The Last of Us: porque devíamos preparar-nos para catástrofes — e como o fazer

Quando há uma catástrofe natural temos duas hipóteses: tomar decisões em pânico ou tratar com antecedência. Talvez esteja na hora de todos nós encontrarmos o nosso prepper interior.

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The Last of Us é uma série lançada pela HBO que teve como inspiração um jogo Liane Hentscher/HBO

A aclamada série pós-apocalíptica The Last of Us, baseada num conhecido jogo, tem uma personagem, Bill, que conseguiu sobreviver ao pesadelo porque se preparou para tal — o próprio apresenta-se como "sobrevivencialista".

O prepping, como é conhecido este comportamento, é uma forma de antecipar e nos adaptarmos a condições iminentes de calamidade ao prepararmos as nossas casas, quartos e bunkers para que consigamos sobreviver neles.

A covid-19, a crise alimentar causada pela invasão russa à Ucrânia e o custo de vida actual estão a pôr os preppers nas bocas do mundo.

Apesar de tentarem combater os estereótipos, ainda se associa o prepping a um pensamento apocalíptico. A investigação também sugere que os preppers tendem a ser conspirativos, muitas vezes exibindo características como baixa amabilidade, paranóia e cinismo.

No entanto, muitos de nós tornamo-nos preppers parciais durante a pandemia. Comprámos papel higiénico e tivemos de racionar produtos, adquirindo as quantidades que os supermercados locais permitiam. A sobrevivência e um certo grau de pânico certamente guiaram as nossas acções, às vezes de forma irracional.

Prepara-te da maneira certa

No entanto, se for feita da maneira certa, a preparação – pensar no futuro e ser proactivo – é o oposto de comprar em pânico. Ao invés disso, significa que vamos guardar produtos considerados essenciais por um longo período de tempo, para que no futuro não haja necessidade de comprar à pressa.

Quando existe uma grande procura de produtos, há quebras de stock o que causa o “efeito chicote”, um fenómeno onde a acção exagerada por parte dos consumidores cria uma procura insustentável e exagerada por toda a cadeia de mantimentos. Isto pode levar à falta de produtos e a elevados níveis de desperdício, devido à produção desnecessária de stock. Comprarmos, mais cedo, aquilo que consideramos ser essencial ajuda a prevenir esta situação.

Preparar para emergências é, também, a escolha lógica e racional. Um saco para emergências – saco que contém elementos essenciais como comida, água, medicação, rádios e lanternas – é considerado fundamental em regiões que são propícias a desastres naturais que podem necessitar de uma rápida evacuação.

Os preppers pré-pandemia tendem a estar associados ao medo irracional de um apocalipse, enquanto aqueles que se precaveram com bens essenciais durante a pandemia têm sido, muitas vezes injustamente, representados como acumuladores. Nós propomos uma nova forma de preparar para eventuais fenómenos, sem a antecipação do apocalipse e o estigma de ser um acumulador. Deixamos-te quatro formas de seres um prepper responsável.

1. Alimentação a conta-gotas

Teres consciência dos teus hábitos de compra permite uma preparação responsável enquanto suavizas a grande procura na cadeia de bens essenciais, levando a menos escassez. Comprar aquele item extra de algo ou mesmo mais um pacote de papel higiénico apenas para estar de reserva pode-se tornar, ao longo do tempo, a tua forma normal de comprar, em vez de compras excessivas de emergência.

2. Criar um saco de emergências personalizado

Enche o saco com aquilo que é essencial para ti e para a tua família, como utensílios, produtos de higiene, baterias de energia solar, velas e alimentos e medicamentos com prazo de validade alargado. Na eventualidade de um desastre natural, como tempestades de neve e inundações ou até cortes de energia, teres o saco de emergências preparado vai fazer com que te sintas mais pronto para enfrentar a tempestade que se avizinha.

3. Regresso aos alimentos caseiros

Desenvolve a capacidade de cozinhares os teus próprios alimentos essenciais, como o pão ou a massa, e investe em equipamentos e ingredientes que permitam fazer isso. A massa era um alimento básico que estava presente em praticamente todas as despensas durante a pandemia, o que levou a uma escassez generalizada do produto. Um prepper responsável aprenderia a fazer o próprio alimento e dava de comer aos vizinhos ao mesmo tempo. O mesmo vale para o pão.

4. Considera usar mais comida enlatada

A preparação pode ser uma solução provisória para ultrapassar qualquer crise actual. A introdução de alimentos enlatados mais baratos ou produtos com um prazo de validade mais longo na lista de compras pode ajudar a aliviar as pressões financeiras. Os produtos enlatados têm um prazo de validade alargado, portanto são menos propensos a estragarem-se antes de serem usados em momentos de necessidade.

Caso aconteça outro evento que leve a que façamos compras em pânico, os preppers responsáveis também podem ajudar a limitar as quebras de stock. Eles já terão tudo aquilo de que precisam e não vão contribuir para deixar as prateleiras dos supermercados vazias. Talvez esteja na hora de todos nós encontrarmos o nosso prepper interior.


Exclusivo P3/The Conversation
Kamran Mahroof é professor de análise de cadeias alimentares na Universidade de Bradford.
Liz Breen é directora da Digital Health Enterprise Zone e professora de Operações de Serviços de Saúde na Universidade de Bradford

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