#ColocadoEmLadoNenhum

Os estudantes de Medicina são olhados como o bote salva-vidas do SNS. É esperado que concluamos o curso, escolhamos uma vaga para realizar a nossa especialidade médica e salvemos o SNS.

Foto
Megafone P3: #ColocadoEmLadoNenhum
Ouça este artigo
00:00
03:00

Várias notícias ecoam os títulos “Nunca houve tantos colocados em Medicina”, mas poucas reflectem sobre o peso que estas colocações têm nos actuais estudantes, nos médicos internos e no nosso SNS.

Quando entrei em Medicina fui movida pelo mítico sonho de querer deixar a marca por onde passo. Contudo, confesso que à medida que os semestres são concluídos e entro no mundo dos anos clínicos, cada vez mais vejo que será difícil ter um lugar digno para a deixar.

As Escolas Médicas estão sem condições para acolher mais alunos: anfiteatros cheios, rácio alunos-tutores desadequados, ausência de vagas de especialidade suficientes para os alunos de Medicina que terminam o curso e, mais do que tudo, falta de qualidade no ensino de médicos internos. Um caminho tortuoso a que o Governo tem tido o dom de atirar areia para olhos com a simples abertura de mais vagas no Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior.

Sim, há falta de médicos em Portugal. Mas não, aumentar estas vagas não é solução. Este é o lema que temos de repetir vezes sem conta, mas que parece que não chega até ao nosso Governo. Para haver médicos, tem de haver capacidade e qualidade de formação, algo que em Portugal está a deixar de existir.

Neste momento, os estudantes de Medicina são olhados como o bote salva-vidas do SNS. É esperado que concluamos o curso, escolhamos uma vaga para realizar a nossa especialidade médica e salvemos o SNS. Mas a verdade é que tudo o que estávamos à espera era conseguir concluir o curso, escolher uma vaga na especialidade que queremos e ter tutoria adequada à nossa formação.

Neste momento, cerca de 6500 médicos internos garantem que o SNS não colapse, já que muitas vezes substituem os médicos especialistas, mesmo sem a devida tutoria, e garantem os serviços mínimos.

Tudo isto levanta a reflexão: em 2020 tive a felicidade de escrever "Colocada em Medicina" nas redes sociais, mas em 2026/2027 o que irei escrever? Onde estarei a realizar o meu ano comum, a minha especialidade? Num hospital português sem tutores para a minha formação? Num SNS colapsado? Num hospital no qual terei a probabilidade de ser vista como mais uma para garantir a sobrevivência?

Dizem que quem corre por gosto não cansa, que com amor tudo se faz. E, sim, felizmente, ainda não perdi o brilho nos olhos por Medicina, mas confesso que é desgastante ver o fim do meu curso a aproximar-se e as incertezas e dúvidas daquilo que me espera.

Espero que, até lá, olhem para o #ColocadoEmMedicina e pensem nos jovens que transportam a ambição de salvar o SNS, mas também de terem uma formação digna. Que olhem para o #ColocadoEmMedicina e que estejam cientes e confiantes de que os espera uma Escola Médica com qualidade e capacidade para os acolher e, sobretudo, hospitais com um número adequado e realista de tutores prontos para lhes dar o acompanhamento que merecem. Que estejam preparados para acolher com a mesma felicidade um conjunto de jovens com ambições para o futuro e que garantam que o brilhozinho com que olharam para a colocação em Medicina não desapareça ao longo do curso e, mais do que tudo, até terminarem a sua formação de médicos especialistas.

Sugerir correcção
Ler 2 comentários