Procurador-geral do Arizona acusado de ocultar desmentidos de fraude eleitoral

Mark Brnovich, do Partido Republicano, começou por rejeitar as queixas de Donald Trump após a eleição presidencial de 2020, passando a promovê-las quando se candidatou ao Senado dos EUA.

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Protestos de apoiantes de Donald Trump no Arizona, em Novembro de 2020 Reuters/CHENEY ORR

O ex-procurador-geral do estado norte-americano do Arizona, o republicano Mark Brnovich, terá ocultado dos eleitores uma série de documentos internos que confirmavam a inexistência de fraude na eleição presidencial de 2020.

Segundo o jornal Washington Post, Brnovich manteve em segredo informações importantes sobre uma investigação do seu gabinete que decorreu entre Setembro de 2021 e Setembro de 2022, enquanto fazia campanha para ser escolhido como candidato do Partido Republicano ao Senado dos EUA.

As revelações sobre a forma como Brnovich geriu a investigação do seu gabinete foram feitas pela actual procuradora-geral do Arizona, a democrata Kris Mayes, eleita para o cargo em Novembro do ano passado.

Segundo os documentos cedidos por Mayes ao Washington Post, a investigação liderada pelo seu antecessor "consumiu mais de dez mil horas de trabalho" e chegou a ocupar todos os 60 investigadores do gabinete do procurador-geral.

Quando Brnovich lançou a investigação, em Setembro de 2021, as queixas de fraude lançadas por Donald Trump e promovidas pelos seus apoiantes já tinham sido desmontadas em várias auditorias e nos tribunais norte-americanos.

Entre Novembro e Dezembro de 2020, Trump perdeu mais de 60 processos judiciais, incluindo no Supremo Tribunal dos EUA; e, durante o mesmo período, todos os 50 estados norte-americanos certificaram os respectivos resultados eleitorais (que, em conjunto, deram a vitória a Joe Biden) e os votos foram confirmados pelo Colégio Eleitoral e pelo Congresso norte-americano.

Por essa altura, em Novembro de 2020, Brnovich rejeitou as teorias da conspiração promovidas por apoiantes de Trump e afirmou, em público, que nada indicava que Biden não fosse o vencedor legítimo da eleição no Arizona.

Por esse motivo, foi atacado pelo então Presidente dos EUA, o que tornaria quase impossível a sua escolha como candidato dos republicanos ao Senado nas eleições de 2022.

Talvez por esse motivo, segundo indica a cronologia dos acontecimentos revelada agora pelo Washington Post, Brnovich terá ordenado a realização de uma nova investigação aos resultados no Arizona oito meses depois de Biden ter tomado posse como Presidente dos EUA — e pouco depois de uma outra auditoria, realizada por uma empresa com ligações às franjas mais extremistas do Partido Republicano, ter falhado numa nova busca por provas da suposta fraude.

Durante o ano de 2022, com Brnovich já como candidato nas primárias republicanas a senador dos EUA pelo Arizona, os investigadores do seu gabinete fizeram vários pontos de situação sobre as investigações.

Segundo o Washington Post, essas comunicações foram partilhadas com Brnovich e deixavam claro que não tinha sido encontrado nenhum indício de fraude generalizada, e muito menos que pudessem dar alguma credibilidade às mais rebuscadas teorias da conspiração, como a queixa de que o voto electrónico tinha sido alterado por satélites operados pelo Exército italiano.

Ao mesmo tempo, o então procurador-geral do Arizona — e candidato a senador dos EUA nas primárias republicanas — decidiu não divulgar os pontos de situação que iam sendo feitos pelos seus investigadores, e manteve acesa a ideia de que ainda havia muitas dúvidas sobre a eleição presidencial de 2020.

Em Abril de 2022, por exemplo, Brnovich participou no podcast de Steve Bannon (visto como um dos ideólogos das políticas defendidas pelo anterior Presidente dos EUA) e disse que a investigação que estava a ser feita pelo seu gabinete levantava "sérias dúvidas" sobre os resultados da eleição de 2020.

"É frustrante para todos nós, porque eu penso que todos sabemos o que aconteceu em 2020", disse o então procurador-geral do Arizona aos microfones de um dos podcasts mais ouvidos pelos apoiantes de Trump.

Durante as investigações do gabinete de Brnovich, vários congressistas republicanos do Arizona que tinham promovido em público queixas de fraude eleitoral recusaram-se a repetir as mesmas alegações sob juramento.

Num desses casos, o republicano Mark Finchem, responsável pela queixa de que mais de 30 mil votos falsos tinham sido contabilizados na zona de Phoenix, escusou-se a repetir a mesma acusação quando foi questionado pelos investigadores do gabinete de Brnovich.

Segundo o Post, Finchem fez mesmo questão de dizer, sob juramento, que não tinha na sua posse quaisquer provas de fraude e que "não queria roubar tempo" aos investigadores.

Brnovich acabaria por ser derrotado nas eleições primárias do Partido Republicano pelo candidato apoiado por Trump, Blake Masters — que, por sua vez, perderia a eleição geral contra o candidato do Partido Democrata e detentor do cargo, Mark Kelly.

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