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Na China, jovens com autismo encontram na música a sua língua

Quando a covid lhe suspendeu as aulas de música, um professor criou um projecto para jovens que sofrem de uma perturbação do espectro do autismo. Hoje, são os ​Star Kids.

Zu Wenbao, 23 anos, durante uma actuação no Renji Hotel, um parque de campismo nos arredores de Pequim, China. Zu, que não se expressa verbalmente, começou a aprender música gratuitamente no Estúdio Chen, que abriu aulas para pessoas com autismo logo no início da pandemia Reuters/TINGSHU WANG
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Zu Wenbao, 23 anos, durante uma actuação no Renji Hotel, um parque de campismo nos arredores de Pequim, China. Zu, que não se expressa verbalmente, começou a aprender música gratuitamente no Estúdio Chen, que abriu aulas para pessoas com autismo logo no início da pandemia Reuters/TINGSHU WANG

Os quase três anos de restrições por causa da pandemia de covid-19 têm sido particularmente difíceis para o aldeão chinês Zu Wenbao, de 23 anos. Mas, graças ao Estúdio Chen de Pequim, a música tornou-se a sua tábua de salvação.

Zu é uma das 14 milhões de pessoas na China que sofrem de uma perturbação do espectro do autismo (PEA), que se caracteriza por dificuldades na comunicação e interacção social. Apesar das leis para assegurar a integração de pessoas com autismo, muitos na China sabem pouco sobre a perturbação e faltam apoios, acusam os especialistas.

Para Zu, o autismo implicou não conseguir adaptar-se à escola ou sentir-se incapaz de estar entre outros jovens na sua aldeia natal, Bei, no Nordeste da província de Heilongjiang. Mas, tudo isso mudou quando começou a aprender música no Estúdio de Chen, que arrancou com as aulas gratuitas para pessoas com autismo, logo no início da pandemia.

Zu, que não se expressa verbalmente, juntou-se à escola de Pequim em 2020. Desde então, aprendeu a teclar, e canta em coro com os outros quatro membros da banda Star Kids que o seu professor, Chen Shensi, criou no ano passado para pessoas com autismo.

“Sem música, sem estas lições, ele não teria nada”, avaliou a mãe de Zu, Zhao Guorong, que viaja com o seu filho todos os domingos durante duas horas, apanhando três autocarros, da sua actual casa, nos arredores de Pequim, à escola. Tudo para que o jovem possa assistir às aulas.

“Os jovens da aldeia vão todos para o trabalho ou para a escola, por isso sem a música e sem a banda, ele não teria pares com quem socializar”, acrescentou a progenitora. E nem a diferença de idades entre Zu e outros elementos da banda parece ser um problema: “Embora os miúdos que têm aulas de música sejam mais novos e tenham metade do seu tamanho, todos cuidam dele como se fosse um irmão.”

A China aprovou várias leis para assegurar a inclusão de pessoas com autismo, a mais recente das quais em Setembro para padronizar o rastreio, diagnóstico e intervenção do autismo para crianças pequenas.

Mas, ainda que o apoio tenha melhorado nos últimos 20 anos, milhões de crianças ainda carecem da terapia comportamental e do apoio educativo de que necessitam, apontam os especialistas.

As pessoas com autismo tendem a ter dificuldade em arranjar emprego, e o fundador da escola de música, Chen, espera poder mudar isso dando aos seus alunos uma forma de ganhar a vida: a banda Star Kids já realizou vários concertos em eventos realizados em acampamentos nos arredores de Pequim.

Chen confessa que sabia muito pouco sobre autismo antes de começar a ensinar um baixista com PEA em 2020.

Quando os confinamentos e as restrições à circulação chegaram com a covid-19, Chen viu as suas aulas de música reduzidas. Iniciou, então, as aulas gratuitas para pessoas com autismo. “A covid tem sido difícil, e eu queria fazer o máximo que pudesse para lhes dar alegria através da música”, explica.

Chen admite que, no início, ficava muito frustrado com os seus alunos, já que tinha de se repetir vezes sem conta. Disciplinar a turma também foi duro, mas, a dada altura, os alunos começaram a comunicar melhor consigo e uns com os outros.

“Já é tão difícil [para os jovens com autismo] comunicarem com outras pessoas, quanto mais trabalhar num emprego típico, mas podem ser capazes de ganhar a vida sendo artistas”, observou.

“Até certo ponto, penso que a música pode ser a sua língua.”