Apelo para a Europa acabar com os paraísos fiscais

Soares critica Merkel pela “decadência” da Europa

Soares diz que a Europa tem de "meter as agências de rating na ordem"
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Soares diz que a Europa tem de "meter as agências de rating na ordem" Miguel Manso

O antigo Presidente da República Mário Soares responsabilizou hoje a chanceler alemã, Angela Merkel, pela decadência da Europa e sugeriu um papel interventivo do Banco Central Europeu (BCE) na resolução da crise, através da emissão de moeda.

“A Europa deixou de ter líderes”, disse Mário Soares, sustentando que Angela Merkel “é uma pessoa que tem grandes responsabilidades na decadência da Europa” e na situação de crise vivida em Atenas.

“Ela entendeu que [a Grécia] era um pequeno país e que os gregos eram uns preguiçosos”, explicou Mário Soares numa Oração de Sapiência no Instituto Politécnico de Leiria, recordando – como já o tem feito – que a Grécia “foi o berço da nossa civilização”. Criticou o “atrevimento” da chanceler alemã, “uma senhora” que, disse, “vem da Alemanha do Leste e de um país que provocou duas guerras mundiais”.

Soares, que foi também deputado europeu, considerou que ninguém pode ter certezas sobre o futuro da Europa, mas sugeriu que alguns dos problemas ficariam resolvidos se o BCE passasse a emitir moeda. “O dinheiro circulava e não havia problema nenhum”, reforçou.

Com a pressão dos mercados a ir além da periferia da zona euro, crescem as divergências entre França e Alemanha sobre qual o papel do BCE na resolução da crise. De um lado, Paris mostra-se a favor da intervenção da autoridade monetária através da compra de dívida pública para estancar a especulação dos mercados, mas, do outro, está Berlim, que discorda da ideia de o BCE ser o credor de ultima instância da zona euro.

Soares fez ainda referência a dois temas que têm marcado o debate europeu sobre o quadro global de resposta à crise. “Os europeus vão ser obrigados a meter as agências de rating na ordem e a acabarem com a ladroagem dos paraísos fiscais”, considerou. Durão Barroso tem em mãos um projecto para uma regulação mais forte das agências de notação financeira cuja aprovação está agora dependente dos Governos europeus e do Parlamento Europeu.

No caso do combate aos paraísos fiscais, esse tem sido uma das bandeiras políticas que o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, elegeu para a presidência do G20 este ano. Na última reunião de Cannes, prometeu banir da comunidade internacional os países que acolhem paraísos fiscais, através da denúncia daqueles que não abandonem “um comportamento inadmissível”.