Taylor Swift: anti-heroína numa era de mártires

Num novo videoclipe, Taylor Swift sobe a uma balança que, em vez de mostrar a típica escala numérica, surpreende com a palavra “fat”. Como estamos em 2022, é claro que a cantora foi alvo de críticas.

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Reuters/MARK BLINCH

À hora que escrevo este texto, a Taylor Swift usurpou os primeiros dez lugares no top Hot 100 da Billboard, tornando-se a primeira artista no mundo a fazê-lo. Bom para ela. Não gosto particularmente da Taylor Swift, mas isso não interessa para nada. Não é por isso que escrevo este texto.

A façanha supramencionada veio no seguimento do lançamento do álbum Midnights, encabeçado pelo single Anti-hero que, por sua vez, veio acompanhado por um inócuo videoclipe, pelo menos à primeira vista. Longe estamos da época em que, para chocar, os videoclipes apenas tinham de recorrer à dita “blasfémia”, incorporando um Jesus negro com salpicos de sensualidade — como fez Madonna em Like a Prayer. Parece que, agora, é necessário que os artistas façam o horrendo, o medonho, o inimaginável: exprimir as suas emoções.

Numa das cenas deste videoclipe, Taylor Swift sobe a uma balança que, em vez de mostrar a típica escala numérica, surpreende com a palavra “fat” (gordo/a). Como estamos em 2022, é claro que a cantora foi alvo de críticas pelo uso indevido da palavra e rotulada até de gordofóbica. Se é pertinente que Taylor já tenha passado por transtornos alimentares e quisesse reflectir os seus sentimentos sobre os mesmos, espelhar a sua experiência e visão do mundo numa coisa outrora livre e pessoal chamada arte? Claro que não! O importante é evidenciar a inaceitabilidade de uma artista magra ter usado a palavra gorda.

Não me daria ao esforço de escrever este texto se, infelizmente, estas acusações não tivessem tido consequências reais: dias após o seu lançamento, o vídeo foi editado e relançado, censurando o plano com a palavra maldita. Há muito que se fala dos perigos da cancel culture, mas é sempre relevante questionar: para onde nos direccionamos, quando um artista compactua com exigências de um exacerbado politicamente corrceto? Poderá a arte ser um lugar seguro para a criação e desafogo de vivências se, a qualquer momento, a sociedade nos pode passar um marcador vermelho por cima e declarar-nos cancelados?

Não tenho respostas para todas as perguntas, mas de uma coisa tenho a certeza: se ensaboarmos e clarearmos a arte ao ponto que não é permitido ao artista mostrar as suas próprias trevas, muitos tópicos cruciais ficarão por abordar e não nos vamos permitir reflectir, dialogar e, fundamentalmente, crescer enquanto sociedade.

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