Livro lança polémica

Rivalidade entre cientistas marca aniversário da sequenciação do genoma

As críticas do britânico John Sulston à mistura do comércio e da ciência enfurecem o norte-americano Craig Venter
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As críticas do britânico John Sulston à mistura do comércio e da ciência enfurecem o norte-americano Craig Venter DR

Há um ano, os cientistas enterravam as suas rivalidades para anunciar ao mundo a publicação da sequência dos três mil milhões de pares de bases químicas que compõem o genoma humano. A empresa norte-americana Celera Genomics e o consórcio público internacional de investigadores financiados com dinheiros públicos uniram-se em Washington, a 12 de Fevereiro, para anunciar o início de uma nova era Mas esta paz foi sol de pouca dura: um ano depois, as rivalidades voltaram à ribalta, desta feita com a publicação do livro "The Common Thread", um relato muito pessoal do projecto do genoma humano feito pelo cientista que liderou os esforços de sequenciação no Reino Unido, John Sulston.

Craig Venter, que até 22 de Janeiro presidia à empresa Celera, tinha sido até convidado por um "site" britânico de notícias sobre ciência, o BioMedNet, para comentar o livro de Sulston, numa sessão que se realiza esta quinta-feira, em Londres, na Royal Institution. Mas Sulston, que teve o apoio da jornalista de ciência Georgina Ferry, repete neste livro a sua defesa da ciência como bem público, que não pode ser patenteável nem propriedade de ninguém, atacando os cientistas e as empresas que exploram comercialmente as suas descobertas - usando termos pouco simpáticos para falar dos que o fazem, como é seu hábito.

Para Sulston, a genética hoje em dia é uma espécie de cruzamento entre um circo de três pistas, projectos megalómanos e um desafio à democracia, escreve Tim Radford, editor de ciência do diário britânico "The Guardian".

Sulston salienta que continua praticamente tudo por fazer - ainda mal começámos a decifrar o código genético, depois de o sequenciarmos. "Uma das analogias que me parece mais interessante é a de que o genoma é um hieróglifo. Até agora, apenas conseguimos desenterrá-lo, e sacudir-lhe a areia de cima. Ainda temos que aprender quase tudo sobre ele."

Mas, para avançar nessa descoberta, o caminho está minado, afirma Sulston, num outro trecho do livro citado pelo "The Guardian": "É um truismo dizer que o ritmo das descobertas é cada vez mais acelerado, o que eu acho que é verdade. Mas penso que temos de ter mecanismos decentes para lidar com isto. Estamos a prestar demasiada atenção às forças do mercado. O que está a acontecer é que a utilização das descobertas está a ser feita levando em conta apenas considerações financeiras, quando devíamos estar a injectar-lhe cada vez mais democracia e ética."

Ora Craig Venter sempre foi um dos alvos preferidos destas críticas de Sulston à mistura da ciência com as finanças: Venter presidia a uma empresa que entrou em competição directa com o consórcio público para a sequenciação do genoma, e que nunca escondeu a intenção de cobrar pelos seus dados de sequenciação. Aliás, a Celera está a dar um passo em frente, para se transformar numa empresa cujo negócio é o de desenvolver medicamentos com base na genética - foi precisamente porque a empresa está a mudar de rumo que Venter foi afastado da presidência.

Com este livro, no qual Sulston põe preto no branco as suas críticas à exploração comercial do genoma, Venter sentiu-se mais uma vez incomodado. Até porque o cientista britânico, que foi tornado nobre pela rainha Isabel II no ano passado, continua a atacar ferozmente a mistura do dinheiro com a ciência: "O problema é que quando se entra para o conselho de administração de uma empresa, deixa de haver escolha. A empresa tem accionistas. O que acontece é que tem de se deixar os princípios à porta do conselho de administração", escreve Sulston.

Para Venter, foi demais. Nem sequer aceitou o convite para comentar o livro de Sulston. "O Dr. Venter teve finalmente tempo para ler o livro, e como suspeitava (embora tivesse a esperança de que assim não fosse), a obra concentra-se nos mesmos argumentos mesquinhos que inquinaram todo o processo de sequenciação do genoma humano", afirmou Heather Kowalski, porta-voz da Celera Genomics, em resposta ao convite do "site" BioMedNet.

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