Praga do escaravelho ameaça palmeiras do Passeio Alegre no Porto

Insecto entrou em Portugal em 2007 e já se espalhou por todo o país, à excepção dos Açores. Em Lisboa, só em Dezembro, a câmara abateu 35 palmeiras infectadas.

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Em Lisboa, a câmara autorizou o abate de 31 palmeiras infectadas, só em Dezembro Dário Cruz/Arquivo

O escaravelho vermelho que tem destruído palmeiras em vários pontos do país atacou as centenárias e classificadas árvores do Passeio Alegre, na Foz do Douro, no Porto. Duas das 102 palmeiras estão já infestadas, mas a câmara tem em curso um plano para minimizar os estragos.

Esta espécie de escaravelho (Rhynchophorus ferrugineus) que ataca as palmeiras foi detectada pela primeira vez em Portugal em 2007, em Albufeira, no Algarve. Por essa altura já Espanha, Itália e outros países mediterrânicos se debatiam há vários anos com o insecto, que é oriundo da Indonésia mas se expandiu a partir da importação de palmeiras do Egipto para a Europa. Naquele ano, a União Europeia considerou obrigatória a luta contra a praga, estabelecendo medidas de emergência. Depois disso Portugal tinha um ano para se candidatar a fundos comunitários para o seu combate, que é caro, mas não chegou a fazê-lo.

Desde então, o escaravelho foi subindo no mapa: segundo a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, em 2008 a praga foi detectada nas regiões Centro, ano em que chegou também à Madeira; em 2009 chegou à Região de Lisboa e Vale do Tejo e no ano seguinte ao Alentejo e à Região Norte. Apenas os Açores escapam, sendo a única região do país onde não há qualquer registo de contaminação.

Em Lisboa, a câmara viu-se obrigada a abater dezenas de árvores: ainda em Dezembro passado mandou abater 35 palmeiras em vários pontos da cidade, por estarem infectadas. Destas, apenas uma será substituída, as restantes não o serão "por motivos fitossanitários" ou por questões relacionadas com a "gestão do espaço", segundo a avaliação efectuada pelos serviços camarários.

Devido à sua rápida dispersão, o insecto chegou ao Porto, o que levou a autarquia a implementar há cerca de um ano um plano de controlo e prevenção da praga. Isabel Lufinha, engenheira do pelouro do Ambiente da autarquia, afirmou à Lusa que, desde então, os jardineiros tratam mensalmente 102 palmeiras existentes na Avenida D. Carlos I e no Jardim do Passeio Alegre - 63 das quais centenárias e classificadas como Árvores de Interesse Público.

Esta "luta biológica" passa por injectar na coroa da palmeira, através de um tubo preto colocado ao longo do espique (tronco), um produto que não é agressivo e que tem como função "atacar o escaravelho e reduzir os estragos que, em situações normais e sem acréscimo de protecção, eventualmente poderia causar sobre estas palmeiras". Apesar de duas das 102 palmeiras estarem já infestadas, a praga não está ainda a causar estragos que levantem grandes preocupações, precisou Isabel Lufinha.

Contactada pela Lusa, a professora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto Ana Aguiar explicou que quer as larvas quer os adultos deste escaravelho "têm uma armadura bocal trituradora", devorando, assim, o interior do espique da palmeira, acabando por a destruir. "Normalmente, quando se dá conta da presença do bicho já é tarde para salvar a palmeira", referiu a professora.

Combate é caro
O plano municipal representa "um investimento bastante elevado, até porque é prolongado no tempo", afirma Isabel Lufinha. "Mas na altura fizemos uma ponderação do custo/benefício e certamente o que perderíamos se deixássemos que esta praga ficasse descontrolada seria muito maior do que aquilo que o município está a tentar investir para o controlo e a prevenção", sustentou a engenheira da autarquia.

Em 2011, o vereador da Câmara de Lisboa com o pelouro dos Espaços Verdes, José Sá Fernandes, dizia ao PÚBLICO que abater uma palmeira contaminada custava entre mil e dois mil euros, enquanto que o tratamento preventivo custava pelo menos 400 euros por ano, por exemplar.

Apesar de as classificações estarem quase sempre associadas a património edificado, "este carácter de protecção dado às palmeiras, ou a outra árvore, é comparável à parede do Mosteiro dos Jerónimos ou à parede de um qualquer painel de azulejos extremamente emblemático, reconhecido pelos munícipes", salientou a técnica.

Mas esta praga "vai de um lado para o outro, não escolhe se [a palmeira] é municipal ou se é privada", pelo que a câmara apela à colaboração de todos, que, quando desconfiados de que o escaravelho está a atacar árvores privadas, devem chamar a Direcção Regional de Agricultura do Norte.

Aos primeiros sinais ou sintomas deve-se rapidamente agir. Se não for possível tratar as palmeiras, estas devem ser eliminadas, uma vez que são focos de propagação. "Esta nossa preocupação de protecção do nosso património também é, num segundo momento, uma preocupação para proteger aquilo que não é nosso", disse Lufinha, adiantando que há já perdas de exemplares, apenas privados, mas que "vai haver certamente mais".