Fraldas em vez de vestidos de noiva: costureiras de Gaza adaptam-se aos tempos de guerra

A escassez de fraldas terá feito subir o preço de um único pacote no mercado para cerca de 200 shekels (mais de 50 euros). “Diga-me: devemos comer ou comprar fraldas?”, diz um pai deslocado em Rafah.

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O atelier de costura em Gaza onde se estão a produzir fraldas EPA/HAITHAM IMAD
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Antes da guerra aqui produziam-se vestidos de noiva EPA/HAITHAM IMAD
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O atelier de costura em Gaza EPA/HAITHAM IMAD
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Atelier de costura em Gaza Reuters/IBRAHEEM ABU MUSTAFA
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Atelier de costura em Gaza Reuters/IBRAHEEM ABU MUSTAFA
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Atelier de costura em Gaza Reuters/IBRAHEEM ABU MUSTAFA
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Duas imagens de mulheres vestidas de noiva enchem a fachada de um atelier de costura em Rafah, mas lá dentro o cenário mudou. As costureiras deixaram de lado os enormes vestidos brancos para passarem a fabricar fraldas, uma das muitas necessidades que se tornaram impossíveis de encontrar em Gaza em tempo de guerra.

Com a maior parte dos 2,3 milhões de pessoas de Gaza deslocadas pela ofensiva militar de Israel, mais de metade das quais amontoadas na zona de Rafah, perto da fronteira com o Egipto, a escassez de fraldas está a tornar a vida dos bebés e dos seus pais ainda mais difícil. “Há 1,5 milhões de pessoas deslocadas na cidade de Rafah e não há fraldas”, relata Yasser Abu Gharara, proprietário do atelier de costura que actualmente fabrica fraldas.

A escassez de fraldas terá feito subir o preço de um único pacote no mercado para cerca de 200 shekels (51,12€), um preço exorbitante para as famílias que também lutam para conseguir alimentar-se. “Se os bancos estivessem abertos, seria necessário pedir um empréstimo para comprar fraldas “, lamenta o empresário, ao centro do atelier, enquanto uma fila de mulheres costura fraldas a todo o vapor nas máquinas.

Abu Gharara explica que estão a utilizar vestuário de protecção reciclado, que sobrou da pandemia de covid-19, como material para fazer as fraldas, e que espera conseguir ajudar as famílias que enfrentam condições difíceis. “Não estamos a falar apenas de fraldas para bebés, mas também para idosos e pessoas com deficiência”, lembra.

Para as pessoas deslocadas, que vivem em campos de refugiados, a escassez de fraldas tem vindo a agravar a luta diária para manter os bebés e as crianças limpos e secas. A mãe deslocada Inas Al-Masry — que tem um par de gémeos e uma filha mais velha a precisarem de fraldas — estava a usar o que parecia ser um par de calções minúsculos feitos do plástico rosa transparente de um saco de supermercado para proteger um dos seus bebés.

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HAITHAM IMAD/Reuters

Os calções de plástico estavam demasiado apertados e o bebé, deitado no chão dentro de uma tenda, chorou quando Al-Masry os puxou para cima. Disse que não tinha dinheiro para comprar fraldas a 180 ou 190 shekels (46 a 48,50 euros) por pacote, quando os seus gémeos iriam gastar um único pacote numa semana. “Depois dessa semana, como é que vou comprar outro pacote?”, questiona.

“Mesmo com o resguardo que ponho no bebé, tenho de o mudar todo no dia seguinte. Todos eles precisam de roupa, mas não há roupa disponível, não há cobertores disponíveis para as crianças. Não temos nada disponível. Nem sequer temos colchões, estamos em tendas na rua”, lamenta.

Hany Subh, um pai deslocado, disse que procurava fraldas no supermercado todos os dias, mas os preços são demasiado elevados. “Diga-me, devemos comer ou comprar fraldas?”

A guerra foi desencadeada por um ataque do Hamas ao Sul de Israel a 7 de Outubro, no qual pelo menos 1200 pessoas foram mortas e 253 foram feitas reféns, segundo Israel.

Jurando destruir o Hamas, Israel respondeu com um ataque aéreo e terrestre que matou, até agora, mais de 29 mil palestinianos e feriu mais de 69 mil, segundo as autoridades sanitárias de Gaza. A guerra reduziu grande parte do enclave a escombros e provocou aquilo a que a ONU designa de catástrofe humanitária.

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