Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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Os doutores que querem ser advogados

Um dia, quando tiver filhos, vou-lhes dizer para não irem para Direito

Tirar um curso de cinco anos, numa faculdade que até é muito boa, onde há alunos brilhantes ensinados por excelentes professores, às vezes, não chega.

Ler dezenas de livros, códigos e sebentas, conhecer todas as áreas do Direito e ainda mais algumas, estudar “os direitos” da actualidade e do passado, e ainda os “direitos comparados” também pode não chegar.

A minha geração teve (tem) azar na altura em que acaba por entrar no “mercado de trabalho”: estava a começar a “crise”, aquela que dura até hoje. Mas a culpa de tudo aquilo por que passamos não foi só da crise, mas de todo um sistema que está errado desde o inicio, ou seja, desde o ingresso na faculdade, mas isso é outra história.

Para quem quer ser advogado, a inscrição na Ordem é uma excitação de um novo mundo. Trabalhar num escritório de advogados, comprar a toga, assistir aos julgamentos, acompanhar processos do inicio ao fim, participar nas reuniões. No meu caso tive ainda o melhor patrono que podia ter tido.

Mas este “estágio na Ordem dos Advogados” é diferente dos das “outras” Ordens. Para além de durar três anos, ainda temos aulas sobre quase todas as cadeiras que já fizemos na faculdade. E depois há os exames sobre essas mesmas cadeiras, como se os cinco anos que estudámos não fossem suficientes. Para se concluir o estágio, repetimos os exames (novamente sobre aquelas cadeiras que já tivemos na faculdade, e depois na Ordem, e passámos), mas nesta segunda ronda o exame dura um dia inteiro.

Pelo meio, ainda é comum fazerem-se mestrados e pós-graduações, pois achamos que precisamos de (continuar?!) a investir no futuro.

Estagiários a custo zero

Este estágio, que infelizmente serve a muitas (não todas!!) sociedades de advogados para, durante três anos, terem estagiários a custo zero, com a desculpa de que os estagiários é que têm a “sorte” de ter um estágio e um patrono, não sabem nada e vão aprender tudo (mais uma vez). E este hábito está tão enraizado (principalmente no Norte do País) que as pessoas até acham normal. Mas não é, como não é justo, nem correcto, nem humano.

E, mais uma vez, os estagiários acreditam que estão a fazer (mais) um investimento no futuro. O pensamento de que é melhor ganhar experiência do que ficar em casa sentado no sofá, (mesmo que isso não valha de nada no futuro), acaba por “acomodar” estagiários e patronos.

E depois o estágio acaba (três longos anos depois) e o estagiário vai embora porque não tem lugar (até porque o trabalho dele passará a ser feito por um novo estagiário que depressa aprenderá) ou é “convidado” a ficar por 500 euros ou 700 euros (vezes 12) a recibos verdes. Que país é este? Que condições são estas? Afinal estudar não compensa.

E emigrar para estes doutores nem sempre é solução, há limitações de exercício da profissão, o que implica muitas vezes trabalhar numa área para a qual não estudaram nem têm experiência, portanto, arranjar emprego também pode não ser fácil.

E todos aqueles investimentos (para se ser advogado) não deram um único fruto, (havendo naturalmente felizes excepções).

Ser doutor nem sempre é uma boa opção. Um dia, quando tiver filhos, vou-lhes dizer para não irem para Direito.