Israel acusado de detenções arbitrárias e tortura na Cisjordânia

Vídeos gravados pelos próprios soldados israelitas revelam violência e humilhações a que são sujeitos os detidos palestinianos.

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Exército israelita já fez várias incursões armadas em Jenin no último mês EPA/ALAA BADARNEH
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Mohammad, um homem palestiniano de 55 anos que reside na Cisjordânia, diz ter sido acordado por soldados israelitas a meio da noite. Juntamente com o filho, foi detido, amarrado nas mãos e nas pernas e vendado. “Bateram-nos e insultaram-nos. Atingiram-me com qualquer coisa que tinha electricidade, penso. Bateram-me na cabeça à esquerda e à direita e comecei a sangrar”, contou ao Haaretz.

O jornal israelita confirmou o relato ao ver os vídeos gravados pelos próprios soldados e divulgados nas redes sociais.

Enquanto as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) avançam em Gaza para decapitar a liderança do Hamas, sucedem-se os alertas de que está a aumentar a violência exercida por soldados israelitas sobre civis palestinianos na Cisjordânia ocupada.

A Amnistia Internacional denunciou esta semana que só este ano, até 1 de Novembro, mais de 2000 pessoas foram detidas sem que lhes fosse explicado o motivo. Israel invoca razões de segurança para as detenções, mas a organização de direitos humanos acusa o Estado hebraico de usar esse expediente “como um instrumento de perseguição aos palestinianos e não como uma medida preventiva extraordinária".

Ainda de acordo com a Amnistia, as detenções são frequentemente acompanhadas por ameaças, actos de tortura, humilhações e negação de defesa. Um homem, que pediu anonimato, contou à organização que foi sujeito “a espancamentos severos que o deixaram com nódoas negras e três costelas partidas”. Outra pessoa, Sanaa Salameh, mulher de um prisioneiro palestiniano que é doente terminal, queixa-se de não ter “absolutamente nenhum contacto” com o marido desde a sua detenção.

Os Médicos Sem Fronteiras também acusam as forças israelitas de torturar palestinianos. “Prestámos assistência a vários pacientes que exibiam sinais de terem sido amarrados e espancados, alegadamente por forças israelitas. Eles contaram ter sido torturados durante várias horas antes de serem deixados na fronteira da Cisjordânia”, disse um responsável dos MSF em Jenin, Yanis Anasnostou, citado em comunicado.

Além disso, a organização responsabiliza a tropa israelita pela morte de 165 pessoas, desde o dia do ataque do Hamas, em incursões armadas em todo o território da Cisjordânia. Um médico em Jenin, Pedro Serrano, relatou que “a maioria dos pacientes chega com lesões [que provocam] risco de vida".

Soldados filmam e divulgam

“Nas últimas quatro semanas, têm sido amplamente divulgados, na Internet, vídeos e imagens que mostram soldados israelitas a espancar e humilhar palestinianos enquanto estes permanecem de olhos vendados, despidos e com as mãos atadas”, escreve ainda a Amnistia.

O Haaretz analisou 15 vídeos feitos pelos próprios soldados e garante que a maioria foi gravada na Cisjordânia. Além do caso de Mohammad e do filho, mostram um homem com as calças puxadas para baixo, outros completamente nus a serem arrastados pelo chão, outros a serem agredidos e insultados, outros a serem obrigados a dançar, outros a serem instados a renegar o Hamas.

Os casos de militares que registam detenções, espancamentos e humilhações dos palestinianos nos seus telemóveis já existiam antes da actual guerra, mas o jornal diz que “aumentaram muito” no último mês.

Ao jornal, um porta-voz das IDF confirmou a veracidade de vários vídeos e adiantou que alguns dos soldados e comandantes envolvidos sofreram punições. “Os vídeos citados no artigo parecem mostrar que a conduta dos soldados para com os detidos palestinianos violou as regras das IDF”, disse o porta-voz. “As IDF levam este assunto a sério e cada caso é examinado e tratado”, acrescentou.

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