"Só me interessa a arte emocional, a única que resiste ao tempo"

Brian de Palma define-se como herdeiro do tempo em que os filmes ainda eram "grandes". Retrospectiva do realizador no Lisbon & Estoril Film Festival

De sexta-feira, no Lisbon & Estoril Film Festival, e até dia 17 poderemos seguir uma retrospectiva do realizador norte-americano Brian de Palma, membro de uma geração que alterou as regras do jogo do cinema dos anos 70. Entre eles: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, ou William Friedkin, cineastas inspirados pelas nova vagas europeias e que viviam na ebulição de um país mergulhado numa guerra que matava a sua juventude (o Vietname).

Brian de Palma estudou para não ser chamado para a tropa e refugiou-se na cinefilia. Esse cocktail leva-o a realizar as suas primeiras obras (inspiradas pelas de Godard): Greetings (1968; dia 10, Monumental) e Hi, Mom! (1970; dia 11, Casino Estoril; dia 13, Monumental), talvez as mais políticas de todo o grupo que seria depois chamado, por sua vez, a uma outra "tropa" - Hollywood. Brian de Palma explica ao PÚBLICO: "A guerra do Vietname e o assassinato de Kennedy tornaram-nos conscientes de que o governo estava a enganar-nos. Quando percebemos que nos mentiram sobre a guerra, e quando vimos que o governo estava a fazer a sua defesa do assassinato de Kennedy, nada disso fazia sentido aos nossos olhos. Para nós, que confiávamos nos nossos líderes políticos, isso foi uma revelação. Hoje, obviamente, duvidamos de tudo o que nos dizem."

Duvidar do que nos dizem como duvidar do que vemos: essa tornou-se numa das matrizes do cinema de Brian de Palma. Ainda recentemente procurou desfazer os vários ângulos de um assassinato misterioso (Snake Eyes, 1998; dia 17, Monumental) ou da cobertura mediática de uma guerra (Redacted, 2007; dia 12, 14h). "No Iraque, estávamos a cair, de novo, na mentira de uma guerra, e mandámos para lá miúdos sem defesa para lutar por uma coisa de que não faziam ideia o que era. Tiveram experiências horríveis e reagiram a isso também de forma terrível."

Mas, mais do que com a sociedade, a relação de "engano" que o realizador tenta estabelecer é, em primeiro lugar, com a percepção do espectador. "O cinema pode ser a arte do engano. É possível criar filmes que enganem o público e mintam com as imagens, e há elementos disso no meu cinema."

Algo já exposto nos seus inícios, como no documentário The Responsive Eye (sobre a reacção de visitantes a uma exposição de Op art, 1966; dia 10, Casa das Histórias; dia 11, Monumental), mas soberbamente desenvolvido na ficção por obras como Blow Out (1981; um técnico de som obcecado com o grito de uma morte desconhecida; dia 11, Casino Estoril; dia 13, Monumental) ou Vestida para Matar (1980; dia 11, Centro de Congressos do Estoril; dia 12, Monumental), realizado sob a influência de Hitchcock. Este terá sido dos cineastas mais influentes na sua carreira, ou um dos que melhor lhe terá mostrado a maneira de aprisionar o espectador - pelo medo.

The pictures got small

"Muitas das imagens desenvolvidas nos filmes são inspiradas pelo próprio material com que trabalhamos, mas a vantagem dos filmes de terror e suspense está no facto de assentarem numa linguagem visual específica", explica. Um movimento próprio do cinema - operático e grandioso em De Palma - que permite agarrar-se ao subconsciente de quem o vê (o ponto alto é a obra-prima Carrie de 1976; dia 9, Casino Estoril; dia 15, Monumental). "O voyeurismo é um elemento básico do cinema. É intrínseco à arte, porque o cinema tem a ver com observar uma acção: estamos a apontar uma câmara para uma pessoa que faz de conta que não tem uma lente apontada a ela."

À semelhança dos colegas de geração, reconhece uma linhagem na história do cinema e aplica-a dentro do seu trabalho. "Há uma imensa fonte de filmes no passado que serve para vermos como evoluiu a maneira de se contar uma história de forma visual, algo que já vem desde o mudo. Vimos o que aconteceu quando o som entrou e tornou os filmes em formas estáticas, o que se agravou com a televisão."

Criar para cinema, portanto, continua a ser um formato de características invioláveis - para De Palma, esta ideia traduz-se em filmes marcadamente estilizados. "A beleza é uma ideia importante para mim, e não existe beleza suficiente no cinema, porque ela custa muito dinheiro aos estúdios." Foi essa ideia de "beleza", não necessariamente consensual, que encontrou sempre resistências. "Fazer Scarface [1983; dia 10, Casino Estoril] foi uma luta terrível. Os estúdios diziam que era demasiado violento, tinham imenso medo do filme [sobre o império de um mafioso cubano que se inspira no "sonho americano"]. Vamos sempre encontrar esse tipo de resistência na indústria e não acredito que isso tenha melhorado nas duas últimas décadas."

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