Pais, calma, os adolescentes também falam, só que pode ser à noite

Como é que, enquanto pais, os podemos ajudar a prevenir distúrbios de ansiedade, depressão e outras preocupações, se o nosso filho adolescente nos mantém à distância?

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"Deixe o seu adolescente aproximar-se, quando ele quiser" Karolina Grabowska/Pexels

Como psicóloga que se dedica a trabalhar com adolescentes e as suas famílias, e como mãe de adolescentes, tenho observado como os meus filhos se sentam silenciosamente durante o jantar, respondem a todas as perguntas que lhes são feitas, mas é ao final da noite que estão ansiosos por conversar.

Sei que isto não acontece apenas em minha casa. Estas imagens não lhe serão estranhas: quando eles estão encostados à porta do seu quarto, ou mesmo sentados na sua cama, e partilham livremente o que lhes vai na cabeça, numa altura em que os pais querem um tempo só para eles ou simplesmente adormecer. Mas por mais que possamos estar prontos para fechar os olhos e dormir até ao dia seguinte, há uma boa razão para arranjar tempo para a conversa rápida com os nossos adolescentes.

As fortes relações entre os adolescentes e os seus pais desempenham um papel importante na prevenção de preocupações significativas no que à sua saúde mental diz respeito. Mas, como quase qualquer pessoa que crie um adolescente pode atestar, nem sempre é fácil o diálogo. Tipicamente, os adolescentes tornam-se distantes, se não mesmo irritadiços, quando a proximidade infantil que partilhavam com os seus pais entra em conflito com o seu desejo de se tornarem cada vez mais independentes.

Infelizmente, esta expectativa — se bem que muitas vezes temporária — de desprendimento que caracteriza a adolescência emparelha-se mal com a actual crise de saúde mental na adolescência. Como é que, enquanto pais, os podemos ajudar a prevenir distúrbios de ansiedade, depressão e outras preocupações, se o nosso filho nos mantém à distância?

Aqui vai uma sugestão: deixe o seu adolescente aproximar-se, quando ele quiser.

Mas por que é que os miúdos estão prontos para falar, quando os pais estão prontos para dormir? Para os filhos, estas visitas nocturnas resolvem um verdadeiro dilema adolescente: podem satisfazer tanto o seu desejo de autonomia como o seu desejo diametralmente oposto de se ligarem a adultos de quem gostam.

Os adolescentes, por natureza, premeiam a autodeterminação.

Na minha clínica, os meus doentes adolescentes dizem-me que mesmo que estivessem, por iniciativa própria, prestes a limpar o seu quarto, recusar-se-ão a fazê-lo se um dos pais lho pedir. Na mesma linha, os adolescentes podem desdenhosamente ignorar as nossas perguntas sobre o seu dia, aquelas já conhecidas, “como foram as aulas? Correu bem o teste?”. Para eles estas pode assemelhar-se a ser convocado para uma reunião para a qual não têm agenda.

Ora, a ideia dos adolescentes é que são eles que decidem quando haverá “reunião” e quando é que esta terá início. Da mesma forma, determinam a agenda, sabendo por experiência que, no final do dia, é pouco provável que pais cansados introduzam novos tópicos. E, talvez o mais importante, são eles que têm o controlo de quando a reunião terminará — quando se aperceberem que os pais cansados e provavelmente estão prontos para ir dormir.

Então, como é que um pai cansado lida com isto? Para começar, tanto quanto possível, devemos acolher estas visitas nocturnas como oportunidades de ouro. Em vez de expulsarmos os adolescentes dos nossos quartos ou de os instarmos a ir directos ao assunto, deixemo-los dominar a conversa, orientando-a na direcção e esticando-a o quanto desejarem.

O que nos apresentam nestes momentos é quase de certeza o que mais lhes vai na mente. E mesmo que o que eles queiram falar pareça verdadeiramente trivial, compreendam que a própria conversa constitui o esforço deles para alimentar uma ligação connosco.

Além de deixarmos os nossos adolescentes fazer estes espectáculos nocturnos, podemos também — tenham paciência comigo — maximizar, em primeiro lugar, os factores que levam a estas visitas. Uma vez na cama, vamos tentar não dar a impressão de que somos inalcansáveis. Suspeito que é mais fácil para os adolescentes aproximarem-se de um dos pais que esteja a ler um livro ou a ver televisão do que de um que esteja ao telefone ou no computador.

Se está preocupado que o seu cansaço o faça esforçar-se para manter o diálogo, deixe-me dar-lhe um conselho: O seu adolescente pode estar a contar com isso. Os adolescentes dizem-me que muitas vezes preferem falar com os pais à noite, quando estes tendem a questionar menos e a ouvir mais.

Claro que nem todos os adolescentes passam pelos quartos dos seus progenitores quando querem criar uma ligação. Mas aprendi que os adolescentes tendem a ser mais inclinados a abrir-se quando podem estabelecer os termos do “namoro”. Na minha prática, ouço frequentemente os adolescentes dizerem que não estão prontos para falar quando os pais lhes fazem perguntas mal chegam das aulas, mas que, por vezes, atiram um tema para cima da mesa, mais ao fim da noite ou durante o fim-de-semana, esperando que os pais o apanhem.

Claro que mesmo os pais mais atentos podem não estar sempre disponíveis — e a nossa presença constante não é necessária, ou mesmo boa, para o desenvolvimento saudável dos nossos filhos. E nem todos os adolescentes têm pais com quem possam falar. Felizmente, as relações com professores, treinadores, mentores e outros adultos das suas vidas também podem ser consideradas como um longo caminho para apoiar o bem-estar dos mais novos e prevenir uma série de preocupações a nível comportamental e psicológico.

Como é que, exactamente, as fortes ligações com adultos atenciosos cultivam a saúde mental dos adolescentes? Falar de emoções indesejadas alivia o sofrimento psicológico; descrever o seu mundo interior a adultos de confiança pode ajudar os adolescentes a metabolizar humores ou experiências dolorosas. Também pode ser que falar com adultos ajude os adolescentes a resolver, ou a manter em perspectiva, problemas que de outra forma se agravariam.

Por si só, as relações saudáveis entre pais e filhos nem sempre são suficientes para prevenir ou tratar distúrbios psicológicos nos adolescentes. Mas para os adolescentes que já recebem cuidados de saúde mental, uma vida familiar de apoio contribui fortemente para resultados positivos.

Ao final do dia, os pais têm todos os motivos para estarem exaustos, e a perspectiva de uma visita tardia de um adolescente tagarela pode ser um pouco difícil de aceitar. Mas, quando estamos justamente a perder tanto sono por causa da crise da saúde mental dos adolescentes, podemos consolar-nos em saber que perder algum sono pode, por vezes, ser parte da solução.


Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
Tradução e adaptação: Bárbara Wong
Lisa Damour é psicóloga e autora dos títulos The Emotional Lives of Teenagers e Untangled, entre outros.

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