Que país andam os portugueses a filmar

Retrato dos filmes - e dos cineastas - da competição nacional do DocLisboa.

 Lisboa Domiciliária, Marta Pessoa

Tudo pode ter começado há mais de uma década, quando Marta Pessoa ia muitas vezes para o Bairro Alto durante o dia e começou a pensar naqueles prédios. Ou pode ter começado um pouco mais tarde, quando a avó de Marta, que sempre gostara muito de sair e passear, ficou doente e debilitada e deixou de poder sair de casa. "A minha avó já faleceu, mas podia ser uma destas mulheres", diz Marta, falando das mulheres (e um homem) que filmou em Lisboa Domiciliária.

Quando decidiu fazer o filme contactou as instituições que fazem apoio domiciliário a idosos que não podem sair das suas casas. Acompanhou os técnicos nas visitas e com eles subiu as escadas estreitas e íngremes dos prédios sem elevador dos bairros antigos de Lisboa. "As pessoas abriram-me a porta e receberam-me. Lá fui entrando e filmando".

Primeiro conversou muito com os idosos que "gostavam muito de ter companhia e de poder conversar". E depois começou a filmar deixando a cada um o espaço que ele próprio ia conquistando - há uma senhora que veste os melhores vestidos, põe discos em vinil no gira-discos, mostra antigas fotografias ("todos mortos, meu Deus, meu Deus") e canta; uma que passa a ferro e se preocupa com os gatos; outra que espera na cama a visita do médico; outra que almoça na mesa da cozinha a comida que aqueceu no microondas.

"Comecei com a ideia de fazer um filme mais social e político, de revolta", explica Marta, um filme sobre pessoas presas nas suas casas porque não têm um elevador. "Quando olhava para elas projectava-me no futuro". Mas com o tempo, Lisboa Domiciliária foi-se tornando muito mais um filme sobre aquelas pessoas. E "embora tenha um lado triste não é um filme triste". Não são histórias de pessoas que desistiram de viver. Pelo contrário. São histórias de pessoas com força de viver - só que têm que o fazer entre quatro paredes.

Bobby Cassidy - Counter Puncher, Bruno de Almeida

Em 2001 Bruno de Almeida, realizador de Bobby Cassidy - Counter Puncher, queria fazer um filme sobre boxeurs reformados - "os únicos desportistas na América que não têm qualquer apoio social, que são abandonados pelos managers e que criam nas várias cidades grupos para se apoiarem entre si". São homens - muitos deles com sequelas mentais devido aos anos de combates - "marginalizados, mas unidos por uma amizade extraordinária". Passou muitas horas nos clubes onde eles se encontram todas as semanas, recolheu muito material e, entre esses homens, conheceu Bobby Cassidy, boxeur com uma carreira de 18 anos e 80 combates, mas muito mais do que isso. Cassidy tinha uma trágica história pessoal, uma infância de violência e pobreza, uma raiva contra a mãe, uma frustração por nunca ter tido a oportunidade de combater pelo título mundial. Mas uma redenção: um enorme amor pelos dois filhos.

"Achei que a entrevista com ele era tão interessante que dava um documentário separado", conta Bruno. "Mas este é um filme sobre um pai mais do que qualquer outra coisa. O meu pai morreu este ano e esta foi uma maneira de fazer o luto".

Confessa que a ideia inicial era filmá-lo apenas a falar. "Ele é um grande contador de histórias e eu gosto muito de olhar para uma cara. A primeira versão do filme era só a cara dele". Mas depois Bruno viu as imagens dos combates e não resistiu a incluí-las, embora mantivesse a opção de não ter outras pessoas a falar sobre ele (à excepção de um dos filhos). Bobby Cassidy veio a Lisboa para assistir à estreia do filme no DocLisboa.

Com Que Voz, Nicholas Oulman

Nunca durante os 108 minutos de Com Que Voz nos é dito que o realizador, Nicholas Oulman, é filho do homem cuja história é contada neste filme: Alain Oulman, músico (compositor incontornável na carreira de Amália Rodrigues), perseguido pelo Estado Novo, exilado em França, editor (na Calmann-Lévy) de autores como Patricia Highsmith ou Amos Oz. "Foi uma escolha consciente", confirma Nicholas. "É óbvio que sendo filho do Alain houve muitas portas que se abriram, mas preferi tentar fazer um filme mais objectivo, para que não fosse só um filho a fazer um filme sobre o pai". Preocupava-o que o retrato feito no filme desse de Alain Oulman também o "lado humano". "Não queria que toda a gente o pusesse num pedestal, porque ninguém consegue ser perfeito. Ter a minha mãe [que se divorciou do pai] a falar dele foi uma forma de dar esse contraponto".

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