Esta Lisboa que nos une

Os apressados não reparam no luxo que é viver aqui, neste tempo, numa pacatez idiossincrática de uma capital europeia periférica

Foto
Guy Moll/Flickr

Diz-se que é cidade que está na moda, mas quem lê livros sobre ontem sabe que isto não é propriamente uma novidade. Lisboa sempre esteve na moda. Desde os tempos em que era Olisipo, estava predestinada a ser uma azáfama completa. E só quem nela vive (não que a habite, necessariamente) compreende o fascínio por este lufa-lufa. Não há cidade como esta, dirão, cheios de razão.

Passear por Lisboa sempre com as pessoas na linha do horizonte visual é uma experiência estranha. Acima de tudo, porque parecemos ser os únicos que prestam atenção aos seres que nos circundam. Esses, alheados e apressados, fitam o chão sobre o qual caminham como se esperassem que se tornasse em passadeira rolante, levando-os ao destino pretendido com uma avidez imprópria. Mal saberão eles, diremos nós, aquilo sobre o que caminham. Não reparam no luxo que é viver aqui, neste tempo, numa pacatez idiossincrática de uma capital europeia periférica.

Na verdade, debaixo do chão existe todo um mundo — e não falo da rede metropolitana, soterrada sob um silêncio sepulcral apesar do mar de gente que a recheia, sem palavras, aguardando que um bicho de metal a engula e regurgite noutra região da cidade. Debaixo do chão, existe o passado. Tapado, não o vemos e, por isso, mal dele nos recordamos. Escondidos atrás da cortina do tempo, somos invisuais guiados por vagos sinais sonoros que nos indicam os verdadeiros motivos pelos quais este ambiente é, na realidade, tão místico, tão próprio, tão nosso.

Com outra minúcia — ou guiados por quem conhece ao detalhe o que repousa debaixo da calçada — poderemos entrar numa máquina, plena de realismo mágico, e descobrir como éramos ontem, no século passado, no milénio que passou. Porque os antepassados falam, graças às pedras que nos deixaram pelo caminho, quais migalhas por trilhos acidentados na floresta escura. O passado é professor, mas nem todos o sabemos ouvir.

Algumas dessas lições foram recuperadas por Raquel Policarpo e Inês Ribeiro, imortalizadas no livro "Segredos de Lisboa", através das quais ganhamos um respeito diferente pelo chão em que assentamos as imundas (e quiçá metafóricas) solas dos nossos sapatos. Aprendemos que uma tampa de esgoto esconde surpreendentes imagens romanas e que uma casa de banho pode dar indicações espantosas sobre as paredes pré-terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco, apenas para dar uns míseros exemplos (que em nada fazem justiça ao deslumbramento causado por cada um dos pedaços de História ali presentes).

Não me canso de o dizer: só ao olharmos o passado conhecemos o caminho que seguimos e, consequentemente, sabemos o lugar para onde vamos, ou pretendemos ir. É a viagem que, no final de contas, nos definirá. O que dirão de nós os arqueólogos dentro de mil anos?

Sugerir correcção
Comentar