taxa de câmbio e consecutivamente foram reduzindo a sua capacidade de exportar. Muitos empresários contarão isto de forma diferente: deixamos de ter a desvalorização do escudo, os chineses trabalham por meia malga de arroz, o mundo passou a ser global e não há carros como os alemães.

Quando chegou o inverno e, principalmente, quando os gregos e a crise internacional mostraram a fragilidade com que o euro tinha sido criado, foram, claro, os países cigarra que o mundo começou a olhar com mais desconfiança. O final da fábula todos conhecem, a formiga deu uma sopa à cigarra para que não morresse logo de frio, mas claro que não foi nem por ter pena dela nem por que fosse solidária. Por troca da sopa teria que cantar e tocar para a formiga e é isso que temos feito desde então, à espera de nova época de tempo mais quente e, esperançosamente, que tenhamos aprendido alguma coisa.

As perspectivas que o Banco de Portugal divulgou esta semana indiciam uma notável recuperação económica e não são bem sérios os que disseram que, a descer tanto, algum dia tínhamos que subir. Porque os mesmos, há poucos meses, especulavam que, com as politicas seguidas, a economia portuguese só poderia seguir o caminho das pedrinhas, que denominaram como espiral recessiva.

Claro que podemos dizer que esta história das taxas de dívida publica a 10 anos estarem abaixo dos 4% é apenas uma questão conjuntural. De fact,o há uma evidente correlação no preço da dívida dos países cigarra e, tanto a Espanha, como a Itália, como a França e como até a Grécia todos têm experimentado alguma descida de taxas de juro.

Se estamos ou não melhor é uma questão polémica. A taxa de juro da dívida publica não nos diz, em tese, e aceitando as principais teorias financeiras, se a economia está melhor. O que nos diz é se as perspectivas estão melhores e isso é uma evidência, pelo menos para aqueles que nos emprestam dinheiro, o que um conjunto aparentemente crescente de notáveis portugueses e alguns estrangeiros considerarão um bando de mentecaptos porque o empobrecimento do país é sentido pela maioria de nós e só eles é que não vêm.

O chamado consenso político que viria a calhar nesta altura parece-me utópico e, francamente, algum retrocesso na nossa democracia de tenra idade. Já votamos todos nos mesmos, se esses agora se entendessem, votariamos para quê? Mas é evidente que é um sinal de risco. Todos se lembrarão como há tão pouco tempo alguém dizia que precisavamos medidas de austeridade se a taxa de juro ultrapassasse os 7%. Ora, até lá, temos alguma folga, infelizmente, claro!

Sou algo optimista e acredito nalguma da fundamentação para o chamado Tratado Orçamental. É tudo meio treta quando temos que contar os tostões para ir à mercearia e temos hoje mais que certo que a construção do euro tem alicerces frágeis, mas já conseguimos restabelecer a confiança que tínhamos há quatro anos. Esqueçam se fizemos tudo direito, claro que não, mas aproveite-se o capital de confiança. Se estamos bem? Não sei, mas bom é dar o beneficio da dúvida às formigas que acham que sim.