A vida de Jesus Cristo é uma aula sobre o presente

O resultado é que os anos vão passando e, de repente, já não sentimos nada, ou muito pouco, como se a culpa fosse da “história” de Jesus ser a mesma há dois mil anos e dos rituais idênticos.

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EDUARDO MOSER/SANDRADESIGN
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Querida Mãe,

Sabe como o tempo começa a passar mais rápido quando somos adultos? Parece que a Páscoa do ano passado foi ontem e já estamos “aqui” outra vez. Talvez seja porque não temos aqueles três meses de férias de verão que pareciam dividir o ano em dois. Ou, provavelmente, porque agora somos nós a organizar tudo e raramente temos oportunidade para nos deixarmos ir e aproveitar o momento.

Mas, seja por que razão for, a verdade é que torna muito mais difícil não encarar estas datas, apenas como “mais uma obrigação”, e há uma parte de nós, cansada, que pensa: “Que se lixe, para o ano dou mais atenção a isto... Para o ano é que convido a família toda, para o ano é que vou à vigília ou à missa.

O resultado é que os anos vão passando e, de repente, já não sentimos nada, ou muito pouco, como se a culpa fosse da “história” de Jesus ser a mesma há dois mil anos e dos rituais idênticos. Pois. Estava um bocadinho nessa, confesso, mas de repente lembrei-me que a vida de Jesus Cristo não é uma aula de História, uma biografia de uma vida passada, mas uma aula sobre o presente. É a relevância para o aqui e agora que importa.

Por isso posso não conseguir fazer uma caça aos ovos, posso não conseguir juntar a família toda, ou comprar guardanapos lindos com coelhinhos, mas está ao meu alcance ler a história de Jesus com fazemos com os bons livros: identificando-nos com o jovem injustamente acusado, mas que manteve a serenidade, e até a ironia e o sentido de humor. Com aquela mãe que assiste, impotente, ao sofrimento atroz do seu filho, mas que se deixa consolar.

Com a dor física de ser pregado a uma cruz. Com a dor emocional de sentir que Deus nos abandonou. Com o luto de perder um amigo. Com a dúvida e a hesitação sobre o que se passa depois da morte. Com a esperança de que o futuro traga coisas melhores. Com o medo de estarmos enganados. Com a certeza de que, ainda que não acreditemos num céu, temos já aqui na terra a oportunidade de ressuscitarmos como pessoas melhores.

Uma Santa Páscoa, querida mãe.


Querida Ana,

Obrigada pelo choque vitamínico da tua carta. Estou embrenhada em revisões de um livro, perdi a noção do tempo e das pessoas à minha volta, mas obrigaste-me a recentrar a cabeça durante uns minutos e estou-te grata por isso.

É tão fácil deixarmos que seja a ampulheta do tempo a comandar a nossa vida e não o contrário. Tão fácil invertermos as prioridades, na ânsia de atingir objetivos e pôr mais um tic na nossa infindável lista de coisas urgentes a cumprir.

E o que fica, muitas vezes, é o vazio. Por isso aceito o teu repto. Vamos lá ressuscitar, sem adiar para amanhã o que podemos ressuscitar ainda hoje.

Uma Santa Páscoa, querida filha.


O Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. E, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. As autoras escrevem segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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