Morreu o pintor Nadir Afonso, mestre da abstracção geométrica

O arquitecto e pintor Nadir Afonso morreu nesta quarta-feira aos 93 anos. Nadir Afonso estava internado no Hospital de Cascais.

Nadir Afonso, que foi um dos introdutores da abstracção geométrica em Portugal, pintou até ao final da sua vida.

“É um dos pioneiros da abstracção geométrica em Portugal, juntamente com Fernando Lanhas e Joaquim Rodrigo. Fazem parte da primeira geração que procurou resgatar no país um verdadeiro processo modernista que ficou sempre adiado depois da morte de Amadeo de Souza-Cardoso”, diz Pedro Lapa, director do Museu Berardo, em Lisboa.

Nadir Afonso morreu nesta quarta-feira, pouco depois de fazer 93 anos, no Hospital de Cascais, disse à agência Lusa a família.

Após ter vivido a infância em Chaves, onde nasceu a 4 de Dezembro de 1920, Nadir Afonso mudou-se para o Porto, onde foi estudar Arquitectura em 1938 na Escola de Belas-Artes. Estudou também em França, na Beaux-Arts de Paris, onde chega em 1946.

Foi da sua geração a figura que mais frutos colheu dos contactos com a vanguarda internacional: “Viveu em Paris. Trabalhou com Le Corbusier, foi colega do [compositor] Xenákis, que também foi arquitecto, foi amigo e colega de Vasarely. Também trabalhou com o Niemeyer em São Paulo. Expôs na Galeria Denise René, centro das vanguardas construtivistas do pós-guerra em Paris.”

À Lusa o pintor Júlio Pomar recordou o "mito" e o "homem-espectáculo" que conheceu nas Belas Artes do Porto. "[Nadir] era particular. Hoje com a banalização do 'personagem artístico' e das suas diferentes aplicações na sociedade contemporânea, tudo está mais classificável. Nós não nos admiramos com o fenómeno Joana Vasconcelos, por exemplo, mas admirávamo-nos com o fenómeno Nadir Afonso, nesses anos, em que durava a Segunda Guerra Mundial", afirmou Pomar, de 87 anos.

Em entrevista ao PÚBLICO, em 2009, Nadir Afonso diria: "Para compreender o mecanismo da criação é preciso ser muito inteligente, está muito bem... [esboça um sorriso mordaz]. Mas se o indivíduo não manipula as formas, se não dá prática efectiva ao pensamento, não consegue compreendê-la. A obra de arte é regida por leis que são apenas apreendidas pela intuição sensível e, isto é muito importante, só quem trabalha as formas, quem desenvolve a sua intuição perceptiva compreende o mecanismo da criação. A intuição desenvolve-se com o trabalho."

Foi depois do período brasileiro, entre 1952 e 1954, que Nadir Afonso decidiu abandonar definitivamente a arquitectura para se dedicar em exclusivo à pintura.

No período das décadas de 1940 e 1950, distante de Portugal, “realiza uma obra por vezes mal avaliada na extensão, complexidade e actualidade das suas propostas". "É ele que faz a primeira pintura cinética em Portugal”, continua Pedro Lapa, referindo-se ao objecto cinético Espacillimité (1956). Por último, Lapa refere os muitos livros que escreveu e publicou, “desenvolvendo uma actividade de teorização e reflexão ímpar no contexto dos artistas portugueses das sua geração”.

Na mesma entrevista ao PÚBLICO, em 2009, diria: "É claro que eu gostei do Brasil, mas para estar a trabalhar não me adaptava. De resto, eu tinha uma vontade de pintar... e como arquitecto isso não era possível. Para mim, era bom estar em Paris, mas a pintar. À medida que fui trabalhando cheguei à conclusão que já não era Paris, já não era Nova Iorque, podia muito bem ser Lisboa. Em Chaves podia fazer a minha obra. Quando entendi as leis da obra de arte, percebi que já não precisava de mais, comecei a sentir que essas leis são universais e que eu podia estar muito bem em qualquer lugar. Se tiver um metro quadrado de espaço para trabalhar, sou tão feliz como numa grande cidade. Comecei a sentir que a minha obra era cosmopolita, em qualquer parte se podia desenvolver."

Em 2010, quando o artista fez 90 anos, o Museu do Chiado, em parceria com o Museu Soares do Reis, dedicou a Nadir Afonso uma extensa exposição, intitulada Nadir Afonso. Sem Limites. Nela se reuniam cerca de 150 obras, especialmente da primeira metade do percurso do artista, entre 1930 e 1960. O desenho surgia como fio condutor de uma obra de "surpreendente contemporaneidade", escreveu na altura a comissária, Adelaide Ginga, que apontou em Nadir uma "estética fenomenológica de cariz humanista" cujos princípios pressupõem "a relação imutável das leis geométricas, leis universais que existem na natureza, indispensáveis ao alcance da harmonia, e a relação mutável das funções e necessidades que permitem o alcance da perfeição".

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