Silva Lopes: “Extorsão é o rendimento que atribuíram a Filipe Pinhal”

Economista e antigo ministro das Finanças a favor de "grandes cortes nas pensões", mas não acredita na luz verde do Tribunal Constitucional.

Filipe Pinhal queixou-se do corte na sua pensão Ricardo Brito

O economista José Silva Lopes concorda com cortes nas reformas mais elevadas e refere-se ao valor da pensão do ex-presidente do BCP Filipe Pinhal como “uma extorsão”.

Filipe Pinhal apresentou na semana passada o Movimento dos Reformados Indignados, dizendo que a sua pensão vai ter um corte de 90%, o que classificou como “extorsão”. Pinhal não disse quanto recebia nem quanto vai ficar a receber, mas foi avançado que receberia cerca de 70 mil euros por mês e que com os cortes passaria para 14 mil euros.

Agora, o antigo ministro das Finanças Silva Lopes, numa entrevista ao Dinheiro Vivo, da TSF e Diário de Notícias, usou de novo a palavra “extorsão” mas para se referir ao valor auferido pelo antigo dirigente do BCP: “Quando se atribui a um tipo um rendimento de 20 ou 25 mil euros num país onde há gente que tem reformas de 400 euros, isso não é extorsão? Claro que é extorsão. Eu sou ferozmente contra essa coisa e contra o meu próprio interesse. Sou a favor de grandes cortes nas pensões”.

Silva Lopes reforçou que se deve “cortar mesmo muito” nas pensões mais elevadas. “E, contra o meu próprio interesse, gostaria muito que o Tribunal Constitucional aprovasse estes cortes”, insistiu, dizendo que não acredita que tal venha a acontecer. O também governador do Banco de Portugal entre 1975 e 1980 afirmou que “a austeridade tem custos terríveis, como o desemprego”, mas que neste momento o país só tem outra saída se conseguir mais empréstimos ou aumentar as exportações. “O problema é que o país tem, neste momento, para gastar quase 20% menos do que tinha em 2008, antes de começar a crise. Hoje produzimos 8% menos do que produzíamos nessa altura, pagamos mais juros ao estrangeiro das dívidas que acumulámos”, justificou.

“O que se passa em Portugal depende mais da senhora Merkel”
Confessando que não é “grande entusiasta das políticas do Governo”, Silva Lopes disse que “o que se passa em Portugal depende mais da senhora Merkel do que do doutor Passos Coelho”. E acrescentou: “Neste momento, não temos instrumentos nem capacidade para, sozinhos, traçarmos o nosso destino. Infelizmente o nosso destino é hoje traçado na União Europeia, na Alemanha - a senhora Merkel é que decide se nos empresta mais dinheiro e se impulsiona ou não as nossas exportações. Uma coisa trágica é que os alemães, os holandeses, os finlandeses, em vez de estarem a expandir as suas economias - têm espaço para o fazer -, estão também a apertá-las.”.

Questionado na mesma entrevista ao Dinheiro Vivo sobre o regresso de Portugal aos mercados, Silva Lopes, que trabalhou para o FMI e Banco Mundial, disse ser “céptico”, sublinhando que algum do financiamento só está a ser obtido devido às garantias dadas pelo Banco Central Europeu aos investidores. Como receita voltada para o futuro, apresenta a aposta nas exportações, dizendo-se contra algumas políticas restritivas da Europa.

Quanto às declarações do Presidente da República, Cavaco Silva, sobre a “espiral recessiva” no país, Silva Lopes disse estar de acordo. “A teoria dos economistas ultraconservadores, que diz que quando se corta na despesa e se baixa o défice se inspira confiança nos mercados e os mercados investem mais, isso é fantasia, é um raciocínio fantasma, não está provado em parte alguma. O que está provado é que cortar nas despesas ou aumentar os impostos provoca recessão”, alertou, ressalvando que o actual estado do país é culpa de todos e não apenas dos políticos.

Sobre os cortes de quatro mil milhões de euros inseridos na reforma do Estado, o economista admite que é preciso cautela mas defende que “não haverá maneira de fazer cortes sem ser nos salários ou nas remunerações sociais”, pelo que não é muito “entusiasta” deste caminho.

Questionado sobre os actuais números do desemprego e algumas ideias que começam a surgir de colocar os desempregados a limpar matas ou em obras, Silva Lopes disse peremptoriamente que “isso não é solução”. E justificou: “Se pudesse aliviar as dificuldades de muitos desempregados. Se essa for a forma de um engenheiro temporariamente diminuir as suas dificuldades, porque não?! Acho que um programa desses devia ser ensaiado, mas numa base puramente voluntária. Um indivíduo está desempregado, tem direito ao subsídio de desemprego, mas se optar por uma coisa dessas pode receber mais qualquer coisa do que o subsídio de desemprego”. 

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