Opinião

A humildade é a melhor aliada da inteligência

Continuamos a precisar de inteligências como a de Medeiros Ferreira. A sua obra persistirá como uma bússola para podermos compreender os nossos caminhos do futuro.

Há homens que são eles, o seu talento e a sua circunstância. Medeiros Ferreira fazia parte dessa categoria de seres humanos. Homem do seu tempo, pelo vigor da sua inteligência e pela vastidão da sua cultura, conseguia projectar-se para além do imediato e alcançava uma intelecção dos acontecimentos verdadeiramente fora do comum. Para isso contribuíam, com certeza, a sua erudição histórica e a sua formação filosófica. Por motivos geracionais, não convivi intensamente com ele.

Conheci-o nos Açores, numa iniciativa dos famigerados “Estados Gerais”, em 1994; fui seu contemporâneo durante alguns anos na Assembleia da República; falámos pela última vez ao telefone há um mês atrás. E, contudo, este homem, apesar dessa distância, marcou-me profundamente.

Há duas semanas atrás, esperava-o numa livraria do Porto. Eurico Figueiredo, seu companheiro dos tempos de Genebra, tinha-me convidado para participar numa cerimónia de apresentação do seu último livro. Estavam lá também, em idêntica condição, Artur Santos Silva e Manuel Carvalho. Medeiros Ferreira não pôde comparecer. Tinha sido de novo internado nessa tarde. Eurico Figueiredo, com o seu saber de médico, anunciou o que já nenhum de nós desconhecia. Subitamente, aquele momento adquiriu um carácter pré-fúnebre. Se é muito difícil evocarmos a memória de alguém que morreu, é especialmente dramático fazê-lo sobre alguém que vai morrer. Sobretudo quando esse alguém transporta consigo um conhecimento, uma desenvoltura intelectual, um rigor analítico de tal ordem excepcionais que percebemos de antemão que dificilmente poderão ser preenchidos. Artur Santos Silva e Manuel Carvalho pronunciaram então discursos diferentes, mas de uma clarividência rara sobre o presente e o futuro do nosso país. Eurico Figueiredo, com a propensão heterodoxa que o caracteriza, referiu-se com palavras certeiras à personalidade do autor da obra então apresentada. Nessa ocasião, perante uma reduzida assistência – rude manifestação dos tempos –, tive consciência de estar a viver um momento histórico. Um momento em que se misturavam a grandeza do homenageado e a tristeza própria da tomada de consciência do seu fim próximo.

Ontem estive no Palácio Galveias, nesse derradeiro momento público da vida de um grande homem. Loureiro dos Santos, Vasco Cordeiro, Mário Soares e Ramalho Eanes, em breves discursos, referiram-se à vida, à obra e ao pensamento de Medeiros Ferreira. A inteligência também pode comover. Ouvindo-os, passámos em revista o percurso desse açoriano, paradoxalmente nascido no Funchal, que marcou os nossos tempos e as nossas vidas. Ali estavam a exposição da memória de um homem que nunca foi simples, jamais cedeu ao impulso da vulgaridade e que nos deixa um legado de uma subtileza rara. Ao ouvi-los, não poderíamos deixar de estabelecer um paralelo com os tempos presentes. Por vezes, aos 49 anos, sinto a nostalgia de outras épocas. Será isso a primeira manifestação dessa estação etária, hoje tão amaldiçoada e outrora tão respeitada, as primícias da velhice? A verdade é que, olhando para o discurso preponderante na actualidade, temos tendência a sentirmo-nos póstumos em relação a nós próprios. Quando ouço ministros, secretários de Estado, editorialistas da moda a falarem da Europa, da crise e da questão da dívida, com o dogmatismo que a ignorância proporciona, lembro-me desses homens políticos, hoje tão raros, que conheciam a História. Valerá a pena aconselhar a leitura do último livro de Medeiros Ferreira a essa gente? Infelizmente, não tenho a certeza. Nesta época em que o lugar-comum, o soundbite esperto e a pequena astúcia prevalecem no pensamento rigoroso e profundo, parece destinado a uma condição menor. Não querendo cair no exagero de uma melancolia saudosista, porventura excessiva, não posso deixar de afirmar uma profunda admiração por esses homens e essas mulheres que, pela originalidade e pela força do pensamento, concorreram para a transformação da nossa vida política e cívica. No Palácio Galveias, senti-me transportado para o passado e, simultaneamente, invadido por uma espécie de memória do futuro. Será isso o saudosismo do grande Teixeira de Pascoaes? A saudade do futuro?

A seguir, na Assembleia da República, ouvi o primeiro-ministro e o líder parlamentar do PSD. Que distância face àqueles que ousavam pensar sobre o país! Um discurso de resignação, como se a pobreza fosse uma fatalidade, a periferia uma condição e a subalternidade um destino. E em nome de tudo isto atrevem-se ainda a propor um consenso ao Partido Socialista. Tal não é possível. Esta manhã, ouvi Manuela Ferreira Leite a intervir num colóquio sobre políticas públicas organizado pelo ISCTE. Mesmo quando, por motivos de passionalidade, associados à luta política pura, o PS a vituperava, nunca deixei de sentir respeito por esta personalidade. Tenho a vantagem de o ter explicitado nessas horas. Manuela Ferreira Leite, de quem muito me separará nos planos cultural e político, é uma mulher séria, firme e pouco dada a desvarios puramente ideológicos. Por isso sempre me mereceu especial consideração. Ontem, nesse debate, a sua voz foi a mais lúcida. Chamou a atenção para a impossibilidade da concretização do programa político-económico protagonizado pelo Governo. Defendeu com inteligência o Estado social, advogou com lucidez a necessidade de uma outra política económica e orçamental. Teve razão no essencial.

Ao ouvi-la, pensei em Francisco Louçã. Ele assinou, com Adriano Moreira, um texto que merece reflexão: o Manifesto dos 70. Há poucos anos, isso seria não apenas impossível como absolutamente impensável. Nesse aspecto, concordo com Teresa de Sousa. O que é estranho não é a assinatura desses homens e dessas mulheres oriundos da direita – é, pelo contrário, a adesão de um dirigente histórico do Bloco de Esquerda. Esse acontecimento tem um grande significado. É possível uma política diferente. É desejável um Portugal modificado. E se, afinal de contas, Francisco Louçã e Fernando Rosas forem uns moderados perante o extremismo do actual Governo? Boa questão.

Neste tempo tão complexo, vai-nos fazer falta a inteligência de Medeiros Ferreira. Ele tinha essa capacidade, tão açoriana, de compreender os labirintos em que simultaneamente nos perdemos e nos encontramos. Os caminhos lineares constituem a utopia dos homens simples. Têm um pequeno problema: não existem. Por isso mesmo é que continuamos a precisar de inteligências como a de Medeiros Ferreira. A sua obra persistirá como uma bússola para podermos compreender os nossos caminhos do futuro. Sem, contudo, termos a certeza de os compreender ou de os antecipar. A humildade é a melhor aliada da inteligência.