Opinião

Não é dos fracos que a Europa precisa agora

As nossas sociedades tornaram-se perigosamente imaturas. Ou arrepiamos caminho, ou tornar-nos-emos presas fáceis do populismo e da demagogia.

O último fim-de-semana ficou marcado pela ocorrência de dois acontecimentos relevantes no espaço político europeu: a morte de Adolfo Suárez em Espanha e o expressivo resultado eleitoral obtido pela extrema-direita na primeira volta das autárquicas francesas. Tudo os separa no plano simbólico. Suárez partiu convocando, na hora do seu desaparecimento físico, a memória dos anos fundadores da democracia espanhola; a Frente Nacional cresce no contexto de um ambiente social e político cada vez mais alheado da importância de um conjunto de valores cívicos imprescindíveis à perpetuação de um regime democrático.

O homem que, proveniente do franquismo, liderou com talento a transição para o novo regime é hoje melancolicamente lembrado justamente pela fidelidade a essas virtudes cívicas, tão bem teorizadas por vários pensadores clássicos. Esse olhar melancólico, bem patente nas reacções e exclamações populares observadas por estes dias nas ruas madrilenas, contém simultaneamente uma censura ao presente e uma esperança no futuro. Nessa perspectiva, assistimos a uma reactualização simbólica dos ideais democráticos proporcionada pela celebração dos rituais associados à morte de uma grande figura fundadora do próprio regime democrático.

Após os tempos épicos da transição, Adolfo Suárez foi, como acontece com todos os homens políticos, traído, contestado, abandonado e condenado a tempos de penosa solidão. Acabou, aliás, como quase todos acabam: eleitoralmente desvalorizado. Esse foi o seu percurso na época da normalidade democrática. O que agora a Espanha inteira quis recordar foi o Adolfo Suárez que rompeu com as suas próprias origens autoritárias e construiu, em consenso com os seus adversários, uma sólida democracia moderna que transportou o seu país para a contemporaneidade em todos os domínios. No fundo, o que aqueles cidadãos anónimos, que esperaram horas a fio diante do Congresso dos Deputados para prestar uma derradeira homenagem ao estadista desaparecido, pretendiam não era mais do que a recuperação de uma certa inocência própria das fases inaugurais de um regime aberto e pluralista. As sociedades precisam disso e as democracias exigem-no sem cessar. A degradação de um horizonte de bem comum, seja sob a forma de normas procedimentais, seja sob a forma de valores fundacionais de uma convivência intracomunitária, transporta consigo a ameaça de dissolução da própria democracia. Esta não pode, sob pena de extinção súbita, estar exclusivamente dependente da capacidade pública de satisfação dos interesses estritamente individuais. Precisa de referentes comuns que proporcionem o pluralismo com o sentido de pertença a uma mesma sociedade.

Nessa perspectiva de França chegam-nos os piores sinais: descrença nos mecanismos de representação clássicos, desconfiança nas principais correntes ideológicas de inspiração democrática, medo face ao novo e ao outro, inclinação para o regresso a uma ideia fechada e tendencialmente organicista da comunidade nacional. Enganam-se os que pensam que se está apenas perante uma circunstancial manifestação de rejeição de François Hollande e do PSF. É verdade que o Presidente francês é particularmente impopular, mas já há muitos anos que se detectam sintomas de um mal-estar muito mais profundo. A presente crise económica e social concorrerá decerto para o crescimento eleitoral da extrema-direita, mas seria um grave erro aderir a uma teoria da monocausalidade como tentativa de explicação de tão inquietante fenómeno. Dominique Schnapper, autora de uma vasta obra sobre a condição das democracias contemporâneas, numa entrevista publicada na última edição do L’Express, faz uma análise de grande precisão. Quase tudo o que ela diz se concentra numa afirmação lapidar: “O indivíduo está a substituir o cidadão.” A prevalência das aspirações estritamente individuais, tão característica das sociedades que cultivam o imediato, que idolatram o consumo, que reduzem o Estado ao estatuto de um mero prestador de serviços e que reclamam incessantemente a proliferação de direitos com escassa contrapartida no domínio do reconhecimento dos deveres cívicos, só pode conduzir à dissolução dos vínculos colectivos de que nenhuma democracia pode prescindir. Ora, tal situação não é também apenas resultante do triunfo do neoliberalismo – radica num mal-estar mais vasto que afecta praticamente todo o mundo ocidental. As nossas sociedades tornaram-se perigosamente imaturas. Ou arrepiamos caminho, ou tornar-nos-emos presas fáceis do populismo e da demagogia.

Há escassos 20 anos democracias liberais vitoriosas festejavam delirantemente o fim da utopia comunista. Hoje são elas próprias que enfrentam sérios riscos. E, já não havendo receitas utópicas simples a que deitar mão, surge o espectro de novas formas de fascismo. É isso que a Frente Nacional representa em França, por muito que a sua actual líder, Marine Le Pen, o tente camuflar. E é também esse risco que emerge progressivamente por quase toda a Europa.

Não há, contudo, fatalismos na História. Percebida uma ameaça, há que encontrar a forma de a combater. Na Europa há duas tarefas inadiáveis: pugnar pela recuperação das grandes virtudes cívicas associadas aos ideais democráticos e lutar pela alteração de uma política económica que gera exclusão, medo e revolta. Sendo inadiáveis, são tarefas reconhecidamente difíceis que apelam simultaneamente, por estranho que isso possa parecer, à capacidade de romper e à capacidade de consensualizar.

Adolfo Suárez foi grande num momento especial da vida do seu país porque teve a coragem do confronto e teve a coragem da concórdia. Nisso residiu a sua força. Os fracos são pouco persistentes no combate e muito arrogantes na hora dos compromissos. Não é desses que a Europa precisa agora. Pelo contrário.

Deputado (PS), cabeça de lista do PS às eleições para o Parlamento Europeu

 

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