Poul Thomsen diz que "não é a altura" para discutir reestruturação da dívida

Ex-chefe da missão do FMI na troika pede “consenso interno” em Portugal para o período que se segue ao fim do empréstimo.

Poul Thomsen pede alternativas à desvalorização fiscal
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Ex-representante do FMI tem a mesma opinião que o Governo. Rui Gaudêncio

O economista dinamarquês Poul Thomsen, vice-presidente do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o primeiro representante daquela instituição na missão da troika em Portugal, considera extemporânea a discussão sobre a reestruturação da dívida pública portuguesa.

Na conferência Portugal Pós-Troika, organizada pelo Jornal de Negócios em parceria com a Rádio Renascença num hotel em Lisboa, Poul Thomsen reconheceu o elevado nível da dívida portuguesa em percentagem do produto interno bruto (cerca de 129%) e defendeu que a questão do nível de endividamento do Estado “deve ser gerida com cuidado”, sem passar por um processo de renegociação.

“Concordo com a conclusão de que esta não é a altura para discutir esta questão”, disse, referindo-se ao manifesto pela reestruturação da dívida pública portuguesa. A mesma posição fora assumida minutos antes tanto pelo primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho, como por Brian Hayes, secretário de Estado das Finanças da Irlanda, que participaram na mesma conferência.

Uma reestruturação da dívida foi totalmente afastada por Pedro Passos Coelho, que pouco depois seria secundado pelo secretário de Estado das Finanças da Irlanda, quando defendeu que um país que está a tentar um regresso aos mercados financeiros não pode suscitar um processo de reestruturação da dívida.

Num apelo também idêntico ao feito pelo primeiro-ministro minutos antes, Thomsen referiu-se ao “consenso interno” em torno da consolidação orçamental e às reformas estruturais na economia como o caminho certo para Portugal ter um futuro de “prosperidade sustentável”. Uma das vantagens que o ex-chefe da missão do FMI disse ter encontrado quando chegou a Portugal em 2011 foi o “grande nível de consenso social” em torno de “medidas difíceis” que viriam a ser implementadas. Na primeira parte do programa, acentuou, o consenso conseguido entre Governo e oposição “foi importante para a implementação”.

Para o economista do FMI o ex-chefe de missão do FMI na troika, que até ao início de 2012 acompanhou no terreno as primeiras avaliações ao programa de ajustamento, Portugal está “no bom caminho para o acesso ao mercado de dívida” e tem cumprido o programa negociado em 2011 com a União Europeia e o FMI “apesar de constrangimentos formais e informais”.

Na mesma conferência, o primeiro-ministro considerara que o memorando de entendimento inicial desenhado com a troika – subscrito pelo PS, PSD e CDS-PP – alguns pontos de partida mal definidos, nomeadamente a “perspectiva excessivamente optimista quanto ao andamento da economia europeia”. E pouco depois, Poul Thomsen viria a fazer um mea culpa quanto ao desenho inicial do programa económico e financeiro acordado como contrapartida ao empréstimo de 78 mil milhões de euros. Foi o “programa perfeito? Obviamente que não”, reconheceu, garantindo porém que a estratégia central do memorando está a dar resultados.

Questionado no debate sobre se Portugal tem vantagens em pedir um programa cautelar, Thomsen disse que “cabe ao Governo tomar a decisão”, defendendo que que um dos tópicos a ter em conta são as condições de mercado. No fim do programa, disse, necessário será igualmente garantir no plano interno apoio à estratégia de consolidação orçamental.