O dia em que o BCE pode começar a discutir o corte de taxas

Ao contrário do que aconteceu em Dezembro, a reunião do BCE desta quinta-feira deverá servir para os responsáveis começarem a acertar quando é que se inicia a queda das taxas de juro na zona euro.

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Christine Lagarde, presidente do BCE, em Davos Reuters/DENIS BALIBOUSE
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Ninguém espera que um corte de taxas de juro saia da reunião desta quinta-feira do Banco Central Europeu (BCE). Mas existe a expectativa de que, com a taxa de inflação mais próxima dos 2% e a economia em risco de entrar em recessão técnica, os responsáveis pela condução da política monetária na zona euro dêem um sinal de que, finalmente, estão a começar a discutir entre si quando é que isso irá acontecer.

No final da última reunião, em Dezembro, depois de ter mantido a taxa de juro de depósito do BCE (a principal referência para os custos de financiamento na zona euro) em 4%, Christine Lagarde não quis deixar dúvidas. “Uma descida de taxas não foi sequer discutida”, disse.

Essa frase fez parte do esforço que a presidente do BCE tem vindo a fazer para arrefecer as expectativas ainda agora prevalecentes nos mercados financeiros de um primeiro corte de taxas de juro já durante a Primavera, seja na próxima reunião agendada para Março, seja na reunião seguinte em Abril.

Lagarde e vários outros membros do conselho do banco central temem que o facto de os investidores estarem à espera de reduções dos juros rápidas e significativas retire por si só o efeito limitador da inflação que o BCE ainda considera ser necessário nesta fase. E, por isso, procuram passar a mensagem de que existe neste momento um excesso de confiança nos mercados em relação à rapidez com que o BCE irá, com uma descida dos juros, dar por (quase) vencida a batalha contra a inflação.

Com o tempo, o discurso proveniente da liderança do BCE tem vindo a mudar. Em Davos, Lagarde, apesar de continuar a dizer que uma descida de juros em Março é um cenário irrealista, começou a pôr em cima da mesa outras datas alternativas para essa decisão. Para a presidente do BCE, apesar de tudo depender dos dados que entretanto venham a ser conhecidos, uma descida dos juros durante o Verão pode ser considerada uma hipótese “provável”.

Com esta afirmação, Lagarde abre definitivamente a porta a que, dentro do conselho de governadores do BCE, o principal tópico de discussão passe a ser, neste momento, a data da primeira descida de taxas de juro. E a verdade é que, nesse debate, aqueles que em Frankfurt defendem uma acção mais rápida ganharam, entre a reunião de Dezembro e a desta quinta-feira, mais argumentos.

Nas primeiras semanas deste ano, soube-se que, em Dezembro, a taxa de inflação na zona euro subiu de 2,4% para 2,9%. No entanto, este resultado era já amplamente esperado, devido aos efeitos de base da descida de preços dos combustíveis ocorrida há um ano, e aquilo que pode ser mais relevante é que a inflação subjacente na zona euro continuou a sua trajectória descendente, um sinal encorajador para a evolução futura dos preços.

Depois, continuaram a ser evidentes os sinais negativos dados pela economia da zona euro. Na Alemanha, as autoridades estatísticas anunciaram que o PIB caiu 0,3% no último trimestre de 2023 (e também no total do ano), salvando-se apenas de uma recessão técnica (dois trimestres consecutivos de variação negativa do PIB em cadeia) porque o resultado do terceiro trimestre foi revisto ligeiramente em alta para uma estagnação.

Entre os membros do conselho do BCE mais favoráveis a uma descida das taxas de juro pouco tardia, como o governador do Banco de Portugal, estes são sinais mais do que suficientes para que, no mínimo, o banco central comece a sinalizar aos mercados que a decisão está para breve. Depois de afirmar que o BCE “não tem de esperar até Maio para tomar decisões” em relação às taxas de juro, Mário Centeno disse em Davos, contrariando o discurso de alguns dos seus colegas, que o banco central tem de estar “preparado para discutir todos os temas”.

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