Em São Tomé, há quem queira aniquilar as “pessoas que podem incomodar politicamente”

Ex-presidente da Assembleia Nacional são-tomense falou pela primeira vez depois de ter sido libertado por falta de provas do seu envolvimento na alegada tentativa de golpe de Estado.

Foto
Delfim Neves, o ano passado, quando ainda era presidente da Assembleia Nacional Lourenço da Silva

Delfim Neves, ex-presidente do Parlamento são-tomense Delfim Neves afirmou na quarta-feira que o assalto ao quartel-general militar, na sexta-feira, foi “uma montagem” para o acusar e pediu a intervenção da comunidade internacional perante “a perseguição para aniquilação física” de opositores políticos em São Tomé e Príncipe.

“Isso foi uma montagem apenas para acusar Delfim Neves e supostamente Arlécio Costa”, declarou o político que ficou em terceiro lugar nas eleições presidenciais do ano passado. Delfim Neves foi libertado na terça-feira, com termo de identidade e residência e obrigatoriedade de apresentação periódica às autoridades, depois de ter sido preso pelos militares, ao início da manhã de sexta-feira, por alegadamente ter sido identificado como um dos mandantes do ataque.

“Quero apelar à população para estar atenta. (…) Se não houver uma forma de travar esta onda de acções maquiavélicas, garanto-vos que não vamos parar por aqui. As próximas vítimas que neste momento ainda continuam na lista vão desaparecer sem rasto”, afirmou, em conferência de imprensa.

Quatro pessoas morreram, em circunstâncias que estão sob investigação, e 16 foram detidas, incluindo 12 militares, após o ataque de sexta-feira a um quartel militar em São Tomé e Príncipe, numa acção classificada como “tentativa de golpe de Estado” pelo primeiro-ministro, Patrice Trovoada, autoridades são-tomenses e condenada pela comunidade internacional.

Entre os mortos está o antigo oficial do ‘batalhão Búfalo’, da África do Sul, Arlécio Costa, condenado em 2009 por tentativa de golpe de Estado, e apontado como suspeito de ser um dos mandantes do ataque juntamente com Neves – ambos detidos pelos militares nas suas respectivas casas.

Nas suas declarações à imprensa, Delfim Neves disse esperar que “a comunidade internacional entenda e faça qualquer coisa rapidamente”.

“O que está a acontecer no nosso país é uma perseguição de aniquilação física das pessoas que podem incomodar politicamente. E eu sou uma delas. Não estou tranquilo porque se a estratégia falhou, por alguma razão, então vão ao plano B, C ou D”, comentou.

Três dos quatro atacantes e Arlécio Costa morreram na sexta-feira e imagens dos homens com marcas de agressão, ensanguentados e com as mãos amarradas atrás das costas, ainda com vida e também já na morgue, foram amplamente divulgadas nas redes sociais. Alguns vídeos mostram Arlécio Costa no chão, de mãos presas, a ser agredido com um pau.

O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, brigadeiro Olinto Paquete, afirmou no domingo que os três assaltantes morreram na sequência de uma explosão quando os militares procuravam libertar o refém e Arlécio Costa porque se “atirou da viatura”.

Delfim Neves, eleito nas legislativas de Outubro de 2018 pelo Partido de Convergência Democrática (PCD), presidiu ao parlamento são-tomense no anterior mandato, que terminou com a vitória da Acção Democrática Independente (ADI), de Patrice Trovoada, com maioria absoluta nas eleições de Setembro passado.

Nestas legislativas, foi eleito deputado, juntamente com o ex-secretário-geral da ADI Levy Nazaré, pelo movimento Basta, criado em Junho do ano passado. Actualmente tem o mandato suspenso.

Nas eleições presidenciais de 2021, Delfim Neves contestou o resultado, falando em fraude “maciça”, atrasando durante vários meses a realização da segunda volta, que terminaria com a vitória de Carlos Vila Nova, do mesmo partido de Trovoada.

Sugerir correcção
Comentar