Polícia britânica acusada de ocultar papel do racismo em mortes de homens negros

A probabilidade de um homem negro ser morto na sequência de uma intervenção da polícia é sete vezes maior do que num caso semelhante em que o alvo é um homem branco, segundo a organização Inquest.

Foto
O homicídio de George Floyd por um polícia branco, em 2020, motivou meses de protestos em várias cidades dos EUA Reuters/ERIC MILLER

Cinco anos antes do homicídio do norte-americano George Floyd, morto por asfixia durante uma operação policial no estado do Minnesota em 2020, o britânico Adrian McDonald — um homem negro de 34 anos — morria numa carrinha da polícia de Chesterton, no Norte de Inglaterra, quando implorava por ajuda. “Por favor, não consigo respirar”, disse McDonald quatro vezes, antes de perder a consciência, e perante a inacção do agente que o acompanhava:Não consegues respirar, porque estás a falar, respira fundo.

Segundo o relatório da polícia, McDonald estava sob o efeito de cocaína e foi detido por agir de forma errática numa festa de aniversário. Durante a detenção, foi atingido com uma arma Taser e mordido por um cão pastor-alemão, que lhe provocou cinco ferimentos até ao músculo num braço e numa perna.

O caso, ocorrido em Dezembro de 2014, ficou concluído em Novembro de 2018 com a absolvição dos agentes, depois de um tribunal de júri ter decidido que não era possível determinar uma causa única para a morte de McDonald; segundo os jurados, a morte deveu-se a uma mistura dos efeitos da cocaína e do stress provocado pelo ataque do cão-polícia e pelos choques eléctricos.

Nesta segunda-feira, os casos de McDonald e de outros cinco homens negros que morreram durante operações policiais no Reino Unido foram recordados pela organização britânica Inquest, num relatório que revela, pela primeira vez, a dimensão das diferenças de tratamento entre brancos e negros às mãos da polícia em Inglaterra e no País de Gales.

Racismo sistémico

Segundo o relatório, intitulado Não consigo respirar: raça, morte e policiamento britânico, a probabilidade de um homem negro ser morto na sequência de uma intervenção da polícia é sete vezes maior do que num caso semelhante em que o alvo é um homem branco. Mesmo assim, o racismo não faz parte dos problemas que são investigados e identificados nos relatórios oficiais e nas decisões judiciais.

As provas são conclusivas. Padrões de racismo sistémico profundamente enraizados, em todas as forças policiais e através dos tempos, resultam em números desproporcionais de mortes de homens negros na sequência do uso de medidas de contenção, diz Deborah Coles, a directora da Inquest — um grupo criado em 1981 para apoiar familiares de pessoas mortas sob custódia das autoridades britânicas.

As organizações de investigação e de supervisão não examinam o potencial papel da raça e do racismo nas mortes que envolvem a polícia. Este facto torna o racismo invisível nas narrativas oficiais e impede a justiça, a responsabilização e a mudança, diz Coles no comunicado da Inquest sobre o relatório.

A organização identificou 23 mortes de homens negros e 86 mortes de homens brancos em 119 casos registados entre 2012/2013 e 2020/2021. Estes números dizem que os homens negros têm sete vezes mais probabilidades de serem mortos na sequência de operações da polícia do que a proporção da população que representam, que é cerca de 4%; em comparação, a probabilidade de o mesmo acontecer aos homens brancos é apenas 0,86 maior do que a proporção que representam, estimada em 82%.

A falta de diversidade na polícia significa que os agentes têm menos oportunidades para desenvolverem relações pessoais com as comunidades negras, o que resulta na formação de preconceitos, diz Andy George, presidente da associação britânica de polícia negros, citado pelo jornal The Guardian.

Este facto pode ter influência na tomada de decisões, com os agentes a poderem ver as pessoas negras como maiores, mais fortes e mais perigosas, devido à sua falta de exposição a comunidades negras, diz o mesmo responsável.

Além da diferença nas probabilidades, o relatório da Inquest revela também que nenhum agente foi alvo de processo disciplinar nem acusado criminalmente por racismo; e acusa as autoridades de supervisão de não levarem em conta a possibilidade de o racismo ter influência nas mortes de homens negros.

Um dos principais alvos do relatório é o Gabinete Independente para a Conduta da Polícia (IOPC, na sigla original), um organismo de supervisão das queixas contra agentes em Inglaterra e no País de Gales. Num comunicado, o IOPC salienta que está empenhado na redução do número de mortes sob custódia da polícia, em colaboração com a Inquest e outras organizações.

As provas de desproporcionalidade no uso dos poderes policiais têm sido uma preocupação com consequências na confiança do policiamento em comunidades negras, asiáticas e de minorias étnicas, diz ainda o supervisor. Foi por isso que lançámos um programa, em 2020, para estudar a discriminação no policiamento, por forma a apresentarmos propostas concretas para a reforma das políticas e das práticas de policiamento.”

Sugerir correcção
Ler 2 comentários