Sexo com o iPhone

O sexo, aqui e agora. E o iPhone. “Mates”, de António da Silva, é uma espécie de GPS do desejo nos dias de hoje. Em cinco minutos. Sexualmente explícito e singularmente contraditório: tomado pelo êxtase dos corpos, ameaçado pelo abandono auto-reflexivo.

Ele diz que foi uma "residência artística de si próprio". É uma forma distanciada de nomear o que, em conversa anterior, saiu mais íntimo: "it was a sad story". Terá começado assim, que é como muitas vezes começam umas histórias: quando outras acabam. Uma relação terminou, e António da Silva correu entre as portas que se abriram. De casa em casa, de corpo em corpo, sem residência permanente.

-"hi mate"

-"hi"

-"how's u"

-"good u?"

-"horny"

-"yea, me too"

-"pix?"

"Nunca tinha experimentado essa coisa do ‘online flirting'", diz. "Nunca tive, sequer, um perfil ‘online'. Foi o Grindr [aplicação no iPhone que utiliza tecnologia GPS, permitindo o "dating" com quem utilize essa tecnologia]... Essa coisa hedonista do ‘já' e ‘agora'... de conhecer alguém, e concluir algo sobre essa pessoa em dez minutos... muito rápido a aparecer, muito rápido a desaparecer também ... isto é normal no meio ‘gay', para mim era novo."

António da Silva começou, então, "a documentar" esse "despejar de energia", essa "busca pessoal" (a "sad story" de que falava, sem moralismos). Começou a filmar, portanto, e descobriu com surpresa que "as pessoas se expõem facilmente. O apontar da câmara não foi problema e o facto de existir uma câmara passou a ser, até, em muitos casos, motivo para o encontro" com outros rapazes - ou seja, tudo se começou a misturar, o pessoal e o profissional, conflito e contradição que adensam um filme chamado "Mates".

Quando, daqui a cem anos, alguém tombar nos cinco minutos de "Mates" (exibido no QueerLisboa, na secção Queer Art), vai encontrar vestígios do que nós fomos nestes encontros sexuais de António da Silva em casas de Londres - cidade onde vive. A relevância ou a exemplaridade sociológicas são um "era uma vez..." sedutor. Mas há mais do que isso: interessa-nos nesta espécie de porno - sem rostos, só pedaços de corpos, e o sexo, roubado à realidade ou recriado, está explícito (enquanto um casamento real britânico é transmitido nos ecrãs da televisão) - qualquer coisa a que poderemos chamar "nostalgia": a consciência de uma impossibilidade de biografia, já que se todos os corpos se equivalem, ninguém, nem o realizador de "Mates", pode alguma vez nomeá-los como seu património. É o domínio da pura energia física, aqui despejada. "Mates" é tomado pelo êxtase, depois pelo abandono, está montado como um corpo a pulsar, como o túnel mental e físico do acto sexual.

Faz sentido seguir um "link" com anteriores trabalhos deste realizador de 34 anos, os filmes que fez quando não usou o pseudónimo António da Silva. (Apesar do nome que inventou para este filme de exposição, dados de uma biografia real: disléxico, na escola percebeu a sua relação com o desenho e com as disciplinas artísticas, o que se concretizaria num percurso que surgiu associado ao "design" de som em trabalhos com coreógrafos portugueses e que, materializando o desejo de controlo e de manipulação, de "usar vários sentidos, a visão, a audição o tacto e o paladar" - e foi isso o que fez em "Mates" -, se aproximou entretanto da imagem.) O "link", então, com uma série de curtas, algumas delas premiadas em festivais como Temps D'Images e prémio FNAC Novo Talento no IndieLisboa (em 2008, por exemplo): contam outras histórias mas na verdade a mesma história, a conquista do espaço por um corpo. E são todos filmes que se fazem à imagem desse corpo. Há exuberância olímpica, felicidade, superação. Mesmo se "Mates", porno auto-reflexivo para os dias de hoje, está tintado por um sentimento de perda.

O que vê ele quando vê "Mates" e se vê em "Mates"? "Recordo uma fase destabilizada da minha vida. Tive muitos conflitos, ainda não sei o que vejo ali. Há aqueles filmes que nascem de períodos bons e menos bons, de momentos nossos de insegurança. Este é um deles, e isso é sempre um potencial..." "Mates", diz, é um "filme de Inverno" - e faz sentido não tomar só à letra a expressão, é verdade que fica uma sensação de esfriamento. Foi filmado entre Novembro de 2010 e Março de 2011. A fase de montagem, que durou dois meses, foi também aquela em que António da Silva começou a distanciar-se do seu material. "Isso demora a acontecer", diz, "talvez hoje comece já a deixar de me associar com aqueles momentos e com aquelas pessoas e a ver ali qualquer coisa de mais universal".

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