Nas margens do rio Minho, “eu atravesso a fronteira e ela atravessa-me”

A série de Maria do Mar Rêgo rio raia, que explora as margens do rio que separa Portugal e Espanha, é um "um elogio à geografia ibérica".

Fotogaleria

"Atenta ao rio, atenta às margens", Maria do Mar Rêgo fotografou, entre 2014 e 2020, o rio que separa, a norte, Portugal e Espanha. "Comecei por ir ouvir o tímido cantar da nascente, em Meira, e depois segui a corrente, o caudal, o vapor nas Burgas e a voz da massa de água do Minho até à sua foz", descreve a fotógrafa portuguesa na sinopse do projecto rio raia, que se encontra em exposição, até dia 30 de Outubro, no Museu dos Biscainhos, em Braga, integrado no festival Encontros da Imagem

Maria do Mar Rêgo, que cresceu em Montemor-o-Novo, recorda, a título de exemplo, as Burgas de Ourense como um lugar marcante. "Esta visão de uma água que não pára de sair das bocas da fonte fascina-me, depois o vapor de água, o vapor de Minho…", divaga, numa entrevista concedida ao P3, através de e-mail. "Volto amiúde a Valença do Minho que tem uma ponte inesquecível, um braço metálico que atravessa o rio, que liga os dois lados, as duas margens. Gosto daquele sítio. Há muitos lugares que me marcaram, outros marcarão outras pessoas."

O trabalho tornou-se, nas palavras da fotógrafa, "uma geografia muito emocional". As imagens que captou, refere, "abrem espaço à divagação, à surpresa, à descoberta do que caracteriza estes lugares, estas paisagens e estes elementos isolados pela composição fotográfica". Com elas pretende compreender o poder de uma fronteira sobre os modos de vida.

Mas o que une e separa, afinal, as gentes dos dois lados da fronteira? Quais os elementos visuais que encontrou e que denunciam essa relação? "Creio que a língua é um elemento que separa", explica Maria. "No entanto, em alguns pontos notei que quanto mais nos aproximamos da linha de separação mais a mistura das línguas é forte, tornando a separação menos notável."

Ao longo das várias jornadas, Maria do Mar Rêgo deparou-se com alguns factos surpreendentes. "Encontrei pessoas que, mesmo vivendo muito perto da fronteira, a menos de dez quilómetros, não a tinham atravessado em 40 anos. Esta é uma realidade talvez provocada pelo relevo acidentado que isola as pessoas." Acrescenta que a ausência de transportes públicos terrestres que realizam a travessia entre as muitas vilas raianas é mais escassa do que o número de voos diários entre as grandes cidades portuguesas e espanholas, o que contribui grandemente para o isolamento das populações.

A série rio raia, que se debruça exclusivamente sobre o rio Minho, é um capítulo de um projecto de maior alcance intitulado A Travessia, que "faz a leitura da relação entre Portugal e Espanha através dos quatro grandes rios da Península Ibérica". O Douro, o Tejo e o Guadiana são os outros rios visados no projecto. "Estes rios são elementos de separação e de comunhão entre os dois países, entre territórios capitais e territórios marginais", algo que interessa particularmente a Maria do Mar Rêgo, que residiu no estrangeiro durante os seus anos formativos.

"Revelou-se indispensável dar corpo a várias perguntas sobre este território e a relação entre Portugal e Espanha, países e línguas essenciais para mim, por motivos familiares e de formação. Eu atravesso esta fronteira e ela atravessa-me." O projecto é, de certo modo, "um elogio à geografia ibérica, sobretudo à geografia portuguesa"

©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo
©Maria do Mar Rêgo