O que foi feito dos poetas revelados nos anos 80 pelos Anuários de Poesia da Assírio?

Trinta anos depois de ter lançado o primeiro Anuário de Poesia , a Assírio & Alvim vai relançar o projecto que revelou Adília Lopes. E muitos que não seriam poetas...

Não menos divertido mostrou-se o historiador de arte, e ex-director do Museu de Évora, Joaquim Caetano, que integra actualmente a equipa do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). “Não estou em condições de negar”, respondeu, quando lhe foi pedido que confirmasse ser ele o Joaquim Oliveira Caetano representado com vários poemas nos anuários de 1984 e 1985. De resto, a tratar-se de um homónimo nascido no mesmo ano, teria de ser uma sua desconhecida alma gémea, já que um dos poemas seleccionados para o Anuário de 1985 é uma homenagem ao S. Sebastião do pintor renascentista Gregório Lopes, obra conservada precisamente no MNAA.

Se vários autores representados nestes anuários publicaram depois livros de poesia, e alguns são hoje poetas conhecidos, são também muitos os que, como Pacheco Pereira e Joaquim Caetano, vieram a notabilizar-se noutros domínios. Por exemplo, o historiador, sociólogo e ex-secretário de Estado Adjunto e da Educação Jorge Pedreira. “Continuo a escrever poemas de vez em quando, mas não voltei a publicar”, diz. Está representado no Anuário de 1984 ao lado da sua irmã, a poeta e editora Maria do Rosário Pedreira, que usava na altura o pseudónimo Maria Helena Salgado, com o qual ainda venceu, em 1988, a primeira edição do prémio de poesia Sebastião da Gama.

A poetisa alentejana
Embora tenha vários livros de poesia publicados, também Américo Rodrigues, um dos poucos autores com poemas em todos os anuários, é hoje provavelmente menos conhecido como poeta do que enquanto encenador, actor, dramaturgo e ex-director do Teatro da Guarda. Recordando o entusiasmo com que, há 30 anos, se viu publicado no primeiro Anuário da Assírio & Alvim, confessa: “andei nos cafés a distribuir fotocópias”. Curiosamente, entre os que fazem o pleno dos quatro anuários há um outro encenador, João de Melo Alvim, que dirige hoje a companhia Chão de Oliva, em Sintra. E o dramaturgo e crítico Carlos Porto (1930-2008) colabora no de 1984.

Também a área das artes plásticas, entre artistas, críticos e curadores, não está mal representada. O ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo surge logo no Anuário de 1984, tal como o crítico de arte João Pinharanda ou o director do Museu de Arte Contemporânea do Funchal, José Manuel de Sainz-Trueva. Já o arquitecto e pintor Vasco Câmara Pestana, que publicará em 1988, o livro de poemas Cadernos do Interior, tem poemas  nos quatro anuários.

No domínio do cinema, é de presumir (mas não foi possível confirmar) que o Manuel Augusto F. de Los Mozos dos anuários de 1984 e 1985 seja o cineasta Manuel Mozos. E a Joana Pontes que participa no de 1984 é mesmo a realizadora homónima, autora de um filme sobre Jorge de Sena e de vários outros documentários. Surge no anuário como sendo de Porto Covo, porque “tinha lá um namorado na altura”, explica, e enviou de lá os poemas. O curioso é o que se passou a seguir, e que mostra bem o impacto que esta iniciativa da Assírio tinha na época: “Quando saiu o Anuário, o Diário do Alentejo publicou uma notícia a dizer que tinha surgido uma nova poetisa alentejana”.

O poeta, ensaísta, tradutor e cantor lírico Jorge Vaz de Carvalho ou a olissipógrafa Marina Tavares Dias são outras figuras públicas cujos poemas foram seleccionados para os anuários. Menos conhecido da generalidade dos portugueses, até porque trabalha em Bruxelas desde meados dos anos 80, Jorge Bento Silva, do Anuário de 1984, é um alto quadro comunitário que se vem dedicando há quase 30 anos a actividades bastante pouco líricas, relacionadas com a segurança interna e a luta contra o terrorismo.

Mas não se vá pensar que entre os quase 300 autores que os anuários divulgaram, havia de tudo menos futuros poetas. Com resultados naturalmente desiguais, quer na extensão das futuras bibliografias, quer no reconhecimento crítico que vieram a obter, há dezenas de poetas que passaram por estas antologias dos anos 80. E também alguns que, tendo publicado poesia, são mais conhecidos pelo que fizeram noutros géneros literários ou no ensaísmo, como o romancistas José Eduardo Agualusa, a pessoana Manuela Parreira da Silva, a ensaísta e tradutora Maria Teresa Dias Furtado, ou ainda o autor de literatura juvenil e crítico José António Gomes, que usa também o pseudónimo João Pedro Mésseder.

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