Pagaram milhares em propinas por aulas online. Desiludidos, levam universidade de Londres a tribunal

Para cinco mil alunos da universidade de Londres, pagar “valores astronómicos” por “aulas pré-gravadas” não era justo. Fizeram uma queixa de grupo para serem reembolsados — e foram a tribunal.

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Quando David Hamon decidiu fazer um mestrado, esperava que a vida de universitário fosse dividida entre aulas e conhecer pessoas que lhe poderiam abrir portas no mercado de trabalho. Foi assim durante a licenciatura em Filosofia, na Alemanha, e era com isso que estava a contar quando, em Outubro de 2020, se inscreveu no mestrado em Política Pública Internacional na University College London (UCL). No entanto, conta, o ano escolhido para se inscrever no curso não poderia ter sido pior — e ​a experiência também não.

David, 28 anos, começou o mestrado na universidade pública quando o Reino Unido (e o resto do mundo) estava em confinamento. E como o curso era só de um ano, acabou por ter aulas online até ao fim. “Honestamente, foi terrível pelo impacto que teve na minha saúde mental e a nível académico”, reflecte, em entrevista ao P3.

A rotina era o que mais lhe custava: durante meses, a vida resumia-se a estudar 12 horas por dia e a ler “centenas e centenas de páginas” para as aulas do dia seguinte. Não chegou a conhecer fisicamente os colegas de curso e não tinha confiança para falar sobre o que estava a acontecer. “Tudo isto criou uma enorme pressão que foi subindo cada vez mais. Estudar política internacional é trocar pontos de vista com pessoas de várias partes do mundo e aprendermos com elas. Isso foi substituído por montanhas de materiais e estarmos sozinhos num quarto”, adianta. Como pediu um empréstimo para estudar, já não podia desistir do curso e inscrever-se no ano seguinte.

Para David e outros cinco mil alunos da UCL, pagar “valores astronómicos de propinas” por um serviço online e “claramente inferior” não era justo. Por isso, o estudante decidiu escrever uma carta de protesto à universidade a pedir um reembolso parcial do dinheiro que investiu. Em resposta, diz, ouviu um “não”.

No entanto, a reclamação não ficou por ali e acabou por ser apenas o início de uma luta que pode, em último caso, ser resolvida na justiça britânica. A carta juntou-se a todas as outras queixas de alunos do The Student Group Claim, um movimento que surgiu em 2018 para protestar contra as constantes greves de professores em várias universidades do Reino Unido e, desde 2020, contra a alegada falta de qualidade das aulas online. Neste momento, o grupo conta com 140 mil estudantes de várias faculdades do Reino Unido que também querem ser reembolsados.

Joshua Battat, solicitador numa das duas firmas de advogados que representam os 140 mil estudantes, recebeu vários testemunhos de aulas online que não correram bem. Nos formulários que os estudantes preenchem a contar a experiência académica, há quem tenha pago para ouvir docentes a ler PowerPoints e casos de alunos de cursos práticos que tiveram acesso restrito ou limitado a laboratórios e outras infra-estruturas académicas importantes.

“Há claramente uma injustiça para com os alunos afectados pela pandemia”, defende, alegando que os estudantes têm hipótese de ganhar o caso e fazer da contestação “uma das maiores queixas de grupo no tribunal da história inglesa”.

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David Hamon começou a queixa contra a UCL David Hamon

Receber 260 euros ou nada

Daniel Amery, de Bristol, assinou a petição em 2021, quando estava no segundo ano da licenciatura de Direito. Reconhece que receber os 11 mil euros que pagou por cada ano “davam jeito” para pagar o empréstimo que pediu para estudar, mas o mais importante é fazer a UCL reconhecer que os alunos não estavam a receber os serviços educativos que lhes foram prometidos e falar sobre o ensino universitário no Reino Unido, diz. “Nenhuma universidade diz quantas horas de aulas vamos receber. Podemos pensar que vamos ter 35 horas por ano, mas se houver greve, dez dessas horas não são dadas, como aconteceu comigo”, explica.

À excepção dos seminários em que os alunos podiam intervir, as aulas eram todas pré-gravadas no Zoom, muitas delas apenas com áudio, e sem qualquer interacção entre alunos e professores, garante. “Foi muito difícil integrar-me e não senti que tivesse aprendido muito. Enquanto estudantes de Direito, parte do trabalho é conhecer outras pessoas para ter contactos e conseguirmos trabalhar em grandes empresas de advogados. Como grande parte do tempo estive fechado num quarto, não tive essa sorte.”

Além disto, Daniel pagava mais 12 mil euros por ano pelo quarto da residência onde estava, uma despesa que, diz, poderia não ter existido se a universidade de Londres não incentivasse os alunos deslocados e internacionais a continuar na cidade durante a quarentena, alegando que tudo iria voltar ao normal. Feitas as contas, estudar em Londres, a 200 quilómetros de casa, ficou por cerca de 69 mil euros.

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Daniel Amery estava a viver numa residência e a ter aulas online Daniel Amery

Yuxuan Ye, da China, e Zina Larbi, da Alemanha, também escolheram estudar na UCL para conhecerem novas pessoas, mas, em vez disso, acabaram por passar os anos de 2020 e 2021 num quarto e a conhecerem os colegas através de janelas do Zoom.

Yuxuan, que foi da turma de Daniel Amery, conta que se sentiu “sobrecarregada”, especialmente quando aulas de três horas — as únicas em directo e que serviam para os alunos apresentarem dúvidas — chegavam a durar cinco ou seis. E, tal como o colega, quando os professores faziam greve, ficava sem aulas. Apesar de tudo, o valor das propinas permaneceu inalterado: 25 mil euros por ano para estudantes internacionais que vivem fora da União Europeia, o que perfaz um total de 77 mil euros pelos três anos de licenciatura.

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Yuxuan He à entrada da UCL Yuxuan He

Antes de se juntar ao The Student Group Claim, que está disponível para representar estudantes de todas as universidades, Yuxuan tentou reaver o dinheiro com uma reclamação nos serviços da UCL para queixas não académicas. Em troca, recebeu 260 euros de compensação pelas greves, mas pelas aulas online não teve direito a nada. “A UCL nunca nos falou deste procedimento interno. Fui eu que estava a consultar o site e encontrei”, explica.

Tal como os três outros estudantes, defende que o valor das propinas foi demasiado elevado quando comparado à qualidade das aulas, mas, ao contrário dos colegas, diz que “teve sorte com os professores”, que trabalhavam mais horas para compensarem os estudantes. “Obviamente, não foi tão bom como se tivesse aulas presenciais. Não tinha acesso à biblioteca ou então era muito limitado, e num curso de Ciências Sociais precisamos de fazer pesquisa com livros. Mas o mais decepcionante foi a UCL ter dito que os estudantes que ficaram em Londres iam ter aulas presencias, coisa que não aconteceu, mesmo quando o confinamento já tinha acabado”, adianta a estudante que, entretanto, já regressou à Alemanha.

Oito meses para resolver o caso

A 24 de Maio deste ano, a queixa formal dos cinco mil estudantes da UCL chegou ao Supremo Tribunal de Justiça de Londres, que, a pedido da universidade, suspendeu o caso durante oito meses para que as partes pudessem chegar a acordo fora dos tribunais. Se tal não acontecer, o caso vai a julgamento.

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Zina Larbi teve aulas online durante dois anos Zina Larbi

Segundo o advogado, numa primeira fase, o objectivo é fazer com que a UCL reembolse parte do valor das propinas aos ex-alunos afectados pelas greves de professores, aulas online, ou ambos, como é o caso de Daniel Amery, Yuxuan He e Zina Larbi. O passo seguinte é apresentar queixas formais contra as universidades que os restantes 135 mil alunos do The Student Group Claim frequentaram e conseguir que também sejam recompensados financeiramente.

“Acreditamos que termos tido a nossa primeira audiência em tribunal contra a UCL torna a perspectiva de os alunos serem ouvidos em tribunal realista e é algo que deveria ser seriamente encarado pela UCL e por outras universidades”, destaca Joshua Battat.

Em declarações ao P3, Kathleen Armour, vice-provedora da UCL, garante que a universidade respeita o direito de os estudantes apresentarem queixa “se sentiram que não receberam o apoio que esperavam”. No entanto, defende que o procedimento de queixas interno da universidade é a forma mais “rápida e eficiente” de resolver o caso.

David Hamon, que actualmente trabalha numa empresa de políticas públicas internacionais na mesma cidade onde estudou, espera que, além de servir os interesses dos alunos, a queixa que começou seja motivo para mostrar como são as universidades do Reino Unido. Instituições que, de acordo com o jovem, cobram propinas elevadas, “mas não são capazes de pagar o suficiente aos professores” que protestam fazendo greve. “No sistema de ensino do Reino Unido, os estudantes ficam com dívidas para o resto da vida. Com os custos de vida em Londres, 60% dos meus rendimentos vão para despesas com a renda e depois tenho os empréstimos. Qualquer apoio financeiro que reflicta o serviço que recebi é uma ajuda.”

Parte do salário de Yuxuan He, que também trabalha em Londres como negociadora num escritório de advogados, tem como destino pagar as despesas com o alojamento e alimentação, por isso, o reembolso é bem-vindo. O mesmo é verdade para Daniel Amery, que está a semanas de voltar a lidar com o elevado custo de vida na cidade quando começar o mestrado em Direito.

Joshua Battat acredita que a queixa pode mesmo levar a protestos semelhantes entre estudantes de outros países. “Acho que vai dar que pensar a outras universidades se virem uma faculdade do Reino Unido ser levada a tribunal por ter feito algo que nós consideramos ser errado aos alunos durante a pandemia”, conclui.

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