Embrioscópio, um aparelho que vigia os embriões 24 horas por dia

Tecnologia permite observar todas as fases do desenvolvimento embrionário antes da implantação dos embriões no útero.

Casal tem nove embriões congelados numa clínica de Lisboa.
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Casal tem nove embriões congelados numa clínica de Lisboa. DR

Desde o nascimento de Louise Brown, o primeiro bebé-proveta, em 1978, em Inglaterra, que tem havido vários avanços na reprodução medicamente assistida. Uma nova tecnologia desenvolvida na Dinamarca – o Embryoscope – é um novo passo nesse sentido: apresentada esta terça-feira em Coimbra, trata-se de uma incubadora de última geração, que pretende aumentar as probabilidades de conseguir uma gravidez e desvendar os segredos do desenvolvimento embrionário.

A incubadora permite captar imagens de alta resolução nos vários momentos do desenvolvimento do embrião, que serão posteriormente analisadas por técnicos especializados. Permite ainda obter e monitorizar as condições ambientais ideais para esse desenvolvimento. “Há já muito tempo que não havia um avanço que nos fizesse progredir tanto”, salienta o embriologista Vladimiro Silva, director do Laboratório de Procriação Medicamente Assistida da clínica Ferticentro, em Coimbra. “É uma tecnologia muito útil e creio que será a norma dentro de dois ou três anos.”

Segundo o embriologista, Portugal faz parte dos 35 países que passaram a utilizar esta tecnologia, disponível no mercado desde 2009. A clínica Ferticentro, inserida no Idealmed, um hospital privado de Coimbra, começou a montar o aparelho nas suas instalações a 7 de Outubro último e, cinco dias depois, estava pronta para o disponibilizar aos seus pacientes.

Uma gravidez é um fenómeno quase improvável, com apenas 20 a 30% de probabilidades em cada ciclo menstrual. A Organização Mundial da Saúde considera que se, ao fim de um ano de relações sexuais regulares e desprotegidas, um casal não é capaz de engravidar, poderá estar-se perante uma situação de infertilidade.

Acredita-se que 10 a 15% dos casais em idade reprodutora apresentem dificuldades em conceber um bebé. Algumas das causas podem ser por a mulher apresentar uma desregulação hormonal ou limitações físicas no aparelho reprodutor, ou por o homem ter disfunção eréctil ou espermatozóides de baixa qualidade. Uma das soluções disponíveis para estes casais é o recurso à reprodução medicamente assistida, que, dependendo dos casos, pode ir dos tratamentos hormonais até à fecundação in vitro (FIV) e à microinjecção intracitoplasmática de espermatozóide (a introdução de um único espermatozóide no citoplasma do ovócito).

Utilizada desde o início da década de 1990, quando os espermatozóides não têm capacidade para atravessar a barreira criada pela membrana do ovócito, a microinjecção intracitoplasmática veio aumentar as taxas de fecundação em relação à FIV tradicional, que apenas juntava espermatozóides aos ovócitos, em condições laboratoriais, e esperava que um dos espermatozóides completasse a fecundação. Em ambos os casos, os ovócitos fecundados eram colocados em incubadoras e monitorizados até à altura da implantação no útero da mulher.


Nove planos a cada 15 minutos

O novo “embrioscópio”, numa tradução livre para português, permite observar os embriões durante o seu desenvolvimento no laboratório e perceber quais os que apresentam maiores probabilidades de sucesso. Desta forma, espera-se aumentar o sucesso das taxas de implantações.

Numa incubadora tradicional, é necessário retirar os embriões diariamente para os observar e fotografar. “Por cada dois minutos de observação, os embriões demoram 47 minutos a recuperar o seu estado normal”, alerta Vladimiro Silva. Este stress deve-se ao choque térmico entre a temperatura no interior e no exterior da incubadora e à exposição à luz.

Já no Embryoscope, não há necessidade de retirar os embriões, uma vez que a tecnologia incorpora um microscópio ligado a uma câmara especial, que tira fotografias em nove planos, a diferentes alturas, a cada 15 minutos. “Escolhemos períodos de 15 minutos porque os eventos embrionários normalmente não acontecem em períodos de tempo menores”, explica Vladimiro Silva.

As imagens captadas serão integradas num vídeo, em time-lapse, que depois será analisado por um software conforme alguns parâmetros estabelecidos pelos técnicos. “Estes algoritmos, para os quais continuam a sair novas publicações de referência, permitem avaliar a probabilidade de implantação do embrião”, clarifica o embriologista. “A análise das imagens permite não só detectar se o embrião está pronto para ser implantado como perceber se existem malformações. Há situações em que o sistema antigo é suficiente, mas a informação com essas técnicas é menos precisa”, acrescenta Vladimiro Silva. “O Embryoscope diz-nos a probabilidade de implantação de um embrião, com um grau de confiança muito superior ao dos métodos anteriores.”

Para os cientistas, é importante perceber o que acontece com os embriões enquanto estão fechados na incubadora. “Os filmes obtidos têm permitido à comunidade científica aprender mais sobre a evolução embrionária. Há muitas descobertas novas”, refere Vladimiro Silva. “Os primeiros resultados [da utilização do aparelho lançado em 2009] começaram a sair em 2012 porque, para se fazerem estudos equilibrados, é preciso algum tempo.”


Tratamentos custam mais 350 euros

Tal como para as incubadoras tradicionais, para o Embryoscope é essencial manter as condições (de temperatura, pressão de oxigénio e pressão de dióxido de carbono) estabilizadas dentro da incubadora. “Todos os equipamentos estão ligados a uma central na Dinamarca, que os monitoriza 24 horas por dia”, diz Vladimiro Silva, referindo-se ao Embryoscope. Além disso, como os embriões não precisam de ser retirados da incubadora durante cerca de cinco dias (desde a fecundação até à preparação da implantação), não são expostos a factores de stress no exterior nem há alterações no interior da incubadora resultantes das constantes aberturas.

Cada um dos embriões de cada casal é colocado num dos 12 pequenos “poços” de uma placa, embebidos num meio de cultura apropriado. Os espaços, no Embryoscope, onde se colocam estas placas são pequenos e o seu ambiente mais fácil de controlar. Para retirar as placas para o exterior, tudo é feito através de um processo mecânico, sem necessidade de um operador abrir a incubadora e colocar lá dentro as mãos.

Cada Embryoscope pode manter 72 embriões em simultâneo, pertencentes a seis casos (seis casais com 12 embriões de cada um). O custo de cada técnica de procriação medicamente assistida pode variar entre os 3400 e os 4200 euros, a que acrescem 350 euros para quem desejar a utilização do Embryoscope. Estes valores são cerca de três vezes inferiores aos praticados nos Estados Unidos.

Neste momento, não há outra incubadora no mercado com as características desta, criada pela empresa dinamarquesa Unisense Fertilitech, e que custa mais de 100 mil euros. Mas Vladimiro Silva já testou um outro sistema (o Primo Vision) desenvolvido por uma empresa húngara: neste caso, o microscópio está dentro de uma incubadora tradicional. Apesar de ter um custo menor, o embriologista português diz que a qualidade da imagem não é tão boa e só permite fotografias num plano.

Embora o objectivo do Embryoscope seja aumentar as taxas de sucesso, nos casos em que os espermatozóides e os ovócitos não têm qualidade suficiente ou os embriões não conseguem desenvolver-se, o novo embrioscópio nada pode fazer. “Claro que não há milagres”, diz Vladimiro Silva, acrescentando que não conhece, até ao momento, riscos do uso do Embryoscope ou situações em que os seus resultados tenham sido piores do que os das tecnologias tradicionais.