Entrevista publicada a 27 de Janeiro de 2005

Transformar uma geografia é a ambição de todos os arquitectos

Souto Moura recebeu duas vezes a maior distinção nacional na área da arquitectura Nelson Garrido/arquivo

O arquitecto Eduardo Souto Moura vai receber hoje do Presidente da República o Prémio Secil, atribuído ao Estádio Municipal de Braga. É a segunda vez que o recebe, um feito só repetido por Álvaro Siza Vieira: "É a confirmação, podiam ter-se enganado."

Estamos sobre uma das palas do Estádio Municipal de Braga, a 45 metros do chão. Uma funcionária do estádio abre um alçapão para descermos ao corredor técnico: é total a sensação de vertigem sem o betão da pala debaixo do pés. Mas os vestígios da pedreira original, onde o arquitecto Eduardo Souto Moura começou a escavar o estádio há quatro anos, ainda estão uns bons metros acima.

Olhamos para o granito mais negro e tentamos ver a Grécia Antiga ou as ruínas incas de Machu Pichu, no Peru, que o inspiraram. É sempre difícil chegar aos momentos fundadores, mas o resultado é considerado uma das obras-primas da arquitectura dos últimos anos.

No seu escritório junto à foz do Porto, Souto Moura conta a história desta arquitectura que teve a ambição de transformar a geografia dos arredores de Braga, numa entrevista feita a propósito do Prémio Secil de Arquitectura 2003, que hoje será entregue pelo Presidente da República, às 18h30, no Palácio de Xabregas, em Lisboa.

O prémio atribuído pela cimenteira tem o valor de 50 mil euros e é considerado a maior distinção nacional na área da arquitectura.

Quando chegou à pedreira, qual foi a primeira ideia que lhe ocorreu para fazer o estádio?
Quando subi ao cimo do monte para tirar fotografias à implantação original do estádio, vi aquela pedreira muito bonita e a paisagem com os montes ao fundo, que são os contrafortes do Gerês. O enquadramento parecia a Grécia - claro que mais estragado!
Equacionei e disse: "Se isto fosse por aqui abaixo, fazia-se um anfiteatro como os gregos."
Como não percebia nada de futebol e de estádios, achei que aquela pedreira dava os assentos para as pessoas.

Mas pensou mesmo em desenhar os assentos na pedra, escavá-los, como na Antiguidade Clássica?
Essa era a minha ideia. Cheguei a perguntar à Federação Internacional de Futebol (FIFA) e à União Europeia de Futebol (UEFA) se podia fazer bancos em pedra ou em betão. Eles disseram que podia, mas que a responsabilidade era minha se um dia alguém levantasse o assento e o atirasse a outra pessoa.

Quando é que desistiu? Logo?
Não. Desisti quando chegou o programa. Tinha a ideia ingénua de que um estádio é um rectângulo verde com pessoas sentadas a ver um jogo. Um estádio para um campeonato europeu tem que ter sala para 1200 jornalistas, restaurantes, sala VIP, bancada VIP, dezenas de quartos de banho e bares.
Percebi que o programa era muito complexo, uma máquina que tinha que funcionar, cheia de infra-estruturas. A partir daí a bancada veio à frente. Nesse intervalo, consegui meter os equipamentos todos. Mas foi o programa que me levou a dizer que não era viável.

Diz que o estádio explora a relação com o sítio, mas houve literalmente uma montanha de pedra que foi desfeita. O que quer do sítio: refazê-lo, torná-lo melhor?
Já estou como o Herberto Helder - a natureza nasceu para ser manipulada. Tudo depende do bom-senso. Vivemos numa época em que a natureza quase não existe. Noutro dia, fui à Andaluzia e fez-me impressão porque não há um metro quadrado natural -, a relva são culturas intensivas, o Guadalquivir foi transferido, etc. A natureza hoje vive numa manipulação.

É preciso refazer o sítio?
É. Muda a função, tem outra forma e a arquitectura intervém... O que deve acontecer é perceber-se o yang da natureza para depois o betão funcionar com o ying e fazerem um jogo complementar. Um não dominar o outro.

A arquitectura quer relacionar-se com o sítio, mas ficaram mais de um ano a tirar toneladas de pedra. Isso é um paradoxo?
Não. Pensei bastante nisso. Fui muito acusado. Chegou a ir à Assembleia da República, porque os Verdes levantaram a questão - "Cortaram a montanha, é uma ferida na paisagem!"
Toda aquela montanha de pedra foi demolida e serviu para fazer aquela montanha de betão. O betão, no fundo, é uma pedra artificial.

Uma das suas imagens de marca é o trabalho com a pedra. Tirou de lá toneladas de granito e depois construiu um estádio em betão. Parece uma coisa edipiana com a pedra.
Talvez. Não sei. Correu bem, mas foi muito complicado. Tinha que fazer o projecto em positivo e desenhar o negativo que era a escavação: dar informações para o terreno, porque a escavação foi feita com ângulos, que iam receber os tais andares para a TV, para os VIP, etc.. Passei um ano nisto. É mesmo meter as mãos no sítio.
Depois, houve um acidente: apareceu no meio só terra e a bancada teve que passar a ser muito menos vertical. A pedra depois foi segura com cabos.

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